A história do Brasil está relacionada intimamente com as construções urbanas. E o mais incrível é como nossos governantes com suas turvas visões de urbanismo deixam estes pequenos detalhes cotidianos escaparem e serem apagados apenas para atender a volúpia das construtoras e incorporadoras. E é assim que se apaga a história de uma fábrica na cidade de Guarulhos, a Gesso Mossoró:

Um dos objetivos do São Paulo Antiga é catalogar as construções que não são históricas e que acabam sendo demolidas em decorrência das mais diferentes razões. Algumas são demolidas para dar lugar a novas avenidas e viadutos, outras dão lugar a prédios. E esta antiga fábrica abandonada é um destes imóveis que não são históricos, mas que representaram de alguma maneira a memória ou progresso de um bairro ou região.

E essa fábrica teria tido sua história contada aqui de uma maneira completamente diferente, se ao fotografarmos a fachada do prédio principal, não notássemos um pequeno detalhe. Uma pequena placa azul que dá nome ao imóvel: Edifício Naide Medeiros Rosado.

Ao nos depararmos com este nome, imediatamente começamos a primeira etapa de nosso trabalho de pesquisa, que é conversar com os vizinhos. E não foi fácil, já que em volta há um edifício (aliás, é incrível como alguns moradores de condomínios são completamente alienados a respeito da história ao seu redor), um terreno baldio, outra fábrica vazia e uma borracharia. Os poucos que encontramos, disseram nunca ter ouvido falar no nome da mulher e nem mesmo sabiam apontar quem teria sido o antigo dono da propriedade, vendida para a incorporadora Kallas.

Frustrados inicialmente, decidimos procurar em outras fontes e acabamos por descobrir quem foi a mulher, cujo nome batiza o edifício principal da fábrica, e com isso descobrimos também porque a empresa chamava-se Gesso Mossoró. Naide Medeiros Rosado foi esposa de um importante político brasileiro, que era oriundo de uma tradicional família do Rio Grande do Norte.

Seu marido foi Jerônimo Dix-Huit, um destes grandes homens brasileiros que acabam esquecidos na nossa história. Nascido em 1912, na cidade de Mossoró, foi médico e chefe do serviço de saúde da polícia militar do Rio Grande do Norte. Também foi prefeito da cidade, deputado estadual, deputado federal e senador. Foi em 1937 que casou-se com Naide Medeiros Rosado e tiveram ao todo seis filhos.

Na foto: Jerônimo Dix-Huit e Naide Medeiros Rosado

A partir desta pequena placa foi possível descobrir toda esta curiosa e interessante história a respeito de quem foi Naide Medeiros Rosado. Poderia ser um homônimo ? Sim.

Mas o nome Mossoró na fábrica de gesso não deixa dúvidas que se trata de uma homenagem não só a esta mulher, como também à cidade de origem do falecido Senador da República.

Só não foi possível apurar se o nome é apenas uma homenagem ou se a fábrica demolida pertenceu a algum dos filhos do casal. A família que é  do Rio Grande do Norte fixou residência no Rio de Janeiro quando esta era a capital federal e não encontramos dados sobre familiares vindo para a capital paulista. Fica a dúvida no ar.

Na foto: Antes, durante e depois da demolição. O gesso foi virou pó (clique para ampliar).

Enfim, agora toda esta bela história de homenagens e simbolismo ficou para trás. A velha fábrica que estava abandonada há vários anos e que nos últimos tempos servia apenas de estacionamento de caminhões já não existe mais.

Foi demolida para dar lugar a algumas torres residenciais. É importante notar que a Rua Maria Cândida Pereira, onde está o terreno da Gesso Mossoró, não é um lugar que vai comportar todo o tráfego que estes novos edifícios trarão ao trânsito local.

O mais absurdo de tudo é como os administradores da Cidade de Guarulhos são falhos na questão urbanística e viária. As ruas próximas já estão todas congestionadas e não param de dar licença a novos empreendimentos como este.

Em foto aérea dos anos 80, a fábrica em plena operação (clique para ampliar).

Em foto aérea dos anos 80, a fábrica em plena operação (clique para ampliar).

