Hoje quando passamos pela Avenida do Estado, podemos ter a má impressão de estar em uma via completamente esquecida pelo poder público. Entretanto, nas primeiras décadas do século 20 a situação era bastante diferente. Como ilustra o anúncio abaixo, de 1911, que anunciava a então recém criada Vila Economizadora.

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Apesar de ser uma ilustração, é possível ter uma noção de como era a região cerca de 1 século atrás. Rio limpo e margeado por árvores, áreas verdes, praças públicas e muitas casas térreas, tanto na própria Vila Economizadora como nas proximidades. Contudo, o tempo foi passando e o crescimento mal planejado e desordenado transformou a região em um área caótica. As construções antigas, preferencialmente térreas, quase nenhuma sobreviveu. A Vila Economizadora segue por lá, tombada como patrimônio histórico municipal, mas boa parte do casario antigo da própria avenida do Estado desapareceu, salvo raríssimas exceções, como esta localizada no número 1918.

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Erguido entre as décadas de 1910 e 1920 trata-se de um belo conjunto composto por comércio e residências. Foi construída em um padrão arquitetônico bastante comum à época e que hoje é muito raro de se encontrar, especialmente na região central de São Paulo. São três residências pequenas geminadas ao armazém que se estendem pela rua Odete Sá Barbosa, além do próprio ponto comercial e de uma casa maior, possivelmente do proprietário original, na porção da avenida do Estado.

Vista a partir da Rua Odete Sá Barbosa (clique para ampliar).

Vista a partir da Rua Odete Sá Barbosa (clique para ampliar).

Como não são tombados como patrimônio histórico municipal (acorda DPH!) os imóveis vão sobrevivendo à própria sorte e possivelmente pela falta de interessados em comprar e construir algo ali, trecho consideravelmente ermo da avenida, especialmente à noite. Enquanto a rua lateral é essencialmente residencial. Embora não estejam em total originalidade, boa parte dos imóveis permanecem bem fiéis ao que era na época de sua construção. Enquanto as duas casinhas do lado da rua Odete Sá Barbosa tiveram alterações significativas, os demais permanecem com sua estrutura praticamente inalterada, embora mal conservada.

Detalhe da fachada (clique para ampliar).

Detalhe da fachada (clique para ampliar).

O armazém teve apenas suas portas comerciais originais, que eram bastante estreitas, alteradas por outras mais atuais e espaçosas. A casa principal, que fica à esquerda do armazém, perdeu sua porta original, de madeira, e ganhou uma porta de aço, já que a residência perdeu um pedaço de sua área para o ponto comercial, que é um bar. Apesar destas alterações todas, uma boa recuperação da fachada e uma pintura bem feita daria aos imóveis um aspecto bem mais atraente. O bar que funciona ali, embora não tenhamos fotos para apresentar, é uma viagem no tempo interessante também. Uma vez que sua última reforma parece ter sido na década de 70, com azulejos coloridos bem típicos daquela época. Voltaremos lá para tirar novas imagens. A Vila Sá Barbosa:

Mapa de São Paulo em 1913 (clique para ampliar).

A seta amarela indica onde estão os imóveis deste artigo (clique para ampliar).

Embora o local deste imóvel seja o Bom Retiro, ali também é a Vila Sá Barbosa. Todas as ruas desta vila, que é estritamente residencial e bem agradável para morar, levam nomes desta família. Apesar do mapa acima, de 1913, não colocar o nome das ruas elas chamam-se: Rua Odete Sá Barbosa, Benedita Sá Barbosa, Mathilde Sá Barbosa e Gabriela Sá Barbosa. Consultamos o Dicionário de Ruas da Prefeitura de São Paulo e infelizmente eles não tem informação de quem foram os Sá Barbosa. É possível que se trate de familiares de Francisco Sá Barbosa, que dá nome a outra rua no Bom Retiro que fica alguns quarteirões dali. Nós até abordamos as casas daquela rua recentemente (veja aqui). Agora fica a pergunta: Quem foram os Sá Barbosa que dão nome as ruas da região ? Se você tiver alguma informação, entre em contato conosco ou deixe um comentário. Ajude a montar a história de São Paulo.

