É difícil encontrar alguém que nunca experimentou um cachorro-quente. Ao mesmo tempo, é difícil encontrar alguém fora da cidade de São Paulo que já tenha experimentado o cachorro-quente paulistano, aquele com um polêmico ingrediente: o purê de batatas.

O cachorro quente paulistano: com purê de batatas

Desde o início da história do hot dog, na Alemanha e, posteriormente, nos Estados Unidos, novos molhos e ingredientes vêm sendo adicionados a essa comida tão popular no mundo inteiro. Com a exceção da obrigatória salsicha, todo o resto parece aberto à criatividade do cozinheiro. Em Osasco, conhecida como a capital do cachorro-quente, nem o pão sobreviveu à inovação: na cidade, é famoso o cachorro-quente no prato, com muito purê de batata e sem pão.

Em São Paulo, a combinação básica de salsicha, pão e mostarda dificilmente é encontrada. Simplesmente adicionar o tradicional ketchup também não satisfaz o paulistano, acostumado ao grande leque de opções e às invenções gastronômicas da cidade com mais restaurantes do país. Em segundo lugar entre os destinos gastronômicos mais recomendados do mundo, segundo o Booking.com, São Paulo faz jus à sua fama e capricha até mesmo nos seus cachorros-quentes!

Hot dog: uma paixão mundial

De restaurantes e barracas de rua para músicas, filmes e até jogos de cassino, o pão com salsicha – ou linguiça – é certamente uma das combinações mais famosas do mundo. O hot dog não conquistou apenas o paladar de diversos povos, mas também o imaginário popular, marcando presença nos mais variados produtos, desde o título de uma das canções do Led Zepellin até o site de jogos de cassino da Betway, em caça-níqueis online.

Em 2016, o pão com salsicha chegou até mesmo a ser protagonista no cinema, no filme de animação Festa da Salsicha. No mundo real, contudo, o casal divide o protagonismo com uma série de outros ingredientes, dependendo do local onde o cachorro-quente é preparado.

Como conta J. A. Dias Lopes, no livro “Sanduíche! Impossível Resistir a Essa Tentação”, o hot dog fez sua estreia no Brasil na década de 1920, quando o idealizador da Cinelândia, Francisco Serrador, começou a vender esse lanche em seus cinemas, no Rio de Janeiro. A comida conquistou a capital fluminense e chegou até mesmo ao carnaval de rua, ao inspirar dois grandes expoentes da música brasileira, Lamartine Babo e Ary Barroso, que lançaram uma marchinha de carnaval chamada “Cachorro-Quente” em 1928.

Recorte de jornal de 24/07/1928 mencionando o cachorro quente.

Após a Segunda Guerra Mundial, ocorrida entre 1939 e 1945, foi a vez do país inteiro se apaixonar pelo hot dog, impulsionado pela grande influência que os Estados Unidos passaram a exercer sobre o Brasil. Assim como os norte-americanos começaram a incluir novos ingredientes em seus cachorros-quentes, como o picles, o queijo e até mesmo o chili com carne, os brasileiros também fizeram as suas adições.

O BuzzFeed Brasil organizou um interessante compilado de cachorros-quentes de diferentes cidades, listando os ingredientes tipicamente usados em cada uma delas. No Pará, por exemplo, ganham destaque o tucupi e o jambu, em Brasília, a pasta de alho costuma estar presente e, no Rio de Janeiro, para a revolta de muitos, a uva-passa às vezes aparece entre os recheios.

A batata palha se tornou um acompanhamento tradicional do prato em todo o país. Porém, os paulistanos não se incomodam com uma dose extra de batata e incluem ainda o purê, que une muito bem todos os outros ingredientes no pão. Embora não se saiba a origem dessa adição peculiar, ela certamente se tornou o diferencial do cachorro-quente de São Paulo.

Cachorro-quente com purê de batata – e muito mais

Ainda que o purê de batata seja a marca do hot dog paulistano, o “dogão” de São Paulo costuma levar muitos (muitos!) outros ingredientes. Além de pão, salsicha, batata palha, purê de batata e molhos – geralmente ketchup ou molho de tomate, maionese e mostarda – é comum encontrar queijo, milho, vinagrete, requeijão, cebola, entre outros, nos cachorros-quentes da cidade.

Atualmente, até mesmo hot dogs veganos estão disponíveis em muitos restaurantes, com salsichas feitas de soja, cenoura, feijão, grão de bico, etc. E o que não falta em São Paulo são lugares para apreciar os cachorros-quentes paulistanos: de barraquinhas de rua a restaurantes gourmet, as opções são inúmeras nessa cidade cheia de sabores. Veja alguns estabelecimentos reconhecidos pelos seus hot dogs:

  • Black Dog: rede de lanchonetes com lojas em oito endereços da cidade.
  • Prime Dog: dois restaurantes, na Vila Mariana e no Jardim Paulistano.
  • Lanchonete da Cidade: rede de lanchonetes, com unidades em cinco endereços da zona centro-sul de São Paulo.
  • Big Kahuna: hamburgueria localizada no Jardim Paulista.
  • Charles Dog: lanchonete no bairro Casa Verde.