Atualização: 13/02/2012: Incrível a repercussão desta matéria e como os leitores sem engajam para contribuir com a ampliação dos dados históricos.

No final de dezembro, fomos procurados pelo Dr. Mario Rosado, o antigo proprietário da área e da Gesso Mossoró. Ele não só confirmou que toda a história que levantamos está correta (Naide Medeiros Rosado é sua mãe), como nos contou detalhes sobre a empresa e enviou algumas fotografias antigas do período que a empresa estava em pleno funcionamento.

Após a galeria mais recente, vocês conferem algumas fotografias enviadas por ele. Deixamos aqui nosso mais sincero agradecimento ao Dr. Mario Rosado, que mesmo não morando na região preocupou-se em nos enviar dados, imagens e não deixar que um pequeno pedaço da história de Guarulhos desaparecesse.

Veja mais fotos da antiga Gesso Mossoró (clique na miniatura para ampliar):

Veja fotos da fábrica enquanto ainda funcionava (clique na miniatura para ampliar): Crédito: Dr. Mario Rosado / Divulgação

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Flávio Baccarat 10/08/2012 at 17:40

    Seja franco, ao elencar “a história de uma fábrica na desorganizada cidade de Guarulhos”(sic), digamos que você foi modesto. Guarulhos é uma vergonha.
    Linda reportagem com conteúdo e excelente narrativa. Muito provável que seja a única referência da existência de uma fábrica em um bairro de Guarulhos que anos atrás, era considerado distante e unicamente industrial.
    Parabéns pela matéria.

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  • Roberta 10/08/2012 at 18:06

    Não consegui visualizar a foto do casal.
    grata,

    Reply
    • Douglas Nascimento 10/08/2012 at 23:09

      Roberta, aqui está normal. Tente novamente…

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  • Kate V 11/08/2012 at 20:32

    Essa frase resume tudo que vivemos hoje: “Infelizmente e para a tristeza do nosso futuro, a qualidade de vida para os donos de apartamentos não é civilidade, mas “espaço gourmet“”.
    Parabéns, ótima matéria!

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  • fabio montarroios 11/08/2012 at 23:32

    caro, parabéns pelo texto e pela investigação. este trabalho é fundamental para preservar as cidades que são destruídas aos poucos. não creio que seja possível fazer com que tudo dure para sempre, claro, mas como não há, pelo menos em Guarulhos, nada parecido com um plano de preservação da história da urbanização. Estou de mudança para Guarulhos e a cidade me pareceu mesmo desorganizada e alvo de empreendimentos imobiliários os mais variados. Uma pena. E me parece ser prioridade zero da Prefeitura de GRU cuidar desse assunto…

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  • Renato 12/08/2012 at 18:41

    Aqui em São Bernardo do Campo as administrações municipais também estão tornando a nossa vida insuportável, face ao crescimento vertical não planejado, tornando seu trânsito caótico. Pensando bem, eu deveria dizer falta de trânsito, porque os veículos não andam mais…

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  • Alberto Gato 18/08/2012 at 22:02

    Excelente matéria!

    Ja morei em, Guarulhos, e hj em dia trabalho em Guarulhos. É fato que a cidade de Guarulhos é desorganizada, bagunçada e imunda. Boa parte de suas calçadas são ridiculamente pequenas e ocupadas por postes e fezes de animais. Suas ruas são sujas (conheço um trecho que a mais de 5 anos o entulho não é recolhido – nem pela prefeitura e nem por moradores), seu transito é caótico e seus motoristas extremamente mal educados. Sua politica é uma corrupção vergonhosa, mas sempre tem eleitores dispostos a colaborar com o fato. 1/3 de sua população é analfabeta, e a cidade é a principal poluidora do rio Tietê. Lamentável…

    Parabéns pelo registro!

