Se há um bairro paulistano intimamente ligado à colônia italiana é a Bela Vista, ou Bixiga como muitos gostam de chamar. Sabemos que outras localidades paulistanas, como o Brás, tem forte influência destes imigrantes, porém com os anos essa identidade reduziu-se muito.

Quando deixaram a lavoura do interior paulista em busca de outras atividades de trabalho na capital, os italianos encontraram no cenário e geografia da Bela Vista a localidade ideal para se estabelecerem.

Essa ocupação deu-se principalmente entre a última década do século 19 e a primeira do século 20, quando casas com inspiração as que eles encontravam na Itália começaram a ser construídas pelos chamados capo mastri, que erguiam as casas apenas com base em seus conhecimentos, sem formação técnica específica.

Desta herança arquitetônica do bairro muita coisa se perdeu, mas ainda há muito o que se observar e admirar. Entre elas aquela que é considerada a casa mais antiga existente no bairro:

Construída em 1889, esta residência é tão antiga quanto a nossa república. Localizada nos números 231 e 237 da Rua São Domingos é um dos poucos exemplares remanescentes cuja construção é comprovadamente do século 19.

O que parece um único lar na verdade são dois. Algo muito comum em construções antigas, erguia-se um único sobrado para duas residências para que se otimizasse a ocupação do lote. Por isso as duas entradas distintas.

A casa do andar superior era costumeiramente ocupada pelo proprietário enquanto o piso térreo era destinado a locação ou para outros familiares. Na maioria das vezes a casa de cima era a melhor, com maior iluminação e ventilação mais eficiente.

Observá-la é um misto de alegria e tristeza. Esta dualidade no sentimento se deve especialmente pelo fato de tão antiga construção estar neste péssimo estado de conservação de sua fachada.

Tombada como patrimônio histórico paulistano, o imóvel sofre com anos e anos de poucos cuidados com sua manutenção. A pichação se espalha por toda a extensão da fachada, há pontos do reboco que caíram e algumas partes da pintura, que parece ser um tanto quanto antiga, já descascou.

Apesar disso a residência mantém preservados, mesmo que a duras penas, todos os elementos originais de sua fachada, tais como o gradil nos arcos sobre as portas (onde pode ser encontrado a data de construção), as portas de madeira, as janelas tanto do andar superior como do inferior e o elegante beiral de ferro da sacada ao centro da edificação.

O armazém vizinho também é muito antigo (clique para ampliar)

Esta preciosidade do bairro do Bixiga precisa ser restaurada, trata-se da história viva do bairro e um remanescente de uma época importante da formação não só daquela região mas de toda São Paulo.

Imóveis tombados de uma parte da região central paulistana conta com a isenção de IPTU, porém isso não basta. É necessário uma política moderna e eficiente de incentivos para aqueles que desejam restauram e preservar seus imóveis ou para aqueles que desejam patrocinar a iniciativa.

É sabido que a Lei Rouanet está ai para isso, mas muitas vezes os custos para a recuperação de uma fachada como esta são pequenos e poderiam ser repassados por construtoras que erguem edifícios na região, como uma espécie de fundo para a valorização do bairro. Ganharia o empreendimento novo com um bairro mais bonito e também a municipalidade.

Veja mais fotos do imóvel (clique na foto para ampliar):

CURIOSIDADE:

Na fotografia abaixo, de 1981, o sobrado já não estava nas melhores condições de preservação. Entretanto apresentava-se melhor do que atualmente.

Crédito: Sidney Corralo / Jornal Tarde

NOTA:

*1 – Capo mastri eram mestres de obras 100% italianos cujo trabalho foi bastante importante na urbanização paulistana, especialmente entre 1890 e as primeiras décadas do século 20. Boa parte das residências construídas em bairros como Mooca, Brás e Bela Vista foram realizadas por eles. Estima-se que cerca de 3/4 dos pedreiros da época também eram de origem italiana.

Bibliografia consultada:

  • Bela Vista – História dos bairros de São Paulo – PMSP/SMC – pp 58 a 63
  • Guia dos Telefones CTB São Paulo de 1961 – pp 97
  • São Paulo Antigo – Martins, Antônio Egídio (1911) – pp 67
  • Jornal da Tarde – Edição de 26/10/1981

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comments

  • axellslade 01/02/2019 at 14:09

    E esse armazém do lado esquerdo da casa? Me parece bem antigo tambem!

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    • Douglas Nascimento 01/02/2019 at 14:32

      Sim, quase tão antigo quanto. vamos falar dele em outro artigo na próxima semana

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  • Marcelo Sanches 01/02/2019 at 14:41

    Puxa Douglas, além do péssimo estado de conservação, essas duas parabólicas acabaram com a fachada. Fico triste ao ver tanto descaso com a nossa história.

    Reply
  • Alexandre Giesbrecht 01/02/2019 at 14:42

    Douglas, a foto de 1981 é de autoria de Sidney Corralo/Jornal Tarde (saiu na edição de 26 de outubro daquele ano). Se quiser, pode também usar a foto de 2011 que bati da casa: http://blog.pittsburgh.com.br/2011/01/casa-mais-antiga-bixiga/. Abraço!

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    • Douglas Nascimento 01/02/2019 at 15:20

      Valeu Alexandre!
      Fotografei essa imagem de um jornal na casa do seu pai, mas tinha perdido a referência. Obrigado!

      Reply
  • victor saeta de aguiar 01/02/2019 at 14:55

    Douglas, amigo, boa tarde….Quando vai escrever algo sobre a fantástica construção onde está hoje o corpo de bombeiros da Domingos de Morais x Santa Cruz. Trata-se de uma construção histórica que pertenceu à Guarda Noturna de São Paulo, incorporada em 1956 à Guarda Civil do Estado São Paulo, que posteriormente seria anexada à Força Pública do Estado de São Paulo formando a atual Policia Militar do Estado de São Paulo? Grande abraço!
    (Desculpe o assunto diferente da mensagem publicada.)

