Se fôssemos julgar aqui a história de uma casa pela sua arquitetura, provavelmente passaríamos batido por esta pequena casa antiga, de 1938, que está localizada no número 228 da rua Vera Cruz, no bairro da Penha.

clique na foto para ampliar

clique na foto para ampliar

Afinal, a casa está escondida por um muro alto, é bem simples, não tem grandes adornos e nem nada demais em sua arquitetura. Porém, um único detalhe despertou a curiosidade aqui do blog, e acabamos descobrindo que trata-se de um imóvel com uma história bastante interessante: A inscrição M.A 1938 na fachada.

clique na foto para ampliar

clique na foto para ampliar

Ao notar a inscrição, resolvi observá-la mais de perto e olhei pelo muro, e também pela cerca de madeira, no limite da residência com a pequena travessa ao lado e descobri uma coisa fantástica: O quintal da casa tem trilhos ferroviários!

Para entender o motivo da casa ter trilhos no quintal, vamos voltar no tempo um pouco e conhecer a história de um extinto ramal ferroviário e sua velha estação, que até a grande maioria dos moradores do bairro desconhecem: A antiga Estação da Penha.

clique sobre o mapa para amplia-lo

clique sobre o mapa para amplia-lo

A antiga e extinta Estação da Penha não tem nenhuma relação com a atual estação do metrô. A estação ficava localizada um pouco mais acima, na parte alta do bairro, já bem próxima da igreja antiga da Penha. Fundada em 1886, a estação era oriunda de um pequeno desvio ferroviário localizado alguns metros depois da Estação Guaiaúna (depois renomeada Carlos de Campos) e operou por décadas como o único sistema de transporte coletivo ligando a região central da cidade até este bairro. Os trens saiam da Estação do Norte (atual Brás e ex-Roosevelt) e iam até a Estação Penha, sendo que esta foi a primeira linha de trens de subúrbio da Cidade de São Paulo.

Esta é a única foto conhecida da extinta Estação Penha, tirada em 1905.

Com a chegada do serviço de bondes e as consequentes melhorias viárias feitas na Avenida da Intendência (atual Celso Garcia) o hábito de tomar o trem para ir ao centro da capital foi caindo em desuso, já que a grande maioria das pessoas preferiam se locomover usando os bondes. Com isso entre 1910 e 1920 a importância desta estação foi diminuindo até que foi completamente desativada. Em 1924 ela já não constava mais nos guias ferroviários, como o Guia Levy.

Mesmo assim, a estação continuou por lá em pé por vários anos sendo que ocasionalmente em dias de romaria para a Igreja da Penha, haviam trens que especialmente na ocasião seguiam até lá. Alguns anos mais tarde a estação foi demolida e boa parte deste ramal teve seus trilhos removidos, sendo realizada a urbanização do trecho, gerando as ruas Irapucara e General Sócrates. No entanto, na altura da rua Vera Cruz o ramal continuaria existindo até meados dos anos 1950 sendo usada para fins de transporte de gado, quando então foi finalmente desativada, demolida e seus trilhos entre a estação da Penha e a linha retirados. Mas não todos…

A Casa Misteriosa e a inscrição M.A 1938:

Quando houve a primeira remoção de trilhos com a consequente desativação da Estação da Penha o governo federal construiu esta casa, inaugurando-a em 1938, sendo que no local foi instalado um posto avançado do Ministério da Agricultura.

Ali, embarcava-se o gado que era criado na região próxima do Córrego Tiquatira onde hoje está localizada a Avenida Governador Carvalho Pinto. Este gado subia em direção ao centro da Penha e descia até a casa em questão descendo pela rua Betari e dali embarcavam e rumavam aos abatedouros. Até hoje, moradores mais antigos do bairro lembram-se desta travessia de gado pelas suas ruas.

Com o desenvolvimento da região, tornou-se impossível manter este tráfego animal pelas ruas da Penha e a atividade cessou-se. Com isso, o posto avançado do Ministério da Agricultura foi desativado e o que restava deste velho ramal ferroviário foi completamente extinto, tendo seus trilhos removidos, cessando de vez a história deste ramal.