    Reply
  • Rodrigo Marques 22/08/2012 at 15:00

    Pelo nome, este é descendente de uma das familias mais tradicionais do interior do Rio Grande do Norte: Rosado Maia. Como curiosidade, a maioria dels apresentam nome com numeração em francês, todos com prénome jeronimo, até o numero 21 (afinal, foram 21 filhos) como por exemplo Vint-Cinc Rosado Maia, que já foi politico, ou Ving Un Rosado Maia, agronomo e cientista. Com este, não é diferente, possivelmente o décimo oitavo a nascer…

    http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2011/03/jeronimo-vingt-un-rosado-maia-e-familia.html

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  • Carlos 02/09/2012 at 12:35

    Buscando Gesso Mossoró RJ no Google encontra-se o endereço de outro antigo galpão dessa empresa no Rio, ajustando a vista no Google Maps dá para ver o letreiro na fachada.

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  • Mario Rosado 22/10/2012 at 18:15

    Estimado Sr. Douglas Nascimento:
    Ainda profundamente emocionado em nome da Empresa Industrial Gesso Mossoró S/A, Naide Medeiros Rosado, Jerônimo Dix-Huit Rosado Maia e no meu próprio Mario Rosado, Diretor Presidente da Empresa Industrial Gesso Mossoró S/A.
    Em agradecimento a histórica reportagem sobre a Empresa que ajudei a edificar em Guarulhos, passo a relatar: O prédio Naide Medeiros Rosado foi homenagem para minha querida mãe, já falecida, e que sempre honrou e apoiou cada passo do meu honrado pai Jerônimo Dix-Huit Rosado Maia, e de toda família.
    Em 1961, levei Dix-Huit a Guarulhos, para visitar a cidade e a fabrica de Giz de Ítalo Luiz Bragaia e ele se convenceu que a empresa deveria participar do desenvolvimento daquela região. Implantamos ali nos idos da década de 1960 a nossa empresa de beneficiamento de gipsita, que consistia no desaguamento parcial da matéria prima, para uso com o nome de Gesso. Ainda lembro quando então Governador Paulo Maluf, ordenou ao Dr. Nelson Nefussi, presidente da CETESB, para fornecer a recém criada autorização de funcionamento, pois dizia o Governador: ” Os homens do nordeste estão fazendo chover em São Paulo, trazendo de longe a disposição de contribuir com o crescimento de São Paulo e já atenderam todas as exigências legais, inclusive Direito adquirido pois já trabalham a vinte anos no local”. Relembrando 1961, quando Dix-Huit se animava e dizia, vamos trazer a energia elétrica que falta na Vila Augusta, fizemos a Rede.
    Falava de um futuro aeroporto internacional em Guarulhos e de um grande Shopping, hoje uma realidade.
    Em nome do progresso os órgãos ambientais proibiram nosso funcionamento, confundindo vapor d’água que saia da cheminé, chamando-o de poluição. Após pesadas multas e a pressões esmagadoras, preocupados com o destino mais de cem funcionários, e com o fato da ameaça de lacração imediata dos nossos oito fornos, resolvemos indenizar a todos e encerrar as atividades em Guarulhos.
    Com as lagrimas que ensopei o meu lenço, corri para coloca-las na flor mais querida do meu jardim e vi morrer a fabrica que construí com carinho e dedicação, colocando cada tijolo com as bençãos dos meus pais Dix-Huit e Naide. Hoje, quando não tenho mais os meus pais e a minha fabrica, beijo aquela flor.

    Para contato, informamos que o escritório da Empresa na cidade do Rio de Janeiro, é Rua Tuiuti, 260 – Parte, São Cristovão – Rio de Janeiro – RJ, CEP 20920-010, Telefone (21) 2580-4132 e (21) 2580-4332.

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  • antonio carlos novelli 10/12/2012 at 01:47

    Eu tive o prazer de conhecer essa fábrica, o tempo vôa, e as vezes a gente fica meio perdido no espaço e tempo, mas se não me engano, na década de 70 eu era representante de uma das maiores empresas de embalagens, a Divani S/A, pois eu tive a honra de vender sacos multifolhados, para o ensaque de gesso, diretamente a seu presidente, Dr. Mario Rosado! Gente finíssima! Meu único receio, era na saída, depois das 17:00hrs, eles deixavam soltos alguns digamos, chiuauas, rsrsrsrsr mas nunca tive problemas com os simpáticos “cãezinhos!!!

