Quando personalidades famosas falecem a comoção popular costuma ser grande e ruidosa. Se focarmos apenas nos funerais da Cidade de São Paulo podemos lembrar da passagem de figuras como Jânio Quadros, Ayrton Senna, Hebe Camargo e recentemente do apresentador de televisão Gugu Liberato.

No entanto estas grandes multidões em funerais de pessoas famosas e de grande apreço popular não é algo novo. E aqui vamos relatar um caso que literalmente parou a capital paulista há quase um século: a morte do Conde Alexandre Siciliano.

Conde Alexandre Siciliano em foto de 1917

Já falamos sobre o conde aqui, foi na ocasião que apresentamos aos leitores o suntuoso palacete que ele residiu na Avenida Paulista e que foi demolido para dar lugar ao Edifício Winston Churchill, que abriga entre outras empresas a Rádio Jovem Pan.

Na ocasião até mencionamos o passamento do conde, mas agora apresentamos a comoção na cidade que foi todo o processo envolvendo o traslado, missa, cortejo e sepultamento deste ilustre paulistano.

Antes vamos dar um breve histórico deste personagem: Alexandre Siciliano chegou ao Brasil ainda garoto, com apenas nove anos de idade. O talento para negócios surgiu ainda em sua juventude e rapidamente Siciliano começou a acumular grande fortuna.

Bem sucedido, tornou-se importante industrial brasileiro, como proprietário da então Companhia Mecânica e Importadora (próxima foto) e no ramo financeiro, como membro do conselho consultivo do extinto Banco Francês e Italiano. Além disso acumulou também os cargos de presidente da Companhia Ítalo Brasil de Seguros Geraes (grafia da época), presidente da Câmara Italiana de Comércio e até presidente do Hospital Humberto I.

A foto da Cia. Mecânica Importadora no bairro paulistano do Pari (clique para ampliar)

Patrocinador de inúmeras atividades beneficentes e ações de caridade, Alexandre Siciliano foi agraciado em agosto de 1916 com o honroso título de “conde papal” das mãos do Papa Bento XV. Título este que após sua morte seria herdado por seu filho, Alexandre Siciliano Jr.

A morte do conde aconteceu de maneira inesperada em uma de suas muitas viagens de negócios até a então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro, no dia de 19 de fevereiro de 1923. Apesar de estar com uma idade considerada já avançada para aquela época, 62 anos, o Conde Siciliano era conhecido por gozar de boa saúde e ser uma pessoa saudável.

A notícia de seu passamento logo ecoou nos jornais de São Paulo trazendo grande consternação entre os paulistanos. Seu traslado da capital do Brasil para a capital Paulista foi divulgado pela imprensa, o que acarretou em uma multidão poucas vezes vista em São Paulo para aguardar a chegada do falecido na Estação da Luz. Os arredores ficaram lotados de gente.

Multidão cerca o carro fúnebre na Estação da Luz (clique para ampliar)

Dali, o féretro seguiu pela Rua Mauá até a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Campos Elíseos, onde foi feita uma grande missa de corpo presente em sua homenagem. Após o encerramento da cerimônia o corpo seguiu em grande cortejo até o Cemitério da Consolação, onde foi sepultado no mausoléu da família.

Abaixo mais fotografias do acontecimento:

Familiares e autoridades religiosas diante do Sagrado Coração de Jesus (clique para ampliar)

Autoridades militares e civis compareceram à missa e ao enterro (clique para ampliar)

Detalhes do cortejo até o Cemitério da Consolação:

A chegada do corpo ao cemitério:

clique na foto para ampliar

O sepultamento e último adeus a Alexandre Siciliano:

clique na foto para ampliar

O MAUSOLÉU DA FAMÍLIA SICILIANO ATUALMENTE:

O Cemitério da Consolação é bastante conhecido por suas belas obras de arte tumular, fato que faz desta necrópole uma das mais importantes da América Latina. E sem sombra de dúvidas o Mausoléu da Família Siciliano é um dos grandes expoentes artísticos ali presentes, além de ser também um dos maiores, destacando-se facilmente entre os demais ao seu redor.

Apesar disso o mausoléu já tem algum tempo que passa a impressão de que está um tanto quanto esquecido. Mesmo assim, estar diante dele realmente impressiona:

Ao visitar o Cemitério da Consolação não deixe de ir até o Mausoléu da Família Siciliano e prestar uma homenagem a este importante imigrante que se transformou em importante industrial e homem de negócios. Sua localização é rua 22, terrenos 3 e 4.

Conde Alexandre Siciliano
* San Nicola de Arcella, Cosenza, Itália – 17/05/1860
+ Rio de Janeiro, RJ, Brasil – 19/02/1923

Bibliografia consultada:

  • Álbum de São Paulo – 1918 – pp 551, 552 e 553
  • A Ilustração Paulistana – Edição de março de 1923
  • Correio Paulistano – Edição de 20/02/1923

Saiba mais:

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

Deixe um comentário!

Comments

  • Fernando Teixeira da Silva 04/12/2019 at 09:05

    Imagino a consternação dos corações dos paulistas e paulistanos povo sensível .

    Reply
  • Marcelo 04/12/2019 at 15:38

    Ele tinha Siciliano como sobrenome, entretanto nasceu no norte da Itália nas Dolomitas.

    Reply
  • Julio Cirullo Jr. 04/12/2019 at 16:25

    Parabéns pela pesquisa muito interessante ajuda entender os aspectos da construção social da cidade e do país. Já conhecia o Mausoléu, mas não conhecia sua importância histórica.

    Reply
  • Henrique Ewbank 04/12/2019 at 20:49

    Nasci e morei na Lapa, na Vila Romana e próximo havia um bairro chamado Siciliano. Me parece que alguns terrenos pertenciam à esta família.

    Reply
%d blogueiros gostam disto: