Uma das áreas menos exploradas da Penha pelos apaixonados por casas antigas, é a região mais próxima ao município vizinho de Guarulhos, na área mais encostada ao leito ferroviário da CPTM. Esta parte da Penha, conhecida como Jardim Jau, era pouco povoada até o primeiros anos do século 20, sendo conhecida pelos antigos apenas como “região das Olarias“, pois por ali, e também em Guarulhos, haviam olarias que produziam tijolos que abasteciam boa parte da Cidade de São Paulo.

O mapa abaixo, de 1924, mostra a quase total inexistência de ruas e avenidas na região. Praticamente a única via que existia à época era a Estrada Nova da Conceição (dos Guarulhos), que alguns anos mais tarde foi dividida em duas, sendo a porção paulistana chamada de Avenida Gabriela Mistral e, depois do Rio Tietê, de Avenida Guarulhos.

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A região só começou a se desenvolver pra valer mesmo na década de 30, principalmente a partir de 1934, quando o ramal ferroviário variante, de Poá, foi inaugurado. E foi bem neste trecho em questão aqui, que surgiu a Estação Engenheiro Trindade e, junto com ela, o loteamento da região.

A casa da foto abaixo, que abordamos aqui, não foi necessariamente construída a partir desta data, mas é bem possível que tenha surgido mais ou menos nesta época.

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Primeiramente, confesso que não lembrava que tinha fotografado esta casa. E ela só me voltou a cabeça semana passada quando soube que sua vizinha, a primeira padaria da Penha, um elegante imóvel do final do século 19, havia sido demolido. Foi neste momento que recordei desta bela casa amarela, de arquitetura peculiar, que ficava no número 39 da rua David Mary. Via que surgiu oficialmente nos idos da década 30.

Minha esperança é que ao menos este belo sobrado tivesse sido poupado da demolição, mas ao chegar lá descobri que tanto o imóvel da velha padaria como ela já tinham sumido.

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

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Estes dois imóveis demolidos servem para mostrar o preconceito dos “figurões” do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) com os imóveis localizados fora do eixo central da cidade. Nossos burocratas que deveriam zelar pela memória da cidade raramente saem de seu confortável ar-condicionado para ver a cidade de perto. Não conhecem a cidade que deveriam zelar por seu patrimônio histórico e parecem tratar os bairros afastados com desprezo.

Detalhes da residência (clique na foto para ampliar).

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Atualmente quem está à frente do DPH é a arquiteta Nádia Somekh, sendo que ela assumiu o órgão na gestão do atual prefeito, Fernando Haddad. Não a conheço pessoalmente e sempre ouvi bons comentários a respeito de sua pessoa, entretanto, é na gestão dela que tenho a impressão de que São Paulo mais está sofrendo com o descaso ao patrimônio histórico.

Some-se isso a um Secretário de Cultura do Município, que nada conhece da cidade, e o resultado é este: demolições por todos os lados sem qualquer ação do poder público. Parece que pra administração atual, apenas grafite é cultura. Basta ver os patéticos esforços do prefeito em “proteger” o grafite e a nulidade de seus esforços para defender o patrimônio histórico (ps: não sou conta grafite!).

Detalhe da entrada da residência (clique na foto para ampliar).

Detalhe da entrada da residência (clique na foto para ampliar).

A casa demolida era de um estilo completamente diferente de qualquer outra da região. Possuía muros baixos e gradil de ferro, e sua varanda, de raro estilo arquitetônico, era bem peculiar, adornada com duas colunas salomônicas. A meia lua da fachada parecia fazer da sala um cômodo bastante escuro. Segundo apuramos, nos últimos três anos subiram o muro, escondendo um tanto a casa e sua arquitetura (as fotos que ilustram o artigo são de 2010).

Sempre costumo escrever no São Paulo Antiga que reconheço ser impossível preservar todas as construções antigas da cidade, entretanto, é preciso começar a ter uma maior atuação de DPH, Condephaat e IPHAN para catalogar os imóveis de real importância da cidade, especialmente os não localizados no centro, ou em breve não teremos mais o que preservar.

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Alexandre Fonana 12/08/2014 at 16:55

    A atual administração só governa p/grupos organizados, como são os grafiteiros. O dia-a-dia da cidade, o cidadão comum, esse não tem importância. E nisso se insere a preservação do patrimônio histórico, especialmente estas casas.

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  • Brenno Calderan Pereira 19/02/2015 at 14:15

    mais um exemplar raro que vai abaixo.

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  • Wilson Chaves 10/12/2015 at 15:29

    Cara sou fã de casa antiga morei em uma na Penha, na rua Siqueira Silva 223. Infelizmente sua fachada original foi descaracterizada pelos atuais moradores.

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  • Marcelo 13/02/2017 at 11:57

    Como se vê, era uma casa de dimensões modestas e, ao que tudo indica, em perfeito estado de conservação.

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