A região do Tatuapé mais próxima da avenida Celso Garcia é uma das partes do bairro que mais aprecio. Apesar do caos urbano que é a própria Celso Garcia em si, a região é muito gostosa de andar e de conhecer, com um misto de casas muito antigas, sobrados dos anos 60 e 70 e prédios mais recentes. É também onde está uma das melhores padarias paulistanas, a Vera Cruz.

E, mesmo passando por lá com uma frequência quase semanal, vez por outra sou surpreendido com alguma casa da região que desaparece. Alertado por leitores, fui informado da demolição deste belo sobrado antigo:

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Localizado no 178 da rua Almirante Calheiros, bem próximo à rua Tuiuti, este sobrado era um belo exemplar da primeira metade do século 20 e que eu já conhecia há algum tempo. A notícia de sua destruição me causou bastante aborrecimento, pois tratava-se de um exemplar em perfeito estado de conservação, como pode ser conferido através das fotografias.

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Era um sobrado dotado de uma arquitetura muito agradável, com traços simples mas harmoniosos.  Oriunda de uma época em que tínhamos ruas mais traquilas e seguras, possuía muro e gradil baixos, além de um simpático portão. No quintal, o tradicional piso de caquinhos vermelhos. Já na fachada do imóvel as janelas e esquadrias do piso superior foram substituídas por outras de alumínio, enquanto no térreo permaneciam as originais.

Nota-se também o excelente aproveitamento do terreno por parte da residência, uma vez que era um lote bastante estreito e comprido. Isso não foi problema para que o arquiteto, à época, projetasse uma casa bem atraente para seu cliente.

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E no começo de 2013 este belo sobrado deixou de existir. Foi demolido para dar lugar a uma construção comercial que ficou pronta no início de 2014. A foto abaixo mostra o que foi erguido no local do sobrado e deixo para vocês comentaram (ou não) sobre o novo imóvel comercial que foi construído.

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Não é a primeira vez que escrevo isso, mas é lamentável a inércia do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) com as construções antigas que ficam afastadas da região central da capital paulista. Nada fazem para proteger a memória dos bairros e muitas regiões paulistanas estão perdendo sua identidade.  Que trágica é a atual gestão deste órgão para São Paulo.

Por fim, algumas outras imagens do sobrado, de 2011, dois anos antes de vir abaixo (clique para ampliar):

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Conheça o local através de nosso mapa:

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About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Beatriz Barban 13/08/2014 at 16:39

    É uma pena ver um imóvel tão bonito ser demolido, para dar lugar a uma obra tão feia e sem personalidade. Uma construção antiga pode ser modernizada sem ser necessariamente demolida, assim como foi feito no poupa tempo da lapa. Um galpão antigo e deteriorado, que foi totalmente modernizado, sem perder a beleza de sua antiga fachada.

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  • Marcia 13/08/2014 at 16:54

    Que pena! Um lindo sobrado… Erma mais bonitas, apesar de eu gostar da modernidade achei o novo prédio horrível, sem graça sem vida sem verde…. 🙁 Triste

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  • Antonio Santtini 13/08/2014 at 17:15

    “Departamento de Patrimônio Histórico” (DPH), qual a real missão deste departamento se temos vistos todos os dias,construções de cunho históricos sendo transformados apertamento,.”apertadíssimo”.nos mas diversos bairros. da capital de são paulo. .. sendo assim eu torno a pergunta ..qual é a real missão deste,( DPH ),zelar ou se fingir de morto.

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  • Gualberto Cappi 13/08/2014 at 20:36

    Tres rapidas consideraçoes.
    A primeira. O sobrado que “sumiu” tinha uma certa elegancia, a pesar de ser um predio simples e sem pretençoes, e aproveitava otimamente do lote, estreito, comprido e de esquina. O sobrado que “sobrou” no seu lugar è sem proporçoes, ridiculo e pretencioso (com pretensao “modernista”).
    A segunda. Estou quase certo que este belo exemplar de modernidade ganhou sò alguns metros quadrados a mais de planta sobre o antigo. Ele “pegou” o quintal e o puis dentro da construçao, ganhando aquele espaço (antes “semi-publico”), mas è sò olhar pra ele e perceber que tem espaços là dentro nao muito bem aproveitados.
    A terceira. Alem de ser este novo predio, um estabelecimento comercial, entao, sò por isso, nao comparavel em termos de uso com o precedente, vale a pena notar como o que era, o quintal diante de casa, simbolo de vida de rua e de vizinhança (e entao espaço apreciado e aproveitado), està nesses tempos conturbados fadado a desaparecer; e isso nos deveria deixar a pensar.