Vista do comércio e casa principal (clique na foto para ampliar).

Vista do comércio e casa principal (clique na foto para ampliar).

Será que um dia veremos a outrora bela Avenida Tamanduateí, hoje Avenida do Estado, reurbanizada e com o rio despoluído ? Eu não tenho muitas esperanças e você ? Veja mais fotos dos imóveis (clique na foto para ampliar):

Foto: Douglas Nascimento
Foto: Douglas Nascimento
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Foto: Douglas Nascimento
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About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Cybelle 30/07/2014 at 12:31

    São graciosas estas casinhas. Todas têm quintal? Ou o desenho inicial – do anúncio – se deu “liberdade artística” ? (Nada contra, é comum até hoje).

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  • Carla Silva 30/07/2014 at 12:47

    Dá até uma dor no coração em ver estas fotos e saber que o bairro era lindo…

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  • Thais Matarazzo 30/07/2014 at 13:01

    Oi Douglas, uma vez li consultei um trabalho de estudantes de arquitetura do Mackenzie (2000 ou 2002) sobre a Vila Sá Barbosa. Um nome da MPB e ligado ao rádio paulista, o cantor e compositor Roberto Amaral (1930-1988), nasceu e passou a infância na Vila Sá Barbosa. Ele sempre pertenceu ao “cast” da Rádio Record. Foi casado com a cantora Neyde Fraga (também da Record). Irmão do grande músico Nestor Amaral.

    Em 1960, Roberto Amaral gravou com a cantora Esterzinha de Souza o LP “Astros do disco” no qual foram interpretadas músicas como “Lampião de Gaz”, de Zica Bergami, “Nada além”, de Mário Lago e Custódio Mesquita, “Serenata do adeus”, “Conceição”, “Sistema nervoso”, de Wilson Batista, “Terra seca”, de Ary Barroso, “Meu mundo caiu”, de Maysa, e “Chega de saudade”, de Vinícius de Morais e Tom Jobim, entre outras.

    É um filho ilustre da Vila.

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  • Ewerton Silva 30/07/2014 at 14:31

    Poderia dar uma olhada no palacete do Barão do Rio Pardo em Campos Elísios-SP, pois seu estado atual é uma lástima.

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    • Douglas Nascimento 30/07/2014 at 15:44

      Olá Ewerton, como vai ?
      Ele foi um dos primeiros que publicamos, há cinco anos atrás, e constantemente o abordamos aqui.
      Vá em: Imóveis Antigos -> Bairros -> Campos Elíseos para encontrá-lo, ou digite Barão do Rio Pardo diretamente na busca.
      Abraços,

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  • Thais Matarazzo 30/07/2014 at 14:53

    Eis algumas escassas informações acerca de Francisco de Sá Barbosa.

    Figura de relevo no comércio e na Pauliceia. Donos de terras e propriedades no centro, Santa Ifigênia e Luz. Antigo comerciante paulista. Residente na freguesia de Santa Ifigênia. Casado com Benedicta Assumpção Albuquerque. Era o 2º matrimônio de Benedicta. Do 1º casamento teve uma filha, Felisberta Pinto de Camargo Ribas, falecida em 1899.

    O casal teve vários filhos: Vicente (? – 1926), Francisco Júnior (? – 1931), Mathilde, Odette, Maria Gabriella (? – 1900), Benedicta e Amélia (1880-1903).

    Em abril de 1878, a escrava Galdina, de Francisco de Sá Barbosa, havia fugido de casa e fora encontrada pelo subdelegado da freguesia de Santa Ifigênia e conduzida a cadeia. Sendo depois removida por seu dono.

    Em 1880, Francisco e seu sócio Dyonisio Pereira dos Santos, dissolveram a firma “Santos & Pereira”, com sede à Rua da Estação, nº. 12, freguesia da Luz, e com filiais em Santos, Sorocaba, Campinas e Rio de Janeiro.

    A Vila Sá Barbosa foi de sua propriedade e as ruas levam os nomes de suas filhas.

    Francisco de Sá Barbosa faleceu na capital paulista, em sua residência à Rua Barão de Itapetininga, nº. 30, em 8 de agosto de 1904. O enterro deu-se no Cemitério da Venerável Ordem Terceira do Carmo, na Vila Buarque.

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    • Douglas Nascimento 30/07/2014 at 17:18

      Sensacional Thais! Onde encontrou isso ? Abraços

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      • Thais Matarazzo 30/07/2014 at 19:04

        E uma pesquisa que fiz em jornais antigos, quando montei a biografia do cantor Roberto Amaral….

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        • Douglas Nascimento 30/07/2014 at 20:58

          Sensacional, não encontrei nada no Correio Paulistano e nem do Estado. Te devo uma! Vou fazer um especial só sobre a Vila Sa Barbosa.

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          • Thais Matarazzo 31/07/2014 at 10:44

            Muito bem! A Vila Sá Barbosa é um recanto especial e merece um post destacado. Posso te enviar, caso seja pertinente, uma foto do cantor Roberto Amaral. Filho ilustre da Vila. Obrigada.

  • Vania Lacerda 31/07/2014 at 14:36

    É inacreditável o quanto o poder público pode enfeiar uma cidade, com obras mal planejadas e de necessidade duvidosa. E sempre há como piorar: na gestão Pitta, iniciaram-se as obras do Fura-Fila, terminadas vários anos depois, na gestão de Serra. Com o Fura-fila, ficou ainda mais feia essa região, com recuperação cada vez mais difícil.

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  • Joao Marcos Turnbull 24/08/2014 at 23:27

    http://www.jusbrasil.com.br/diarios/4360101/pg-38-poder-executivo-diario-oficial-do-estado-de-sao-paulo-dosp-de-27-08-1953/pdfView

    Essa pagina do DOSP (1953) comenta sobre a desapropriacao da Vila pela Fazenda Estadual. Na ocasiao, os imoveis pertenciam a Helena de Sa Barbosa.

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  • Marco Bressan 25/02/2015 at 12:18

    Douglas e Thais,

    nasci na Vila Sá Barbosa e sou proprietário do comércio que fica na entrada da vila (esquina com a Rua Jorge Miranda).

    Aguardo ansioso pelo especial sobre ela, bem como, os convido para uma visita ao meu bar. Será um prazer recebê-los.

    Abraço,
    Marco Bressan

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    • Douglas Nascimento 26/02/2015 at 12:29

      Olá Marcos, como vai ? Devo ir ai muito em breve.
      Qual é o melhor horário para te encontrar e melhor dia da semana ? Abraços

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      • Marco Bressan 03/03/2015 at 16:44

        Opa, estou bem, Douglas e você?

        Nosso restaurante fica aberto de 2a a sábado, horário comercial. E nas 6as feiras, abrimos tb à noite. Estou sempre por aqui.

        Fico no aguardo, abraço.

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  • resiak74 11/10/2015 at 15:15

    Reparei em mais duas coisas: as pinhas decorativas na platibanda e o no mapa o nome da rua Vidal de Negreiros era Javary (nome de um rio da Amazônia).

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  • Leticia Ribas 08/05/2016 at 22:47

    E ai douglas, faço arquitetura na USP de São Carlos e estou fazendo um trabalho sobra a vila economizadora e aparentemente a localização da vila neste mapa me parece equivoca, pois ela faz divisa com a rua São Caetano com a rua da Cantareira, é um pouco mais para baixo 😉

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    • Douglas Nascimento 10/05/2016 at 09:09

      Letícia, o mapa – conforme explica o texto – não é da Vila Economizadora mas da Vila Sá Barbosa que é o destaque do artigo.

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