A rua Irapucara, no passado era uma linha de trem (clique para ampliar).

A rua Irapucara, no passado era uma linha de trem (clique para ampliar).

No entanto, quando foram remover os trilhos da área não removeram parte deles que ficavam na área desta casa, já que ela não pertencia a Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB) e sim ao Ministério da Agricultura. A casa aparentemente foi esquecida, junto com seus trilhos e a pequena plataforma que permanecem até hoje no seu terreno, no que hoje tornou-se o quintal da residência. As árvores ao redor da área cresceram tanto que é quase impossível notar a existência dos trilhos a partir do nível da rua.

clique na foto para ampliar

Observe os trilhos passando pelo quintal da casa (clique na foto para ampliar).

Com isso, a simpática casa da rua Vera Cruz deve ser a única casa de São Paulo com trilhos em seu quintal. Curioso, não ? Segundo relatos de vizinhos, até hoje o imóvel pertence à União e seus moradores seriam caseiros (informação não confirmada).

Veja mais fotos desta casa e dos trilhos no quintal (clique para ampliar):

Saiba mais detalhes sobre este extinto ramal ferroviário no site Estações Ferroviárias, de Ralph Giesbrecht:

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

Deixe um comentário!

Comments

  • Rosana Bacarini 20/03/2012 at 19:44

    Muito interessante a reportagem,Parabéns.

    Reply
  • Henrique Siqueira 20/03/2012 at 20:00

    Bela matéria!

    Evocando a prática educativa, gostaria de sugerir o crédito dos autores e detentores dos direitos patrimoniais da fotografias e documentos, para que os leitores tenham amplo acesso a informação.

    Um abraço

    Henrique

    Reply
    • Douglas Nascimento 20/03/2012 at 22:09

      Olá Henrique!

      As fotos coloridas são todas de nossa autoria. Já as demais e o mapa basta passar o mouse sobre a foto e ver os créditos.
      Abraços!

      Reply
  • Katiúcia 20/03/2012 at 20:47

    Lembro-me dessa casa de quando fiz a avaliação de potencial arqueológico por levantamento arquitetônico, para o relatório de Arqueologia da Linha Branca do Metrô, em fins de 2009.

    Ela é engraçada: parece que está espiando de trás do muro quem passa do lado de fora, na rua…rs…

    Reply
  • Luiz Rossi 28/03/2012 at 11:02

    Muito show!!! São Paulo tem realmente uma surpresa a cada bairro…

    Reply
  • Claudio 11/04/2012 at 03:01

    Belíssima reportagem. Parabéns.
    A Penha realmente é um bairro fascinante.

    Reply
  • Carla Silva 13/04/2012 at 10:45

    Que reportagem linda! Acho que no final de semana vou conferir de perto esta casa!

    Reply
  • Vanderlei A. Zago 17/04/2012 at 18:24

    Interessante! Pesquisador é assim mesmo… ir ao local e tentar descobrir os detalhes e matar a curiosidade rsrs. Bela matéria. Parabéns! Abç.

    Reply
  • odirley isidoro 23/04/2012 at 09:50

    Existe uma residência no bairro do mandaqui fica atrás do Mcdonalds da av. engenheiro caetano alvares, lá se encontram ainda trilhos do antigo ramal que ia até o jaçanã!
    rua prof valério giuli, nesta rua tinha o antigo sanatório e lá tem casas ainda no formato da antiga estação….deixo a info para voces!!!

