Os estabelecimentos tradicionais do centrão da cidade estão morrendo. E nada está sendo feito para evitar que ícones de boêmios e glutões sobrevivam ao cada vez mais rápido declínio daqueles que por décadas mantiveram a região ativa dia e noite.

Na região próxima da Praça República, cada vez mais jogada às traças, já são três points famosos que no período de um ano encerraram as atividades: Os restaurantes La FarinataChopp Escuro e mais recentemente o bar Amigo Leal:

A inconfundível fachada do Amigo Leal (clique para ampliar)

Último bastião da Amaral Gurgel do período anterior à construção do Minhocão, o Amigo Leal foi o estabelecimento mais marcante daquela via com sua inconfundível fachada que imitava um típico chalé alemão.

Inaugurado em 1967 pela dupla Leopoldo Urban e Emílio Noronha, o bar nasceu como um agradável ponto de encontro para frequentadores do centro, turistas, trabalhadores da região em busca de happy hour e moradores das cercanias. Desde o princípio a casa caiu no gosto popular.

Frequentadores do Amigo Leal na sua inauguração em 1967

Em 1969 Leopoldo Urban deixou a sociedade e ruma para outro canto paulistano para fundar aquele que hoje – mesmo sem o brilho de outrora – é um dos sobreviventes do centro: o Bar Léo (abreviação do nome do próprio Leopoldo).  No princípio inclusive chamava-se Amigo Léo.

Servindo chopp de primeira qualidade, sempre bem tirado e bem servido por garçons gentis e atenciosos o Amigo Leal passou incólume pela decadência que o Minhocão impôs a região e por diversas crises econômicas, mas parece não ter resistido a mais recente delas.

As mesas com as tradicionais toalhas de xadrez.

Antes da luz vermelha acender definitivamente, a amarela já piscava no estabelecimento desde 2012 quando a troca de proprietários passou a ser mais frequente. Desde então 5 donos se revezaram no comando da casa que a cada troca descia mais um degrau rumo ao fim. Foi de 2014 para cá a casa passou a dar indícios de que algo não ia bem.

Senti o sinal do fim dos tempos para o Amigo Leal no final de 2017, ocasião de minha última ida ao bar. Foi uma ida sem frequentar pois ao adentrar no estabelecimento com a esposa e um grupo de amigos notei que a alma do estabelecimento já havia morrido.

Em um dos cantos onde ficavam mesas tinha surgido um palco. E sobre ele uma dupla desafinada de cantores entoava algum sucesso sertanejo em um bar de tradição alemã. Recuamos e fomos para outro boteco próximo. Era o meu fim da linha para o Amigo Leal.

Detalhe da decoração do Amigo Leal

Não sei se a heresia do sertanejo no alemão foi a tampa do caixão, mas é certo que meses depois, já em meados de 2018, o Bar Amigo Leal fechou às portas.

A princípio perguntando aqui e acolá ouvia-se os mais diferentes rumores sobre o bar fechado: vai trocar de dono só, dizia um – está reformando dizia o outro. Mas a verdade é que ao reabrir o ponto, o Amigo Leal estava morto e dando lugar a apenas mais um boteco, sem graça, sem alma e comum como centenas de outros espalhados pela cidade.

Foi o fim dolorido e silencioso de 51 anos de história boêmia e bons serviços etílicos prestados a paulistanos e turistas.

De minha parte lembrarei com saudade do steinhaeger servido na canequinha de porcelana, dos pratos alemães e do famoso petisco Doideira Alemã deliciosa invenção da casa que consistia um saboroso joelho de porco com maçã verde sobre uma porção de doritos.

Descanse em paz, Amigo Leal.

*1 O prato doideira alemã era tão pedido e venerado pelos frequentadores do bar que tornou-se a primeira receita de um estabelecimento paulistano a ser registrada como propriedade intelectual pela Abrasel, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes.

