Corria o dia 27 de março de 1968 quando uma movimentação pouco usual agitava a capital paulista. O então prefeito municipal dirigia-se junto a uma grande comitiva de políticos, assessores e convidados para um evento de despedida: Aconteceria a última viagem de bondes da Cidade de São Paulo.

Tão populista como qualquer outro político, Faria Lima faria da derradeira viagem de bonde um evento festivo que seria comentado e lembrado por muito tempo. Afinal, lentos, problemáticos e deficitários os bondes não deixariam – naquele momento – saudades na grande maioria da população.

A ilustração abaixo, publicada no jornal O Estado de S. Paulo no dia seguinte à extinção do serviço de bondes, deixa claro que ninguém chorava pelo fim daquele modal:

Crédito: O Estado de S. Paulo

Os bondes foram planejados para serem extintos na gestão do prefeito anterior, Prestes Maia, entretanto dificuldades para a plena substituição do serviço de maneira eficaz atrasaram o projeto para o próximo mandatário.

Chegada a hora, a festividade agitou a Vila Mariana bem diante do prédio do Instituto Biológico, ponto inicial da então última linha sobrevivente de bondes da cidade, a ˝Instituto Biológico – Santo Amaro˝. Ao todo um cortejo composto de 12 bondes partiria dali até seu ponto final, com eventos previstos nas paradas do Brooklin e Piraquara, com chegada ao fim do trajeto prevista para às 20:00hs.

Crianças observam um bonde da janela de edifício na Avenida São João: Fim de uma era.

Para conduzir o bonde principal, onde o prefeito Faria Lima estaria a bordo, dois símbolos do transporte coletivo municipal: De um lado Francisco Lourenço Ferreira, o mais antigo motorneiro de São Paulo em atividade, do outro o mais jovem motorista de trólebus da cidade. Uma viagem repleta de simbolismos para justificar o fim do serviço: sai o velho, entra o novo.

Os bondes estavam todos enfeitados para a viagem final. Chegaram ao ponto do Instituto Biológico com luzes de enfeite, faixas e muitas bandeiras do Brasil em um evento que faria inveja a Odorico Paraguaçu. Ao chegar no Largo 13 de Maio em Santo Amaro o evento serviu de palanque não só para o prefeito, como também para vereadores paulistanos, deputados e até para o governador paulista.

˝Adeus, Nasce a Nova São Paulo˝

A frase acima estava presente em cada um dos doze bondes que fizeram o trajeto de encerramento, como que se fosse um mantra do progresso despedindo-se do passado e do que entendiam como atraso. Entretanto na Europa e nos Estados Unidos os bondes seguiam operando sem críticas da população. A grande diferença entre São Paulo e estas demais cidades do mundo que mantiveram os bondes funcionando não era a idade do serviço, mas a qualidade deles.

Bonde trafegando pela Avenida São João em meados da década de 50

O sucateamento dos bondes paulistanos, os problemas crônicos e as paradas constantes deviam-se muito mais a falta de investimento do que qualquer outro motivo. Os ônibus elétricos, anunciados pela prefeitura como grandes substitutos e símbolos da modernidade logo sofreram com o envelhecimento da frota e o sucateamento dos carros, tal qual seus antecessores. Alguns trólebus dos anos 1960 circularam aos trancos e barrancos até o início do século 21, na gestão da prefeita Marta Suplicy.

Hoje discute-se muito se aquela decisão de retirada dos bondes foi a mais acertada. Ou se o prefeito Faria Lima sucumbiu ao lobby do diesel e dos fabricantes de carroceria (a principal delas, a CAIO tinha fábrica no bairro da Penha). Correta ou não a decisão até hoje inspira pensamentos prós e contras.

Aos paulistanos restaram as lembranças, boas e más.

Bonde paulistano na década de 1940

Bibliografia consultada:

  • O Estado de S.Paulo – 27/03/1968 pp 12
  • O Estado de S.Paulo – 28/03/1968 pp 19
  • São Paulo Antiga – 25/01/2014 link
  • Folha de S.Paulo – 27/03/2018 Cotidiano B3
  • Ilustração do bonde: O Estado de S.Paulo 

Galeria de fotos – Os bondes da CMTC (clique na foto para ampliar):

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • J.C.Cardoso 27/03/2018 at 17:06

    Aqui no Rui acabou em 1966. Ainda em alguns locais (como na Ilha do Governador), se arrastou internamente até 1967. Em 1968 não havia mais em lugar algum da então Guanabara. Só restou Santa Teresa (mesmo assim, depois do acidente, um lixo de serviço, espaçado e ruim).

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  • João Mario Burim 27/03/2018 at 17:19

    Felizmente, em Santos, os bondes voltaram no centro velho como parte do roteiro turistico, aliás, muito bom. É lamentável, mas no Brasil, assim como os bondes, o transporte ferroviario de passageiros só pode ser visto nos museus.

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  • Jorge Roberto Coelho Ferreira 27/03/2018 at 19:30

    A última, das poucas vezes que andei de bonde, foi justamente nesta linha, acho que um mês antes de encerrar. Fomos visitar minha mãe que estava internada na Beneficência Portuguesa. O lobby das montadoras e fábricas de carrocerias venceram. Seria uma ótima linha, hoje em dia, com veículos modernos.

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  • Roberto MartinsRoberto 27/03/2018 at 22:30

    O que a corrupção faz com todo o país, acabaram com os bondes, acabaram com os troleibus, acabaram com os trens de viagem (passageiros) tudo em nome da modernidade que nunca chegou, é engraçado que em alguns países ainda tudo isto funciona….mas os corruptos continua ativos.

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  • João 28/03/2018 at 12:11

    Acho fantástica a História de São paulo. Parabéns pelos textos sensacionais. Mesmo tendo nascido aí e morando longe sou apaixonado por essa cidade maravilhosa.

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  • Carlos Fatorelli 28/03/2018 at 17:19

    Um complemento dos últimos bondes de Santo Amaro/SP

    50 ANOS DA ÚLTIMA VIAGEM DOS BONDES DE SANTO AMARO / SÃO PAULO : 27 de março de 1968

    http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2018/03/50-anos-da-ultima-viagem-dos-bondes-de.html

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  • Pedro Christensen 29/03/2018 at 18:59

    Só retire os “EUA” em “Enquanto nos EUA e europa os bondes continuaram”
    Faria Lima, Prestes Maia, Juscelino Kubitschek, Lúcio Costa… Eles apenas refletem o pensamento de uma era, e isso foi justamente encabeçado pelos EUA.

    Douglas, recomendo fortemente esse documentário que expõe bem a questão:
    https://youtu.be/p-I8GDklsN4

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    • Douglas Nascimento 29/03/2018 at 19:09

      Pode ter sido encabeçado por eles (e foi) mas lá eles continuaram e ainda existem em algumas cidades. Eu, pelo menos, já andei 2x de bonde por lá. Vou ver o vídeo! Abraços

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  • Paulo Clístenes Vieira da Silva 02/04/2018 at 21:33

    Os transportes públicos no Brasil sempre pecaram pela falta de conservação e manutenção, como também pelos maus serviços prestados à população.

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    • Roberto Martins 03/04/2018 at 10:39

      É verdade, eu trabalhei muito tempo com transporte urbano e os empresários não fazem o investimento em melhorias como: ônibus om ar condicionado, conforte, segurança até mesmo aos motoristas e todos os ônibus deveria ser motor traseiro e cambio automático, mas os empresários optam sempre pelo mais barato e quando o fazem é determinado pelo estado ou prefeitura.

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  • Emerson de Faria 05/04/2018 at 12:26

    Em que pese o saudosismo, creio que os bondes saíram de circulação no momento certo, não haveria espaço para eles hoje, aliás isso nem é exclusividade paulistana, todas as grandes do mundo aboliram há muito tempo seus serviços de bonde, que só existem em cidades de médio porte, nunca numa megalópole como São Paulo.

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