Existe uma hashtag bastante utilizada nas redes sociais conhecida como #tbt, ou throwback thursday, algo mais ou menos como quinta-feira do regresso (no tempo) em português. Nessa data pessoas e empresas publicam em suas contas fotografias ou links que remetem a alguma coisa no passado com bastante relevância em suas vidas.

E foi essa hashtag bastante popular que me inspirou a escrever este texto sobre as cada vez mais raras mercearias em São Paulo.

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A foto acima, de 1985, mostra a mercearia que pertenceu a meu saudoso pai durante alguns anos da década de 1980. Oriundo do setor de vendas de café, meu pai ao sair da empresa que trabalhava optou por trabalhar dali por diante como comerciante. E foi assim até falecer em 1992 aos 49 anos de idade.

Antes da mercearia, meu pai já havia tentado a sorte em uma padaria no bairro do Limão. Apesar de bem sucedida, a distância entre nossa casa e o estabelecimento era um problema (morávamos em São Miguel Paulista). Não sobrava tempo livre para nada.

Foi essa situação que levou meu pai a vender sua parte na sociedade da padaria para poder abrir uma pequena mercearia no bairro de Vila Matilde, zona leste de São Paulo. A localidade era perfeita para tudo em nossa vida: era no bairro do meu colégio, a Escola São José de Vila Matilde, perto da casa da minha avó Alzira, na Vila Granada, e não muito longe de nossa casa. Foi perfeito!

A padaria de meu pai (de camisa azul) em 1982 (clique para ampliar)

A mercearia logo agradou no bairro e tornou-se muito próspera, estando sempre abarrotada de produtos e com uma freguesia boa e fiel. Naquela época o hipermercado mais próximo era o extinto Paes Mendonça na Marginal Tietê e não haviam supermercados ao redor.

Ali meus pais vendiam de tudo: vassouras, produtos de limpeza, itens de higiene, lâmpadas, alimentos, doces, massas, sacolas, alguns tipos de legumes, frios, além de pão e leite (longa vida e saquinhos B e C).

Tinha uma boa gama também de produtos à granel, como feijão, milho de pipoca, alguns farináceos, café e até óleo de soja. De todos esses produtos os mais fascinantes para mim eram justamente estes dois últimos. Era muito legal ver a máquina de moer café na hora (similar a da foto ao lado), que fazia moagem diretamente em pacotes de 1/4 (250 gramas) ou 1/2 (500 gramas), com o cheiro inebriante do café espalhando-se pelo estabelecimento. Já o óleo por sua vez, era bem curioso pois vinha em tambores enormes e eram envasados na hora em vasilhames trazidos pelos próprios fregueses.

A mercearia tinha também uma outra porta que não aparece na foto que abre este artigo, onde era um pequeno boteco de bairro, com as pingas e salgados típicos dos bares de bairro (ovo colorido, sardinha enrolada e bolovo).

Meus pais venderam o estabelecimento em 1986, quando decidiram mudar para outro ramo de comércio desta vez do lado de nossa casa lá em São Miguel. A razão era ir para um negócio maior e mais próspero e mais perto de casa, já que meu pai começou a ficar muito doente devido aos anos de tabagista inveterado. Agora era uma granja e abatedouro.

Enquanto esse novo negócio é papo para, quem sabe, um outro #tbt, vamos voltar ao assunto em foco aqui.

Bastante presentes em São Paulo ao menos até o final da década de 1990, as mercearias de bairro estão morrendo e desaparecendo muito rapidamente em nossa cidade. Elas ainda existem, é verdade, mas são cada vez mais raras e mais distantes da região central e de áreas mais nobres.

São substituídas cada vez mais por pequenos mercados de grandes redes, como os Mini Mercados Extra ou seus concorrentes de redes como Dia ou Carrefour. Gigantes e com o apoio de toda uma logística de seus grupos empresariais, elas simplesmente estão varrendo do mapa as pequenas mercearias e mercadinhos, bem como as grandes redes de farmácia estão dizimando as simpáticas farmácias de bairro.

Nos Estados Unidos regulamentos municipais protegem os pequenos estabelecimentos similares às nossas mercearias. Quem vai a Nova Iorque, por exemplo, não vai encontrar um hipermercado na Times Square, porém encontrará o que precisa em uma das várias Groceries Stores espalhadas por toda a Big Apple.

Grocery Store na 9a Avenida em Nova Iorque (clique para ampliar)

Ao contrário das mercearias americanas, as chamadas Groceries Stores, grandes supermercados ou hipermercados em plena região central são grandes agentes complicadores de trânsito e não pagam nenhuma compensação por isso. É o poder das grandes redes sufocando e dificultando a vida de todos os paulistanos.