TESTEMUNHO DE UM TRADICIONAL FREQUENTADOR:

Semanas atrás Jorge Ribeiro Neto leitor aqui do blog e cliente assíduo do Amigo Leal nos escreveu encaminhando seu depoimento sobre o estabelecimento. Segue abaixo suas palavras sobre o encerramento das atividades do bar:

“Vou mensalmente a São Paulo, a trabalho, e invariavelmente parava no Amigo Leal, o qual frequentei por cerca de seis anos.
Era um bar tranquilo, de ótimo chope e a tradição de chegar e ser recebido por um dos competentes garçons – Adalberto ou Pereira – com uma porção dos excelentes canapés e uma dose de Steinhaeger na canequinha de porcelana, que podia ser levada pra casa (tenho mais de cinquenta…)
Tenho a certeza de que aquele era um lugar sagrado. Assim que entrava naquele salão, respirava toda a tradição do Centro velho de São Paulo.
Com a venda do bar começou a descaracterização… As velhas toalhas em xadrez foram substituídas por outras laranjas… Um vasinho com flor passou a adornar as mesas, beirando o cafona. Até aí, tudo bem… até porque o novo dono reformou a cozinha e o banheiro – o que foi muito bom.
Um dia, no entanto, fiquei chocado quando cheguei ao bar, sempre recepcionado pelo gente-boa Manoel (segurança), e vi um cartaz de “MÚSICA AO VIVO”. Não queria entrar, mas minha mulher insistiu… Resultado: uma grande decepção. O bar lotado, cheio de gente que nunca havia estado lá… Enfim, era outro bar.
Outro ponto crucial foi a troca da tradicional caldereta do chope, que era mais longa e dava à bebida um resultado único, pelas tradicionais com o logo da Brahma que a gente vê por aí.
Daí foi só piorando… rodas de samba, “quartanejas” (nada contra, mas não para aquele lugar), até a venda para o atual dono, culminando com a troca do nome.
Enfim, acabou o sonho!”

E você, frequentava o Amigo Leal ? Deixe seu comentário e seu testemunho!

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Karina 24/07/2018 at 21:15

    Frequentei o Amigo Leal e o Chopp Escuro nos sábados de 2011-2012. O Chopp Escuro pela feijuca e caipirinha, o Amigo Leal pelo chopp e petiscos com meu colegas de um curso de inglês da região.
    Até hoje o Baiano Doido (Lagarto desfiado e temperos especiais) é um dos sanduíches mais gostosos que comi – pão sempre fresco e crocante e a pimenta da casa, picante, forte, deliciosa. Claro, antes aquela mortadela empilhada no pão francês e mostarda escura. Tudo com chopp cremoso.
    Nunca saí trançando as pernas desse lugar – apesar da insistência de empurrar chopp dos garçons (que tinha meta, claro, pois muitos eram sócios).
    Nunca mais voltei quando deixei o curso. Sempre pensava em ir e levar o marido para conhecer. Pena…
    Acho que não abria para almoço de semana também… pensei em levar meus colegas, mas também não aconteceu.
    Ao Amigo Leal, um brinde.

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  • Emerson de Faria 25/07/2018 at 01:51

    O centro segue incólume a toada da decadência. Não será também que a dinâmica e a clientela mudaram e eles perderam a razão de existirem, que exige tudo cada vez mais fluido, descartável e amorfo, fazendo com que estes estabelecimentos se tornem cada vez mais inviáveis? Sinal dos tempos…

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  • Fabio 25/07/2018 at 15:45

    Quando comecei a trabalhar no centro em 99, alternava entre o Léo e o Leal.
    Fui a última vez ao Leal em 2.014 e não percebi os sinais.
    Triste !!!!
    Agora , isso aqui vai ficar cheio de hamburgerias hispster e bares bregas , estilo Lilian :'(

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    • Emerson de Faria 28/07/2018 at 02:40

      Tudo muito amorfo, cafona e descartável, bem ao gosto da clientela de hoje em dia. Esses estabelecimentos de outrora tinham clientela fixa, coisa que esses novos bares jamais terão.

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  • Jana 06/08/2018 at 16:58

    Uma pena ter fechado um bar tradicional e cheio de histórias.
    Fiz o meu Chá Bar e escolhi o bar por causa do nome, acreditei que apenas os amigos leais poderiam estar lá e fazer parte de um momento tão especial na minha vida.

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  • Osvaldo Francisco Alves Jr. 17/09/2018 at 00:13

    Frequentei o Amigo Leal desde a metade da década de 80.
    Vivi as diversas transformações decorrentes de novos proprietários…..
    Todos os locais que eu frequentava já se foram: Joan Sehn, Ilhabela Bar, Estalagem, Gigetto, Amigo Leal…

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  • PAULO FERREIRA 31/10/2018 at 17:04

    Caramba! Eu não sabia… que tragédia!!!

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