    Reply
  • sergio martire 02/05/2012 at 13:15

    sp-02-05-12
    inicialmente parabens pela magnifica descoberta do posto de ministerio da agricultura casa que era o medico residente no ramal.
    trecho ferroviario
    o ramal chamado de fumigação saia da estação de guaiauna em direção aestrada de rodagem sao paulo rio( estrada de sao miguel)
    nesse ramal eram lavados e higenizados cos vagoes de de transporte de gado que vinham pela cb do vale do paraiba, que apos deixarem suas cargas nos abatedouros
    da cidade de saoa paulo, retornavam pa as linhsa da cb.
    porem antes desse retorno ao vale eles deveriam serem limpos das fezes e dejetos do gado transportado,
    a limpeza consistia na lavagem dos vagoes e apos essa operação ele recebiam uma lavagem de calda bordaza(cal e agua)-todas as fotos de vagoes de gado a presença de dessa operação estao presente- salpicados de branco
    no final dessa operação, o medico sanitarista do serviço de inspeção federal atestava que o vagao esta apto a ser utilizado , sendo entao enviado para as linhas da cb pelo ramal ate a linha principal.
    qdo da inauguração da via dutra em 1950/51 o transporte de gado ja nao era mais utilizado na cb, pois diversos frigorificos , como o de cruzeiro ja abatiam o gado e enviavam para os centros comsumidores
    nao acredito que os campos da penha tinham tanto gado para ser embargados pelo ramal
    o ramal era usado para a higenização dos vagoes da cb
    tal ramal era o melhor local para essa operação.

    Reply
    • Douglas Nascimento 02/05/2012 at 13:38

      Olá Sérgio

      Por incrível que pareça havia gado na Penha sim. Eles ficavam em uma grande “Vacaria”(era assim que os penhenses chamavam) às margens do Tiquatira.
      Procure aqui no SP Antiga o áudio das senhoras do bairro e vai ouvir com detalhes a narração das senhoras da Penha falando o trajeto dos bois desde a Vacaria até a ramal ferroviário.

      Abraços!

      Reply
      • Denis Fazolini 09/12/2015 at 21:21

        Realmente. nasci em 1975 e, no início dos anos 80 ainda passavam boiadas quase todo fim de tarde, pela Rua Luis Asson – Vila Buenos Aires, conduzidas entre Engenheiro Goulart / Cangaiba ( anteriormente À criação do Parque Ecológico ) até as margens do Tiquatira, próximo de onde temos hoje em dia o Hipermercado Extra com a Av. São Miguel.

        Reply
  • Ronaldo 04/06/2012 at 15:12

    Formidável! Eu desconhecia completamente estas histórias, e sou do Belenzinho. São Paulo tem coisas que hoje são inimagináveis… O trabalho do site é digno do maior respeito e mesmo de estudo e reflexão por quem se interesse por urbanismo, arquitetura, história e principalmente goste de (pelo menos do que era) SP!

    Reply
    • Antonio de Sena 05/06/2012 at 11:53

      Atualmente estão tentando reurbanizar essa área, há um projeto para transformar em parque esse terreno(o terreno vai até a rua de baixo, com densa vegetação) , mantendo a casa e a vegetação local. Não lembro o nome do vereador que está encabeçando o projeto, mas vou me informar melhor e colocar os detalhes aqui.

      Reply
      • Douglas Nascimento 05/06/2012 at 11:55

        Acho que é o Natalini, não ?

        Reply
        • Antonio de Sena 11/06/2012 at 18:09

          É isso mesmo Douglas, é o Vereador Natalini. Com certeza aquela regiao vai passar por um processo de especulação imobiliária, devido à ampliação da linha branca do Metro. Espero que consigam levar adiante esse projeto antes que inventem alguma outra utilização para esse terreno da Casa dos trilhos. .

          Aproveitando; parabéns Douglas,pelo belo trabalho desenvolvido neste site.

          Reply
  • Larissa 25/09/2012 at 11:58

    Moro em frente a esta casa, e notamos que estão limpando esse vasto terreno para fazerem alguma coisa,dá até para perceber melhor o casebre. Me disseram que são para as obras da linha 15 do metrô mas nada confirmado. O terreno é muito grande e com muita vegetação poderiam mesmo fazer um parque antes que alguma construtora destrua tudo para especulação imobiliária…

    Reply
    • Douglas Nascimento 25/09/2012 at 12:20

      Larissa, vou verificar. Obrigado pelo alerta!

