Recentemente, abordei aqui no São Paulo Antiga sobre a dificuldade da região do Glicério e da baixada da Liberdade em manter-se preservada ou mesmo em se renovar. Trata-se de um área da região central da cidade que parece estar sempre em uma espécie de limbo, esquecida pelos paulistanos de outras regiões e, principalmente, das autoridades municipais.

Muito do casario antigo do Glicério encontra-se em situação lastimável e quase irrecuperável, consequência de anos de negligência pública para a área, e uma pobreza de visão dos políticos paulistanos que nunca conseguem enxergar o potencial turístico que estes “cantos” da cidade podem atrair, uma vez que é possível chegar, a partir da Praça da Sé, caminhando nestes locais. Se o turista atrever-se ir até a região, encontrará muito lixo nas ruas e correrá sério risco de ser abordado por meliantes.

Mesmo assim, recomendo aos paulistanos que façam uma exploração urbana no bairro do Glicério e na baixada da Liberdade. Encontrarão construções antigas bastante interessantes, boa parte delas construídas nas três primeiras décadas do século 20. Como o simpático imóvel abaixo:

Localizado no número 835 da Rua do Glicério, trata-se de uma construção geminada composta de residência e armazém comercial, tipo muito comum nesta região da cidade e típico da São Paulo de antigamente. Do lado direito fica a parte residencial, enquanto do lado esquerdo fica a porção comercial do imóvel.

Apesar de estar em uma área da cidade bastante degradada, a velha construção apresenta-se com bastante dignidade. Aparentemente ocupada por pessoas de baixa renda, isso não parece ser um obstáculo para manter o imóvel preservado. Portas, janelas e esquadrias originais resistem ao tempo, embora as janelas à direita da porta da residência tenham sido reduzidas com tijolos. Mesmo assim, as janelas originais estão ali.

No lado comercial da construção, as portas de aço estão bastante preservadas e, sobre elas, o gradil original de ferro (que permite a ventilação do estabelecimento quando o mesmo está fechado) também está conservado e intacto. No local funcionada uma oficina de conserto de fogões, geladeiras e máquinas de lavar.

De alguma maneira, mesmo eventualmente sem condições, as pessoas tentam preservar seus imóveis antigos. Porém é preciso um maior envolvimento do poder público com estes proprietários ou inquilinos de casas antigas. Apenas a isenção de IPTU nesses casos não é o bastante. É preciso estimulo, apoio e principalmente instruir estas pessoas sobre como viver ou trabalhar em um imóvel preservado. Muitos destes moradores pensam que apenas moram em um imóvel velho e não tem consciência de que residem em um pedaço da história da cidade. É preciso mudar isso.

Veja mais fotos deste imóvel (clique na miniatura para ampliar):

Foto: Douglas Nascimento
Foto: Douglas Nascimento
Foto: Douglas Nascimento

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About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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