Ocorrido sistematicamente entre 1915 e 1923, o Genocídio Armênio é um dos mais sombrios períodos da história da humanidade onde aproximadamente 1.5 milhão de armênios foram exterminados pelos turcos.

Na foto cena do genocídio armênio

Durante e depois esse triste acontecimento uma grande diáspora de armênios ocorreu pelo mundo todo, sendo que muitos deles vieram parar no Brasil e em São Paulo.

Em 1965 ocasião do cinquentenário do massacre, a comunidade armênia paulistana movimentou-se pela criação de um monumento em homenagem às vítimas, para que o trágico acontecimento jamais caísse no esquecimento, justamente naquele período onde o Brasil ainda não reconhecia o genocídio.

Inaugurado em 24 de abril de 1965 o Monumento aos Mártires Armênios foi a primeira obra pública paulistana construída para relembrar o fatídico genocídio. Nós já falamos dela a exaustão por aqui, lembra-se ?

No mesmo ano de 1965 surgiu a ideia de erigir um obelisco nas proximidades do monumento recém inaugurado. A própria comunidade armênia decidiu se cotizar para bancar a construção, entregando ao então prefeito Faria Lima um projeto para a obra.

E dessa maneira, 10 de julho de 1965, o prefeito paulistano sancionou uma lei que autorizava o poder municipal a receber sob forma de doação um obelisco evocativo aos mártires armênios, que seria instalado na Praça Ponte Pequena (hoje Armênia).

Apesar da sanção da lei pelo prefeito o obelisco não iria sair do papel tão cedo. Ele ficaria paralisado por longos anos até que em 1975, uma década mais tarde, o projeto voltou a ser discutido entre a comunidade armênia e o poder público.

Foi neste ano que Avedis Clemente Kherlakian doou a obra para a cidade, que uma vez concluída seria inaugurada no ano seguinte. A comunidade ainda conseguiu além da instalação do obelisco a mudança do nome da praça para Praça Armênia, medida que agradou a comunidade mas desagradou muitos paulistanos, que encheram os jornais paulistanos com cartas contrárias à mudança de um nome tão histórico e relevante para a capital paulista.

Na foto a inauguração do obelisco (Acervo Diário Popular)

Prevaleceu, porém, a proposta do então deputado federal Cunha Bueno que, de olho nos votos da comunidade armênia, alterava definitivamente o nome daquele endereço.

Assim sendo, em 31 de outubro de 1976 era inaugurado o obelisco e a praça renomeada e remodelada (foto anterior) em um evento organizado pelo poder municipal.

O obelisco não é tão grande e imponente quanto o do Ibirapuera, construído em granito medindo apenas pouco mais de dois metros de altura. Está instalado na parte central da Praça Armênia, mas sem qualquer tipo de destaque.

Informações sobre o obelisco são escassas e muito difíceis de encontrar, algo bastante comum quando se trata de monumentos que partiram da iniciativa privada para o poder público.

No próprio monumento não há nada mais que explique aos transeuntes – que por ali não são poucos – ao que se refere este obelisco. Nem uma placa ou mesmo um QR code. Sem qualquer tipo de iluminação e cercado de árvores frondosas, à noite fica quase que impossível de vê-lo.

Originalmente existia uma placa com os dizeres “Praça Armênia – Cinquentenário da Imigração Armênia ao Brasil – Prefeito Olavo Setúbal – 31/10/1976”. De acordo com pessoas da comunidade esta placa já foi arrancada há cerca de 20 anos ou mais.

Não é raro o monumento estar encoberto por uma barraca de vendedor ambulante ou mesmo servindo de base para moradores de rua encostarem seus pertences. Um destino muito triste para algo com tão importante simbolismo.

Em 2010 a iniciativa privada resgatou seu vizinho Monumento aos Mártires Armênios, mudando-o de lugar na praça e providenciando uma ampla e completa restauração. O obelisco, entretanto, foi esquecido e assim continua até hoje.

Uma lástima!

Saiba mais sobre o genocídio armênio: www.genocidioarmenio.com.br (fica a curiosidade que nem mesmo neste site dedicado a este assunto existem fotos do obelisco)

Dados do obelisco:

  • Autor: desconhecido
  • Inauguração: 1965
  • Estrutura: granito (base e pedestal)
  • Dimensões: 1,52m

Nota:

Bibliografia consultada:

  • O Estado de S.Paulo – 24/04/1965 – pp 8
  • O Estado de S.Paulo – 10/07/1965 – pp 19
  • Diário Popular – 01/11/1976 – pp 3

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comments

  • Fernando Teixeira da Silva 11/01/2019 at 16:37

    Todos têm determinada dose de irracionalidade em nosso genoma, alguns mais, e outros menos, e que observamos mesmo nas pequenas atitudes.

    Reply
  • Liliane de Paula Martins 11/01/2019 at 18:07

    Acompanho vc, faz algum tempo, no Instagram.
    E agora pelo email.
    Lá no meu blo vou também lhe acompanhar.
    Muito bom saber da história dos casarões lindos de SP.
    Moro no Recife.
    Obrigada,
    Liliane de Paula Martins

    Reply
  • NAZIR ABDO 12/01/2019 at 09:14

    ESTE MONUMENTO É UMA VERGONHA PARA A COLONIA ARMENIA DE SÃO PAULO.DEVE SER SUBSTITUIDO POR UMA OBRA DIGNA DO ABRIGO E DA RIQUEZA QUE OS ARMENIOS CONSEGUIRAM NO BRASI

    Reply
  • Carlos Antonio Lopes 12/01/2019 at 12:17

    Dessgraçadamente por absoluta ignorância a maior parte dos passantes sequer sabem o significado do monumento, achando-o apenas um adorno casual.!!

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