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    • Douglas Nascimento 01/02/2019 at 15:19

      Ótima sugestão! Vou pesquisar o conteúdo para poder escrever.

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  • Valeria Fulp 01/02/2019 at 14:56

    Que triste ver uma joia histórica como essa, que deveria ser um ponto histórico e respeitado, ser abandonado pelos proprietários e pelo governo responsavelmente tombamento…..de que adianta to bar, se não dão sequência a manutenção dessas obras primas……vergonhoso .

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  • Carlito Aguilar 01/02/2019 at 15:08

    Bela postagem, realmente só ter a isenção do IPTU não resolve, a continuar assim em breve irá para o chão. Muito triste a falta de respeito com o patrimônio.

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  • Alexandre 01/02/2019 at 15:33

    Pelo maps, logo na frente desse prédio existe outro, de que ano seria?

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  • Fábio Peres (@fps3000) 01/02/2019 at 16:31

    O interior dessas casas pode ser atualizado, a fim de que seja utilizado de forma decente pelas pessoas?

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  • Brahim 01/02/2019 at 21:09

    Douglas, boa noite! Vejo diversos imóveis nestas situação. Neste caso, é invadido ou ainda tem dono?

    Reply
    • Douglas Nascimento 02/02/2019 at 12:00

      São diversas as situações.
      Existem casas ocupadas, alugadas, fechadas por não ter mais dono, fechadas por problemas de inventário… essa ai é alugada.

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  • Luiz Henrique 02/02/2019 at 08:27

    Olá! Douglas, você afirma em seu texto que os “capo mastri” construíam as casas apenas com seus conhecimentos, sem uma formação técnica específica. Mas, cara, como ficavam bonitos esses imóveis! Imagina se eles tivessem formação! Quem dera as casas de hoje, especialmente nas periferias, fossem tão belas e bem feitas como antigamente, em que as mesmas tinham começo, meio e fim. Os “pedreiros de fim-de-semana” de hoje, também não têm qualquer conhecimento técnico, mas, diferentemente dos “capo mastri”, eles erguem quatro paredes tortas, colocam telhas em cima e…pronto! A casa está “pronta” e fica assim mesmo. Nunca, jamais farão o acabamento. Não há essa preocupação, vamos dizer assim, em realmente terminar o imóvel. Antes, isso não acontecia. É só uma observação.

    Reply
  • Monica Bergander Zimbres 03/02/2019 at 11:33

    Seria possível a ocupação desses imóveis para outras finalidades, que não moradias, como ocorre em alguns imóveis históricos do centro de Santos, transformados em restaurantes, por ex ? Obviamente restaurados e mantidas as fachadas ?

    Reply
  • Antonio Claudio Andrade 04/02/2019 at 19:32

    fale do bras 🙂

    Reply
  • Andrea 04/02/2019 at 20:36

    As casas do final do século XIX eram feitas de tijolos, mas frequentemente tinham as paredes internas eram feitas em tabique ou taipa francesa. Será que essa tem? Alguém sabe?

    Reply
  • M. Cecilia 11/02/2019 at 08:15

    Lamentável o estado em que ela se encontra.
    Completp descaso, desrespeito ababdono
    Corta me o coração ver ainda a maldade das pessoas sujando, maltratando, enfeiando a casa com pichações

    Reply
  • gabriel 18/04/2019 at 16:14

    No famoso mapa de São Paulo de 1881 aparece um quadrilátero que acreditamos ser a Casa de Dona Yayá, em função da localização e orientação. Ela seria, portanto, “mais velha”, ainda que completamente alterada vinte anos depois. (http://www.arquiamigos.org.br/info/info20/img/1881-download.jpg)

    Reply
  • Romilde de Matos 01/09/2019 at 14:44

    Sou descendente de italianos e adorei esse resgate cultural. Parabéns

    Reply
  • Carlos Alberto Cano 02/09/2019 at 12:20

    O galpão ao lado,era o estábulo da casa,onde mantinham os cavalos e carroças.
    Hoje é uma serralheria, a mais antiga, atualmente,do bairro.( Sou o propriotário).
    Uma informação que não e verdade…
    Eu pago todos os anos IPTU,e cada ano aumenta mais de 1.000,00
    2019pagoR$ 9.941,00.
    Tenho desejo de fazer melhoras,.as não tenho insentivo pelo alto valor do IPTU.

    Reply
  • André Alberto de Oliveira Santos 25/09/2019 at 16:13

    Um grande amigo meu mora atualmente no 237. A casa por dentro está boa, mas não excelente. Uma viagem no tempo, sem dúvida, principalmente quando tocamos choro na sala dele. Bom demais!

    Reply
  • Alessandro Pizano 14/10/2019 at 17:44

    eu Nasci nesta casa !!!!

    Reply
    • Patricia Struzani Bellino 20/10/2019 at 19:11

      Ola boa tarde!
      Meu nome é Patricia, estou fazendo um trabalho de conclusão de curso de arquitetura, gostaria de saber se pode me dar mais informações das distribuições dos cômodos da casa.
      Obrigada.

      Reply
  • Alessandro 14/10/2019 at 17:51

    Douglas , eu nasci nesta casa . ( de 1977 até 1989 ) …. boas recordações dos meus avós

    Reply
  • Joao 15/10/2019 at 10:29

    Olá Douglas, você saberia me dizer quem é o proprietário desta residência ou com quem eu poderia falar para obter essa informação? Estou fazendo um trabalho escolar e preciso muito disso!

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