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  • Dutra 12/12/2012 at 14:44

    Boa reportagem

    Porem não sentimos saudade nenhuma dessa fabrica que causou muito transtorno a população da região. As crianças (que hoje são adolescentes)e muitos idosos sofreram de problemas respiratórios em decorrência do pó de gesso inalado.

    A fabrica foi fechada pela CETESB, porque nunca cumpriu com as exigências ambientais.

    Reply
    • antonio carlos novelli 12/12/2012 at 15:45

      Eu visitava sempre essa fábrica, pois fornecia sacos multifolhados de papel kraft, para o ensaque de gesso. Eu fazia as tratativas diretamente com seu Dir. Dr. Mario Rosado. De fato aquele pó de gesso, se espalhava mesmo! Mas em contra partida, empregava muita gente da região!!

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    • Valeria 20/11/2013 at 08:49

      Absurdo do amigo mencionar doença respiratória por inalação de pó de gesso saiba da composição do gesso antes de falar asneiras. A Empresa sempre cumpriu todas as exigências da CETESB, e quando foi proibida queima de óleo, mais de trezentos funcionários ficaram sem seus empregos, sendo que todos foram devidamente indenizados. A cidade de Guarulhos deixou de ser uma cidade industrial, para se tornar cidade dormitório conforme vontade política,

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  • Douglas Nascimento 13/02/2013 at 11:42

    Amigos leitores,

    O texto foi atualizado com novas fotografias, que foram enviadas gentilmente pelo Dr. Mario Rosado. Espero que apreciem as novas informações e imagens.

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  • Ayrton 13/02/2013 at 12:49

    Parabéns pela “reportagem”.
    Infelizmente em Guarulhos, casos como o relatado na matéria não são, em hipótese alguma, isolados. Os mandos e desmandos na cidade, sempre atrelados aos interesses dos políticos da situação, levaram à “desindustrialização” da cidade, ocasionando o fechamento de inúmeras fábricas e indústrias, ou o seu êxodo para outras cidades, o que elevou, sobremodo, o nível de desemprego na cidade.
    É lamentável que a população guarulhense ainda continue apoiando os atuais “feudos” existentes, que sempre foram geridos pelas mesmas patriarcarias. Guarulhos é, na verdade, um enclave medieval no meio da modernidade do Século XXI e é, de fato, uma pena que uma cidade que poderia ser tão promissora, ser prejudicada (e prejudicar aqueles que pretendem trazer o desenvolvimento).

    Reply
  • Luiz 03/06/2013 at 02:31

    Ledo engano do amigo ai acima mencionar doença respiratória por inalação de pó de gesso saiba da composição do gesso antes de falar asneiras

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  • Flavio Sartore 24/07/2013 at 23:16

    Nasci em São Paulo e vim para Guarulhos nos anos 1980 e me agarrei a esta terra e me dá uma grande tristeza em saber que este município tem mais de 400 anos e não possui resgate histórico.

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  • mauricio silva dos santos 27/10/2013 at 11:34

    questões ambientais à parte,essa matéria despertou meu saudosismo pois cresci morando em guarulho,mais precisamente no jardim vila galvão e trabalhava como ofice boy (com 11 anos,a lei permitia naquele tempo)e todo dia passava em frente a gesso mossoró,inclusive tive um colega de trabalho, que o pai era gerente ou coisa que o valha dessa fabrica,é realmente uma pena que a prefeitura não tenha um programa de preservação de certos prédios,independente de IPHAN ou similares,hoje vivo em curitiba mas do meu lugar sempre sentirei saudade parabens ao jornalis pela materia

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  • Marcelo Fernandes 21/11/2013 at 14:35

    Muito gesso “Mossoró” meu pai comprou aqui no sul(grande Porto Alegre) e foi pioneiro nesse empreendimento no litoral do RS.

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  • tfdfvt 02/12/2014 at 00:19

    lembro ate hoje lotado de pipa no ceu e na gesso caia um monte e perto do rio que tem tinha um campo o governo tirou a diversao da garotada

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