O desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida abalou o Brasil, tanto pela tragédia humana com a perda de vidas e pelos desabrigados, como pelo fim trágico de um dos prédios mais modernos construídos na metade do século 20 no centro de São Paulo.

Por outro lado também despertou a curiosidade dos paulistanos com outros assuntos, seja pela publicidade da Cerveja Caraju, oculta por quase 6 décadas na empena cega do prédio vizinho ou pela pergunta: o que existia ali antes deste arranha-céu ?

A esta questão o São Paulo Antiga apresenta a resposta: outro edifício!

Na foto, o edifício que precedeu o Wilton Paes de Almeida

O edifício que precedeu ao Wilton Paes de Almeida foi um luxuoso hotel. De propriedade do capitalista Alfredo Migliore, o Hotel Victoria foi inaugurado em 15 de janeiro de 1921, projetado pelo arquiteto William Fillinger, o mesmo que poucos tempo depois projetaria o Prédio Martinelli.

O nobre hotel que então se instalava na Rua Antônio de Godói, logo se transformaria em um dos marcos da hotelaria paulistana, sendo um dos mais luxuosos da sua época.

Uma das grandes novidades deste hotel era a disposição de aparelhos telefônicos em todos os quartos, algo bastante incomum para o início da década de 20. Já a água corrente disponível em todos os apartamentos, alardeada pela publicidade do hotel, já era encontrada em outros hotéis paulistanos, apesar de então não ser uma regra geral.

Publicidade veiculada em 1921 no jornal Correio Paulistano

Hospedar-se no Hotel Victoria era uma excelente opção para quem vinha a São Paulo de trem e tinha condições de arcar com hotel um pouco mais distante da Estação da Luz, por exemplo, que recebiam mais ruídos oriundos da ferrovia e da grande movimentação de pessoas.

O Largo do Paissandu, naquele período de nossa história, era um recanto charmoso, elegante e muito tranquilo. Como podemos conferir na imagem abaixo. Apesar de não ser datada a foto é da década de 20:

clique na foto para ampliar

O hotel dispunha de 52 quartos, amplo refeitório, salão de ginástica, sala de leitura e um amplo salão luxuoso destinado a bailes e festas. Quando foi inaugurado o hotel gabava-se de ter a disposição uma das mais modernas instalações elétricas entre os hotéis e edifícios paulistanos.

Apesar de todo o luxo e vanguardismo que oferecia o hotel duraria pouco mais de três décadas, sendo demolido em meados da década de 50 justamente para dar lugar ao outro prédio que também não existe mais.

Notas:
*1 – Capitalista é o termo da época para o que chamamos hoje de empresário.

*2 – Há uma divergência entre as duas publicações que cobriram a inauguração do Hotel. Enquanto o jornal Correio Paulistano afirma serem 52 quartos a revista A Cigarra, por sua vez, diz serem 80.

Bibliografia consultada:

  • A Cigarra – Ano VIII, número 153 – pp 30
  • Correio Paulistano – Edição 20.670 de 16/01/1921 – pp 06
  • Correio Paulistano – Edição 20.680 de 26/01/1921 – pp 08
  • Correio Paulistano – Edição 20.901 de 11/09/1921 – pp 12

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

JOIN THE DISCUSSION

Comments

  • Márcio Historiador 27/05/2018 at 18:30

    Parabéns muito legal

    Reply
  • Daniel Pardo 27/05/2018 at 20:01

    Será que essa igreja que aparece no centro da foto é a mesma que existe até hoje em frente a galeria do rock na Av. São João???

    Reply
    • Douglas Nascimento 28/05/2018 at 09:04

      Sim, ela era recém inaugurada inclusive.

      Reply
  • Emerson de Faria 29/05/2018 at 08:22

    Vivendo e aprendendo, retalhos da São Paulo da belle époque.

    Reply
  • Suely Kawana 30/05/2018 at 12:04

    Alguém sabe dizer o que era aquele prédio grande à esquerda no topo da foto, bem ao longe? Eu pensei no palacete de Antônio Prado, mas ele não é tão extenso assim. Ou será que é algum prédio perto da Av. Tiradentes? Escola de Farmácia?

    Reply