      Reply
  • Jefferson Eduardo 23/01/2013 at 13:01

    Curiosíssimo, muito bom!

    Reply
  • João Amorim 26/04/2013 at 07:27

    Parabéns pela matéria, simplesmente fantástica ! É incrível saber que toda esta transformacao faz parte de um passado recente. Eu percebo isso olhando aqui para o jd. Têxtil na Vila Carrão e lembrando que vi criação de animais em plenos anos 80, e naquela região não haviam construções. Pouco mais de 30 anos e tudo se transformou completamente.

    Reply
  • Denis 04/06/2013 at 23:35

    Nos anos 90 chegaram a fazer umas festas nesse imóvel, algo parecido com as raves modernas. Nasci e fui morador do bairro por muitos anos e lembro bem da minha surpresa e de meus colegas ao descobrir um lugar tao pitoresco perto de nossas casas. Parabéns pelo belíssimo trabalho de vocês.

    Reply
    • Maú 22/01/2016 at 00:24

      Eu ajudei a fazer algumas destas festas. Ajudei na limpeza do terreno para a primeira. Um amigo do nosso grupo morava nessa casa. Realmente era uma have e só hoje com seu comentário me dei conta disto.

      Reply
  • Alexsander Loula 19/06/2014 at 11:45

    Parabéns, ótimo trabalho!

    Moro no bairro e já tinha percebido a inscrição “M.A. 1938”. Não imaginava toda essa história por trás dessa casa, que legal.

    Abs.

    Reply
  • Rosana Alvarez Borghese 17/01/2015 at 12:58

    Meus parabéns pelo lindo trabalho . Quando criança morava na rua Sto. Antero bem próximo dessa casa 1966 . Brinquei muito nessa casa pois lá morava minha amiga Rose Meire Nunes Batista , aos finais de semana nós nos juntávamos com outras meninas e descíamos até a porteira que tinha quase em frente a estação Carlos de Campo , lembro das árvores frutíferas jambo jabuticaba e tinha também uma fruta diferente que chamávamos de uva japonesa , adorava tudo aquilo foi a melhor época da minha vida .

    Reply
  • Paulo de Tarso Vieira dos Reis 09/12/2015 at 20:04

    Douglas, embora bem atrasado, preciso contar um fato curioso sobre esta estação, ocorrido comigo quando adolescente. Numa noite, sonhei que era um soldado, e estava em meio a uma batalha na Ladeira da Penha, e minha tropa havia desembarcado numa estação de trem na Rua General Sócrates. Ao acordar, disse comigo mesmo…” que sonho idiota…uma estação de trem na General Sócrates….Já mais crescido, na ocasião da inauguração da estação Penha do metrô, houve aquela exposição de fotos históricas da Penha, e me surpreendi com duas situações: A estação da General Sócrates estava lá, em uma foto, e enfocava o movimento das tropas na Penha por ocasião da revolução de 1924…descobri então, que meu sonho de adolescente não tinha sido tão idiota assim…rsrsrsrs Abraços, e admiro seu trabalho!!!

    Reply
  • Luiz Marcelino 20/01/2016 at 15:41

    Nasci e cresci na Penha, sempre vi esta casa , lembro dos trilhos quando estes ainda saiam da antiga estação de trem Carlos de Campos Ainda não existia a estação do metro) historia impressionante e rica em detalhes, parabens

    Reply
  • Ralph Mennucci Giesbrecht 29/05/2017 at 15:40

    Douglas, finalmente descobri quando parou o ramal da Penha para passageiros: foi em outubro de 1915

    Reply
  • fernando palmeirense 14/09/2018 at 12:08

    Parabéns pela pesquisa, excelente matéria, isso faz com que as pessoas reflitam sobre sua existência. Nem mesmo os moradores sabiam dessa história.

    Reply
    • Douglas Nascimento 14/09/2018 at 12:22

      Você mora na casa Fernando ?

      Reply
%d blogueiros gostam disto: