Em uma visita ao centro de São Paulo, em uma chuvosa manhã de domingo, ao observar um edifício localizado bem na esquina das ruas Direita e José Bonifácio, me perguntei: ˝O que teria funcionado aqui neste imóvel no passado ?˝.

clique na foto para ampliar

clique na foto para ampliar

O questionamento pode parecer banal, mas é muito mais complexo do que se parece. Embora imóveis sobrevivam por muitos e muitos anos, não é o caso dos estabelecimentos comerciais, ou até mesmo residências, neles instalados. Isso é algo natural e faz parte da própria evolução constante dos centros urbanos.

Contudo, nem sempre fazemos uma catalogação histórica destes estabelecimentos e com isso muitos dados, relevantes ou não, desaparecem para sempre. Pelo menos desta vez não foi o caso, pois foi possível descobrir um pouco do passado deste imóvel.

O edifício visto do início da rua José Bonifácio (clique para ampliar)

O edifício visto do início da rua José Bonifácio (clique para ampliar)

Construído nos primeiros anos do século 20, o pequeno edifício de dois andares é um valente representante do passado paulistano.

Embora faltem informações sobre seus primeiros moradores que viveram no piso superior, sabemos que o primeiro fim comercial do piso térreo foi uma farmácia.

A Drogaria Amarante, foi a pioneira comercial deste imóvel, até ser adquirida por Sílvio Soares em meados dos anos 1910.

Sr. Sílvio Soares

Sr. Sílvio Soares

Figura bastante conhecida do meio empresarial de São Paulo nas primeiras décadas do século 20, Silvio Soares foi membro bastante ativo da Associação Comercial de São Paulo, onde exerceu o cargo de diretor conselheiro.

Seu nome também figura entre os fundadores da então recém criada Bolsa de Mercadorias (hoje BM&F Bovespa) e foi conhecido também por ser concessionário de vendas em São Paulo da marca de automóveis Overland (depois Willys Overland).

Ao adquirir a Drogaria Amarante, Sílvio Soares a rebatizou como Drogaria e Perfumaria S.Soares & Cia.

O edifício:

Voltando ao edifício que abrigou a drogaria, podemos constatar que foram muito poucas as mudanças neste edifício em quase 100 anos. Abaixo, temos um comparativo antes e depois com uma foto de 1918 e uma de 2016.

Os 98 anos de distância entre as fotografias mostram que felizmente as diferenças entre eles não são lá muito drásticas. A remoção da cúpula é o que há de mais marcante na parte superior, enquanto a substituição das portas antigas do térreo por mais modernas, além da remoção das vitrines bem na curva da fachada é o mais notável ao nível da rua.

Sobre a cúpula, é um fenômeno que se repetiu por vários edifícios antigos do centro. Muitos dos que sobreviveram removeram também suas cúpulas. Qual teria sido a razão ?

A farmácia por dentro:

É sempre comum vermos fotos do exterior dos prédios antigos, mas como eram eles por dentro ? Felizmente neste caso podemos contemplar como era uma drogaria paulistana na década de 1910. As fotografias abaixo são do ano de 1918.

Foto: Divulgação

clique na foto para ampliar

Foto: Divulgação

clique na foto para ampliar

Foto: Divulgação

clique na foto para ampliar

Foto: Divulgação

clique na foto para ampliar

E para encerrar, mais fotografias tiradas em 2016.

clique na foto para ampliar

clique na foto para ampliar

clique na foto para ampliar

clique na foto para ampliar

Nota: Por algum motivo que desconhecemos, a drogaria algum tempo depois voltou a chamar-se Amarante. Este nome iria permanecer até 1937 quando a rede Amarante passou a fazer parte do grupo Drogasil, em uma série de aquisições de farmácias e drogarias que também incluiu as Drogarias Sul América, Ypiranga, Orion e Morse.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

JOIN THE DISCUSSION

Comments

  • J.C.Cardoso 12/07/2016 at 15:38

    Parece Petrópolis, na Região Serrana do Rio.

    Reply
  • kyrmse 12/07/2016 at 18:33

    Muito obrigado por nos mostrar essa comparação quase secular, e ainda por cima com fotos internas. É bom ver que a substância do prédio continua preservada. Passo por ele várias vezes por semana e não tinha me dado conta do quanto está conservado… o que infelizmente não acontece com tantos belos edifícios do Centro.

    Reply
    • Douglas Nascimento 13/07/2016 at 09:48

      Por isso optei por fotografa-lo bem cedo, sem público. A multidão dá movimento a imagem mas tira o foco na arquitetura do edifício. Abraços

      Reply
  • Antonio Mario 12/07/2016 at 19:48

    Prezado Douglas,

    Obrigado e parabéns pelo excelente post.

    Reply
  • Elizete 12/07/2016 at 20:00

    Belo trabalho histórico! Parabéns em continuidade…..Se fosse possível, gostaria de saber detalhes da Casa de Dona Yayá, pois quando fomos visitá-la com o SESC, em final de semana, a mesma encontrava-se fechada. Ora, o turismo deveria ter visto com antecedência, pois não?! Agradecida

    Reply
  • Enrico 13/07/2016 at 13:11

    Se não me falha a memória na última porta de aço à direita funcionava uma pequena lanchonete onde serviam somente cachorro-quente, estive ali em 1975 quando fui fazer minha primeira carteira de identidade acompanhado do office-boy do escritório do meu pai, minha estréia no centro de SP!

    Reply
  • Gabriel Torres 16/07/2016 at 23:02

    Olá Douglas. Não sei se reparou, mas há um detalhe a ser observado: Note que o edificio perdeu uma parte, ou foi drasticamente reformada. Veja nas comparações da foto que o edificio que fica do lado dele fazia parte do próprio.

    Reply
    • Douglas Nascimento 17/07/2016 at 09:44

      Eu tinha notado. Ainda pertence ao mesmo imóvel, mas foi desmembrado para ser alugado. Um crime contra o imóvel, infelizmente.

      Reply
  • Daniel Pardo 20/08/2016 at 19:56

    Um dos poucos pontos positivos do centrão de São Paulo é que muitas das construções do século passado ainda resistem de pé até hoje ali, mesmo não tendo ao longo dos anos nenhuma lei que protegesse essas construções históricas.

    Reply