Embora tantas opções possam ser encontradas pelas ruas de São Paulo, a melhor parte do cachorro-quente, com purê de batata ou não, é que é muito fácil prepará-lo em casa. E, assim, cada um pode adicionar a ele os ingredientes de sua preferência – e, quem sabe, criar uma nova tradição regional cujas origens um dia também provavelmente se perderão.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comments

  • Jander Conchon 30/04/2019 at 18:31

    Bom artigo, mas sinto informar. Sou de Maringa, belíssima de cidade do Paraná. Morando em São Paulo há dois meses, professor de história e em maringá cresci comendo o famoso cachorrão com purê. E isso tem muitossss anos. Nas exposições agropecuárias como londrina, é muito fácil encontrar. Não é uma especialidade daqui não.

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    • Luiz Henrique 08/05/2019 at 07:53

      Na belíssima cidade de São Paulo, podemos saborear o melhor Hot-Dog do planeta. Com purê, sem purê…tradicional, prensado, completo, com duas salsichas, no pão francês, etc.

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  • Denilson Lima 30/04/2019 at 19:25

    Aqui em Osasco o hot dog já foi melhor. Hoje todos os carrinhos têm as mesmas opções, mesma decoração e o fornecedor é o mesmo para tudo, e lá se foi a diversidade. Há poucos dias paguei 12 reais por um dog só porque era na baguette!

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  • Marcelo 30/04/2019 at 19:46

    Em Belém cachorro quente é o sanduíche de picadinho de carne bovina; o de salsicha é chamado de hot dog. Também me lembro de que, quando morei em Campinas, havia uma lanchonete no centro da cidade, em forma de casinha e chamada Lanchonete Joara, com um cachorro quente com salsicha, molho de tomate-pimentão-cebola, purê de batata, mostarda e ketchup.

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  • Ricardo Armando 30/04/2019 at 20:33

    Fora do Brasil há também variações. Na Dinamarca coloca-se espessa quantidade de alho cortado em cubinhos pem pequenos e já dourados em manteiga. Uma delicia (amo alho!).
    Na Holanda é a vez do molho tártaro em quantidade suficiente para esconder a salsicha (defumada). Excelente. Aliás, o molho tártaro acompanha qualquer oração de fritas também.

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  • Paulo Clístenes Vieira da Silva 30/04/2019 at 20:56

    Um dia experimentarei!

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  • LUCIO GOMES MACHADO 30/04/2019 at 21:40

    Patrimônio imaterial!
    muito bom!!!

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  • antonio carlos novelli 30/04/2019 at 23:27

    Só de ver essas fotos, já estou babando! rsrsrs Pena que não tem nenhuma lanchonete especializada nesses deliciosos cachorro quente aqui na Lapa onde moro.

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  • Bolívar Pinta Júnior 01/05/2019 at 13:02

    …/… excelente abordagem !

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  • ROSANA LONGOBARDI SERAFE 02/05/2019 at 09:43

    Mas, resta a pergunta…qual a origem do nome? Cachorro Quente…. quem veio primeiro? o sanduiche ou cão popularmente chamado de salsichinha? Douglas…mata minha curiosidade…. abraços a todos…

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  • Chico Lobo 06/05/2019 at 11:58

    São Paulo tem uma grande tradição culinária.
    São Paulo não pára de comer nem de alimentar.
    Embora ainda tenha gente aqui que passe fome…
    São Paulo inova receitas (como o purê de batata no hot dog, mas também cria como a invenção do sanduíche BAURU, inventado na de cada de 30 por um estudante de direito no lgo. do Paiçandu.
    São Paulo dos pastéis de feira dos japoneses e das milhares de tele pizza da cidade.
    São Paulo das cantinas e dos fast-food 24 horas.

    Aliás a qualquer hora do dia ou da noite o paulistano pode comer qualquer prato de qualquer origem do mundo.

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    • Luiz Henrique 07/05/2019 at 08:38

      É isso aí!

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  • Fábio 08/05/2019 at 11:24

    Eu me lembro que o cachorro quente paulista nos anos 80 tinha só era acompanhado de maionese, vinagrete com repolho picado e o purê; catchup e mostarda sempre opcionais. Nos anos 90 é que começaram a colocar batata palha, milho e ervilha e a fazer prensado.

    Uma lembrança que tenho também são os carrinhos de cachorro quente dos anos 80, todos vendiam Crush e Gini de garrafinha de vidro.

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