Se hoje em dia paquerar, ficar, namorar ou seja lá qual for o nome que a turma coloca hoje em dia é bastante simples, o mesmo não se pode dizer do tempo de nossos avós e bisavós.

Não existia internet, a fotografia ainda era algo raro e caro e o telefone não era para todos. Então como é que nossos antepassados faziam para dar aquela paquerada e conhecer novos amigos e futuros parceiros ?

Uma das maneiras mais conhecidas era o famoso footing. O termo em inglês fazia referência ao hábito de andar para cá e para lá em algumas importantes ruas e avenidas de São Paulo para avistar aquela pessoa que faria seu coração bater mais forte ou, ao menos, render um bate papo descontraído.

Moças e rapazes no footing paulistano em 1919

As avenidas São João, Celso Garcia, Rangel Pestana e Paulista eram as favoritas para as caminhadas de paquera. Quando se pensa nas ruas, Augusta e Direita eram as mais lembradas.

Nestas vias, em uma época que não existiam shopping centers, cafés, confeitarias e até lojas de departamento, como o Mappin, serviam de point para uma parada para um café, sorvete ou mesmo o tradicional chá das cinco. Uma delas, a Garoto, está até hoje funcionando no bairro do Brás (fundada em 1944).

Já pensou receber um cartão como esse no footing ?

Mas além do footing, como era a troca de mensagens, os recadinhos e aquelas indiretas para o crush ? Bem, para isso, além das cartas, haviam as revistas da época, como especialmente em São Paulo, a Cigarra.

A sessão de mensagens e correspondências da Cigarra era a favorita dos jovens. Era ali que havia a troca de mensagens entre pessoas que trocaram olhares no footing ou que se viram nos corredores do Mappin, por exemplo. E que corriam súplicas de amores não correspondidos, indiretas, pedidos de amizade, análise de perfil de desconhecidos(as) e, como não podia faltar, as brincadeiras.

Fizemos uma seleção de algumas dessas mensagens trocadas em revistas da época (A Cigarra, Careta) e também em jornais para que você conheça como era a paquera na época das nossas vovós, divirta-se!

Um exímio jogador de basquete

Um pinguço de Studebaker

Mulato procura mulata

Feia e amorosa, chegou a sua vez!

Uma dupla de folgados!

Flor do Vale e Flor de Lodo…

Tâmara, musa dos fazendeiros

Na galeria abaixo, uma sequência de perfis, correspondências e recados publicados na revista A Cigarra nos anos de 1916 a 1920:

As revistas também davam dicas e sugestões de como escrever para namorados e paqueras. Abaixo, dois modelos de cartas que encontrei publicado em uma revista da década de 1950. Trata-se de uma carta de adeus e uma de rompimento:


Outra coisa bastante comum era escrever poesias para falar de amor (correspondido ou não). A caderneta de João Herdy Boechat, que publicamos aqui recentemente é um exemplo bem interessante (clique aqui para ler).

E TINHA FOOTING GAY ?

Quando lembramos de paqueras do passado, temos a impressão de que não havia nada para os gays da época. Apesar de serem tempos muito mais difíceis que os de hoje, especialmente para se assumir ou ter aceitação, mesmo assim haviam locais de footing em São Paulo que eram conhecidos por ser mais frequentados por aqueles que buscavam – mesmo que de maneira muito discreta – a paquera com pessoas do mesmo sexo.

Praça da República, Largo do Arouche  e rua Major Sertório eram as mais frequentadas por este público. Tinha também um dresscode entre os cavalheiros da época, como o uso somente de gravata vermelha, por exemplo. Em breve voltaremos a este tema.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Jorge Roberto Coelho Ferreira 29/03/2018 at 19:27

    Esses cartões, tal qual aparece neste post, me parece que eram de uso geral pelo Brasil afora. Vi um original que um amigo, hoje com noventa e cinco anos, me mostrou; levava na carteira há décadas. Via-se nitidamente a marca da dobra no canto esquerdo!. Há um transcrito com o mesmo texto no livro Jubiabá, de Jorge Amado. Acho que todo conquistador de beira de calçada que se prezasse, levava sempre alguns consigo. Curiosamente, até os anos oitenta, havia o costume de se dobrar o canto direito de um cartão de visita que se desse para alguém

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  • Maria Luiza 01/04/2018 at 16:08

    Divino!!!!! Amo essas lembranças!

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  • Raul Ferreira Gomes 29/04/2018 at 16:59

    Muito bom. Minha história começou com um anuncio na revisra Sétimo Céu, Namoramos, noivamos e casamose estamos juntos até hoje com 52 anos de casados e 58 anos após as primeiras correspondências.

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    • Douglas Nascimento 29/04/2018 at 17:09

      Que legal Raul! E guardaram as cartinhas ?

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