Quando falamos em cinema nos dias de hoje a primeira coisa que pensamos são as salas de exibição presentes nos inúmeros shopping centers da cidade. Entretanto, bem sabemos que a realidade no início do século 20 até pelo menos princípios da década de 1980, era bem diferente.

Haviam inúmeros cinemas de rua, muitos construídos até um ao lado do outro, disputando o público que lotavam a grande maioria dos cines paulistanos. A região da Sé, possui um grande número de salas de exibição e hoje abordaremos uma delas: o Cine Alhambra.

Nota de inauguração do Cine Alhambra em 1928

Nota de inauguração do Cine Alhambra em 1928

Instalado no que então era um ponto chique de São Paulo, o Cine Alhambra foi construído em 1927 e pertencia aos senhores João Batista de Souza, Manuel Pereira Guimarães.

Sua inauguração ocorreu em 1928, mais precisamente às 14:00 horas do dia 21 de julho, com a exibição do filme “A Carne e o Diabo” da MGM, cuja exibição na época foi considerada “imprópria para senhoritas”. A capacidade de público do Alhambra era de 844 pessoas.

Cine Alhambra em foto da década de 30

Cine Alhambra em foto da década de 30

O Alhambra complementava uma série de salas que estavam próximas e disputavam o público, como o Cine São Bento e também o Santa Helena. Em uma época que os escritórios e boa parte da vida comercial paulista se concentravam no centro velho, estas salas eram bastante disputadas.

DivulgaçãoEm dezembro de 1929 o Alhambra foi adquirido pelo famoso conde Giuseppe Martinelli (o mesmo do Prédio Martinelli), que já possuia também uma outro cinema nas proximidades, o Cine Rosário. A posse foi confirmada no início de 1930 e com ele permaneceu até o final da década.

Entre as peculiaridades deste cine, uma delas foi ter sido a primeira sala paulistana a exibir Robin Hood (The Adventures of Robin Hood) película de 1938 com o ator Errol Flynn.

A sala teve seu auge na década de 40 e começou a enfrentar uma decadência a partir da segunda metade da década de 50, quando muitos dos negócios se moveram para o centro novo, do outro lado Viaduto do Chá. Foi nesta época que tanto o Alhambra como os demais cinemas da região ganharam o apelido de “cinemas poeira”.

Como ficavam em uma área de escritórios, o foco destas salas era o público da semana útil. Então exibiam sessões duplas a partir das 10:00 da manhã, geralmente com filmes de ação (muitos faroestes) de tempo mais curto. Era uma forma de atrair pessoas que davam uma escapadinha durante o expediente, ou durante uma visita a um consultório ou banco no centro velho de São Paulo. Já ao finais de semana, enquanto as salas de outras regiões ficavam lotadas, o Alhambra e concorrentes próximos ficavam praticamente desertos, “pegando poeira”.

Interior do Cine Alhambra

Interior do Cine Alhambra

Depois de décadas funcionando, o Alhambra acompanhou a decadência que atingiu o centro velho de São Paulo e acabou por fechar as portas, encerrando suas atividades na década de 60. A partir dai a sala ficou fechada por alguns anos e depois foi reaberta como estabelecimento comercial.

O ALHAMBRA HOJE:

O prédio do Cine Alhambra hoje (clique na foto para ampliar)

O prédio do Cine Alhambra hoje (clique na foto para ampliar)

Com o imóvel do velho cinema sofrendo deterioração e decadência por longos anos, pensava-se que a construção seria ou demolida ou completamente descaracterizada. Entretanto o prédio resistiu até receber seu pedido de tombamento.

Em 2011, após restauração da fachada e uma reforma em seu interior, o antigo Cine Alhambra passou a dar espaço para uma filial de um grande magazine brasileiro. As maiores alterações na fachada do prédio, com arquitetura em estilo oriental, foram as seis janelas laterais (três de cada lado) que já tinham sido removidas e algumas alterações logo abaixo delas. Apesar disso as condições da fachada são bastante satisfatórias.

Detalhes da fachada (clique na foto para ampliar)

Detalhes da fachada (clique na foto para ampliar)

Seria bastante auspicioso se colocassem uma pequena placa com um breve descritivo na entrada do imóvel, com um QR Code direcionando para um histórico do prédio. Hoje a maioria das pessoas andam munidos de seus smartphones e poderiam conhecer um pouco mais a história de sua cidade.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Valdimir D’Angelo 26/03/2015 at 11:57

    Na infância e juventude frequentei muitos cinemas do Brás/Belém/Moóca (todos já extintos, sendo que a maioria deles se tronou templos evangélicos…). Ainda guardo boas lembranças do Universo, Roxy, Bruni Brás, Fontana, São Luiz, Aladim, Aster, mas gostaria de saber se tem fotos do Cine Safira (Rua do Hipódromo) onde matava aula para assistir a série Flash Gordon. Obrigado!

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    • heitor felippe 01/07/2015 at 16:01

      Qual era a localização do Cine Aster?

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  • Emerson de Faria 26/03/2015 at 19:24

    Considero apenas o Marabá o único heroico sobrevivente da época em que o centro ostentava os maiores e mais suntosos cinemas da cidade, já que o Belas Artes, que sobrevive apenas com o patrocínio da CEF, tem prazo de validade.

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    • Cris 27/03/2015 at 20:29

      Porque vc acha que o belas artes ta com os dias contados? Nao me faça chorar! Eu amo o belas artes e como muitos paulistanos fiquei triste com o fechamento temporário e super feliz após nosso querido cinema reabrir as portas.
      Passa cada filme legal lá, que so conseguimos ver no espaco itau ou belas artes, o resto sao so aquela mesmice comercial de hollywood.

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  • Alexandre Fontana 30/03/2015 at 13:12

    Concordo, um QR Code ou pelo menos uma plaquinha com a história do imóvel seria ótimo. Já passei tantas vezes por ali e nem desconfiava que ali tinha sido um cinema!

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  • danielpardo2015 02/04/2015 at 22:42

    Pelo menos esse não virou cinema de filmes de “Sapeca Iaiá”.

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