Será que estamos no caminho certo e eles no caminho errado ? Custo a acreditar.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Sandro Lopes 30/08/2018 at 16:23

    Boa tarde douglas, esses dias pensando na minha infancia nos anos 90 me veio a mente um hipermercado que havia na marginal tiete, onde hoje se situa a Leroy Merlin, gostaria de relembrar o nome, sera que voce se lembra? nao sei se era bon marche mas gostaria muito de lembrar. se puder me ajudar agradeço.

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    • Danilo Rodrigues 28/09/2018 at 19:59

      O supermercado originalmente era um Sendas – era a única loja da rede carioca aqui em SP. Depois mudou de nome para Bon Marché. Como bom carioca, chegou a ter uma filial da churrascaria Porcão. O Leroy infelizmente demoliu o prédio do supermercado original e construiu um novo ao lado, no ano passado.

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  • fps3000 30/08/2018 at 16:30

    Quase todos os minimercados são franquias. As mercearias (e mercadinhos) não estão morrendo, estão apenas mudando de estratégia, se despersonalizando para sobreviver. Bom ou ruim, não sei.

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    • Heloisa 02/09/2018 at 22:28

      As grandes redes de mercados não compram as mercearias transformando-as em suas mini lojas empregando seus ex-proprietários ou funcionários. Elas simplesmente abrem uma loja nova e então, vão engolindo sim os pequenos estabelecimentos. Pode ser o caminho da evolução mercadológica motivada pela maximização do lucro, mas perde estilo, lembranças e história com certeza.

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    • Adreas 30/09/2018 at 15:24

      Parei de ler em “as mercearias (e mercadinhos) não estão morrendo”. Eçe aí çabi di tudu, né?

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  • RAFAEL ZANOTTE 30/08/2018 at 16:40

    Incrível seu texto. Eu moro no Limão! Onde era a padaria?

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  • Francisco Roxo 30/08/2018 at 16:59

    Douglas Nascimento, sou fã de seu trabalho, muitos me reportam a minha infância.
    Me emociono ao lembrar do Mercadinho do Sr. Alfredo, na Avenida Milton, na Vila Galvão-Guarulhos, onde meus Pais compravam por mês com caderneta, ao pagar ganhavamos um pedaço de queijo fresco e uma lata de goiaba.
    Saudades de um tempo que está só na lembrança.
    Um abraço!
    Boa tarde!

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  • Vinicius Lauria 30/08/2018 at 17:01

    Sensacional!! Minhas avós tinham varias daquelas sacolas no canto superior esquerdo da primeira foto, que saudade dessa época….

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  • Roberto Ribeiro Mariano 30/08/2018 at 17:38

    Douglas, parabéns pelo artigo!! Aguardando ansiosamente o artigo sobre a granja e abatedouro. Abraços.

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  • Clara Vaitiekunas 30/08/2018 at 17:54

    Coisa mais linda que era o café moído na hora. O cheiro, o pacote quentinho. 🙂

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  • Flávio Marques 30/08/2018 at 18:25

    cara, este post me remeteu a dois estabelecimentos aqui no meu Bairro. O empório do “seu” Assis e do “seu” Ricieri. Ambos os predinhos existem, só que ambos estão de portas fechadas. Lamentavelmente.

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  • Daniel 30/08/2018 at 18:38

    Olá Douglas, gostei muito dessa estória. Trouxe até uma certa nostalgia… realmente nos EUA, as Groceries resistem bravamente, recentemente fui para NY com minha esposa e ficamos hospedados em uma casa de família pelo Airbnb, no Brooklin. Adoramos a experiência de andar bastante a pé pelas ruas daquele bairro. Lá, se tropeça em pequenos estabelecimentos comerciais, como as Groceries que você cita, que também são chamadas de “DELI” (vários estabelecimentos tem um nome próprio seguido dessa palavra) que são espécies de lojas de conveniência onde se encontra vários itens além de poder comprar lanches.
    Outro tipo de estabelecimento que está desaparecendo, pelo menos aqui em São Paulo, capital, são as pequenas Papelarias. Está cada vez mais difícil encontrar uma. Recentemente voltei ao bairro do Brooklin (SP) onde morei mais de 36 anos e a saudosa Papelaria DUX, que ficava na esquina da av. Morumbi, não existe mais. Ela chegou a ter 2 unidades no mesmo bairro, bem próximas, sendo a outra na rua Joaquim Nabuco, continuação da av. morumbi. Óbvio que isso é um reflexo de algo análogo algo que ocorreu com as mercearias, sendo “engolidas” pelas grandes redes de mercados e supermercados. Faz pensar se daqui a alguns anos ainda vai exitir aquele pequeno e charmoso estabelecimento comercial, tocado por um pai ou mãe de família…

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    • Douglas Nascimento 31/08/2018 at 10:12

      As delis tem lanches, como aqueles feitos com bagels ou os famosos gyros turcos ou gregos. Adoro! rsrs
      Boa sugestão essa da papelaria, vou preparar uma pauta sobre isso.

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  • JORGE ROBERTO COELHO FERREIRA 30/08/2018 at 20:17

    Ao lado da minha casa há uma, com todos os distintivos que deve ou deveria ter uma mercearia. Esta foi aberta há mais de trinta anos e não dá sinais de encerrar as atividades tão cedo. Vende de tudo, menos legumes e verduras; movimentada o dia todo. Sempre abriu às 6:00 h fechando às 20:30 h. Bem sei que é um caso à parte, embora demore, um dia encerrá suas atividades, como tantas outras.

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  • Ana M M González 30/08/2018 at 21:45

    Amei esta postagem! Adorei a história de sua família. Linda! Lembrei-me da minha infância. Na Moóca, tinha uma mercearia em que se comprava de tudo. Com uma caderneta em que era marcada a compra. O pagamento era feito no final do mês. Bom era quando minha avó liberava os doces para os netos… rsrs…

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  • Emerson de Faria 01/09/2018 at 00:49

    As mercearias estão desaparecendo mas algumas ainda resistirão bravamente porque elas oferecem um tipo de comodidade que as grandes redes de supermercados jamais terão, assim como toda a sorte de pequenos comércios, como os depósitos de materiais de construção.

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  • Gabriel Moreno 05/09/2018 at 02:42

    Existem dois estabelecimentos desses (não são exatamente mercearias, mas pequenos comércios de bairro) que o pessoal chama pelo nome afrescalhado de “empório”. São bons estabelecimentos, com atendimento gentil, bons produtos e boas opções.

    Agora, tem também as unidades do Dia, aquele Pão de Açúcar de bairro (esqueci o nome) e também o Extra, e são horríveis de verdade, atendimento não muito bom e os produtos muito ruins, principalmente na parte de verduras, legumes e frutas. É de dar vergonha o vegetal que eles colocam lá, alguns quase podres.

    Eu realmente me pergunto como que essas redes se mantém, pois a diferença de qualidade é abissal. Saudações, Douglas, e demais pessoal do São Paulo Antiga!

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  • CLEIDE I JUNQUEIRA 05/09/2018 at 13:57

    Meu avô Vicente saiu do centro de São Paulo para uma casa com armazém na frente, que acabara de construir na Vila Mariana lá pela década de quarenta. A casa era cercada por chácaras.
    A freguesia foi aumentando e meus dois tios Ernesto e Mário ajudavam meu avô para atender bem a todos.
    Ladeando a casa, um corredor largo e parte coberto levava até a garagem no fundo do terreno. A família se reunia todas as quintas e domingos e a criançada reunida fazia a maior algazarra. Em datas festivas, meu avô colocava uma mesa longa nesse corredor para que almoçassem todos juntos. Muita alegria, brincadeiras e cantoria bem italianas. E a comida sempre farta e deliciosa.
    Paralela a esse corredor ficava a horta, cuidada pessoalmente por meu avô que ali plantava um pouco de tudo: verduras, legumes e lembro-me bem das frutas: mamão, uvaia, morangos, manga.
    O armazém tinha um bom tamanho e tinha de tudo para cozinhar: cereais, conservas, temperos, verduras, legumes, batatas, azeites, vinhos, refrigerantes, carvão e um balcão de doces que os netos adoravam. Menos eu. Sempre muito difícil para comer, eu não aceitava nada. Meu avô me pegava no colo mostrava a coleção de doces por trás dos vidros do balcão de doces perguntando “Qual você quer?“ A resposta era sempre “Não quero”. Eu às vezes pedia um copo de “leitinho cor de rosa” que na verdade é leite com groselha e ele ficava satisfeito por conseguir me alimentar.
    Meu tio mais velho fazia a entrega das compras no armazém na redondeza com uma carroça puxada por um garboso cavalo branco, o Chinito. Anos depois Chinito foi aposentado e meu avô o levou para a fazenda de um grande amigo seu, em Porto Feliz. A família toda chorou.
    Saudade da minha infância, dos meus tios, primos, dos meus pais, e do meu vovô que já não estão mais aqui.

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  • Dan 16/10/2018 at 16:19

    Acho que os pequenos estabelecimentos que resistem as grandes redes de supermercados deveriam de unir em forma de grupo nem que seja no WhatsApp/Facebook ou outra rede social, como forma de divulgação e organização.
    As vezes tem gente que mora num bairro e vai até outro de carro pra comprar alguns itens fantantes e nem sabe que as vezes numa rua próxima pode ter uma mercearia com aqueles itens e com preços similares.
    O que também está matando as mercearias são os impostos, preço do aluguel, falta de segurança e outras burocracias que podem variar de cidade pra cidade ou estado pra estado.

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