Um dos primeiros locais que eu fotografei aqui no São Paulo Antiga, já no distante ano de 2009, foi o casarão abaixo que estava à venda e em péssimas condições de preservação:

Em 2009 seu destino mais provável parecia ser a demolição

Construído em 1925, o palacete localizado na Rua Dr. Gabriel dos Santos sempre foi um dos patrimônios mais importantes do centro paulistano. Construção eclética, a antiga residência mescla elementos de inspiração classicista com outros mais pitorescos, como os pequenos telhados  sobre porta principal e janelas, sustentados por mãos francesas em trabalhadas em madeira.

Não demorou muito tempo e fui informado que não apenas ele, mas seu vizinho (foto abaixo) – um casarão no número 214 – haviam sido vendidos juntos para uma construtora. Fiquei bastante preocupado com o que essa venda poderia resultar para ambas as construções.

O casarão vizinho, o risco parecia real e iminente

O tempo passou e no ano de 2014 os dois imóveis foram isolados da rua com uma cerca metálica com os dizeres ˝restauro˝. Procurei informações sobre o que iria ocorrer ali mas só obtive respostas vagas, até que soube que uma construtora chamada Think, junto a uma incorporadora de nome Niss iriam erguer uma torre no fundo do terreno de ambas as casas e as preservariam.

As obras começaram e realmente os casarões foram ficando, de início isolados por tapumes e telas, até que no estágio final da obra começaram a receber o tão sonhado restauro. Em meados de 2017, quando o edifício foi finalmente concluído, lá estavam os dois palacetes de volta à vida:

clique na foto para ampliar

Os dois casarões foram devolvidos à cidade restaurados e completamente integrados ao edifício, que recebeu o nome de Gabriel 200. O prédio com uma unidade por andar soube aproveitar bem o terreno ao fundo, e tem unidades bem amplas e algumas comodidades peculiares, como os elevadores sabáticos¹.

As duas casas perderam sua característica de imóveis residenciais, tendo sido adaptadas para acomodar outras necessidades dos condôminos do Gabriel 200. Nas residências foram instaladas área de recreação infantil, sala de jogos, academia de ginástica etc.

Sala como televisão e mesa de pebolim (clique para ampliar)

Como um entusiasta do patrimônio histórico devo dizer que fiquei muito feliz com esta obra de restauro, mesmo assim tenho algumas ressalvas que não posso deixar de apresentar aos meus leitores.

Acredito que ao menos um casarão desse deveria ser destinado a alguma atividade de caráter público, mesmo reconhecendo que isso traga alguma dificuldade à administração do condomínio. Uma sala de leitura ? Uma sala para estudos ou poesia ? Ideias com certeza não faltariam.

Outra é o gosto duvidoso da cor escolhida ao menos para o casarão esquerdo, que era pintado de um branco encantador que combinava muito com o imóvel, e foi premiado com uma cor de tom tijolo de gosto duvidoso. Um Departamento de Patrimônio Histórico mais rigoroso com certeza teria exigido isso dos construtores.

Enfim, ao menos temos a satisfação de contemplar dois exemplares da São Paulo Antiga restaurados e com longa vida pela frente. Quanto ao prédio, fica a pergunta: Será que venderam como Santa Cecília, que é o correto, ou como Higienópolis para cobrar um pouco mais ?

Meus parabéns a quem teve a iniciativa de manter os casarões junto com o novo empreendimento. Me fez lembrar de iniciativa semelhante na Bela Vista, a Praça Pamplona.

Veja mais fotos dos palacetes (clique para ampliar):

Agradecimentos: Mariana Vollert Dornelas pelo envio das fotografias.

Mais detalhes sobre o empreendimento e sobre os palacetes, clique aqui.

Nota:

1 – Elevadores sabáticos são modelos programados e controlados por software para que durante o “Shabat” os ortodoxos, que não fazem nenhum esforço, o que inclui não apertar o botão de chamada do elevador. Com isso durante esse específico período de 24 horas, o elevador faz paradas automáticas periodicamente em todos andares, rumando ao térreo e depois ao andar mais alto, dispensando qualquer acionamento ou ação manual.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • MARIANA VOLLERT DORNELAS 15/06/2018 at 16:50

    A matéria ficou linda Douglas!
    Se quiser entrar nos palacetes par conhecer, me envie um email que podemos visitar para você ver como ficaram.

    Reply
  • Talita Carmo 19/06/2018 at 19:55

    Acho lindo o trablho de voces! Uma iniciativa valiosa para os tempos de hoje.
    Ao navegar pelo site sinto que minha alma não pertence aos dias de hoje, o cotidiano da SP cinzenta e de pessoas correndo contra o tempo. Me perco, as vezes de tanta coisa rica que contém aqui. E bate aquele pensamento: “Como seria minha vida nos anos passados? Que sorte seria a minha viver numa SP tão diferente desta que vivemos hoje!”
    Só peço que por favor nunca desistam desse projeto, que nos faz suspirar atrás das telas de um computador ou celular.

    Reply
  • Regis Barros 21/08/2018 at 13:12

    Excelente matéria, as obras ficaram lindas, que bom que preservaram os palacetes.
    ainda temos a última unidade no prédio.

    Reply
  • Daniel Pardo 11/10/2018 at 20:57

    O prédio que foi construído é aquele que está ao fundo dos dois casarões???
    Se for, ele também é um prédio de muito bom gosto, uma vez que ele não aparenta ser alto e nem tem um visual gritante como a maioria dos prédios construídos aqui na cidade.

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