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  • Sergio 13/08/2014 at 21:47

    muito triste mesmo…que pena….tempos bons desses sobrados gostosos de ver e de viver…

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  • Solange 14/08/2014 at 09:14

    É prá lá de lamentável o desinteresse em se preservar a história dos bairros, da ciade etc…. o mais engraçado é q as pessoas qdo viajam gostam de q???? de visitar e admirar o antigo!!!! eu, particularmente, adoro!!!! Mas aqui no Brasil é assim mesmo e de mal a pior… infelizmente…. no Belém há casarões belíssimos q um dia tb deixarao de existir… em nome de q???? da ganância de herdeiros!!!! Qto a nova construção q tomou o lugar do casarão…. sem comentários viu!!!! eu adorava passar lá e ficar admirando a casa…. imaginando quem viveu ali…. o q fazia…conhecer por dentro…enfim…. lamentável

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  • Affonso Maria Lima Morel 14/08/2014 at 10:44

    Quanto ao assunto de preservação de imóveis históricos, sugiro a leitura do jornal A TRIBUNA de Santos do dia
    10/8/2014, páginas -2 e A-11, que traz uma matéria muito interessante sobre a questão.

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  • Carlos Gama 14/08/2014 at 10:48

    As cidades vinham se descaracterizando aos poucos, mas agora isso acontece em um ritmo acelerado e assustador. Vamos perdendo a identidade cultural e arquitetônica sem nenhuma preocupação histórica ou de memória. A população brasileira cresce em ritmo de procriação em viveiro, como se fôssemos coelhos e é preciso espaço também para expansão das atividades comerciais; as vítimas acabam sendo os imóveis residenciais, mesmo que estejam conservados como este, desta matéria.
    Falta especialmente sensibilidade – é o ter sobrepujando o ser – e Beatriz Barban aborda bem esse ponto, pois seria possível – talvez mais econômico e racional – aproveitar a construção sólida e mais antiga, dando a ela toques de modernidade e adaptação correta para o atual uso.
    Esse seu trabalho de mostrar e tentar conscientizar as pessoas sobre a preservação da memória e do patrimônio cultural vai dando seus frutos e eles se multiplicarão, Douglas.

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  • Reinaldo Gaudencio (@Reinaldu) 14/08/2014 at 14:17

    Minha adolescência toda passada nesta região, era o ponto de encontro para subirmos em direção a Praça SIlvio Romero e tomar umas batidas no Pilequinho e curtir um som na Contra Mão, quem era da época sabe do que estou falando. Uma pena realmente.

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  • Adriano Tomino 15/08/2014 at 22:57

    Demoliram completamente o prédio ? Ficou com cara de que aproveitaram parte da construção, até a pintura parece remeter à cor original do sobrado. Era uma casa que sempre chamava minha atenção quando passava pela região por causa do bom estado de conservação, pena não ter sido recebido o respeito que merecia.

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  • Fernando 16/08/2014 at 21:19

    Essa é a típica demanda criada.

    “-Vou comprar uma casa, construir várias salas e alugar. ”

    Seja para uso residencial seja para comercial, o que precisa é que as pessoas não acreditem nessa forma de pressão que se inventa para que se acredite que falta imóvel em São Paulo. Sobra gente, pois a migração sem foco trouxe reflexos e há muita gente perdida que hoje sofre com a realidade de uma grande cidade que nem sempre tem tanta oportunidade como aparenta.

    Mas já está ocorrendo o efeito contrário e as vendas estão despencando, assim como quem compra para ficar com um imóvel por 1 ano e revender com um gordo lucro, a pena é que essa especulação afeta justo em quem seriamente gostaria de comprar um imóvel como este sobrado, que foi vendido ao preço de seu terreno.

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  • Gualberto Cappi 17/08/2014 at 19:50

    @adriano. Com certeza demoliram tudo. Isso, alem de ser mais economico em geral quando o predio è “reformado” de modo tao radical, è tambem visivel na vetrine do ingresso onde se vè bem o espaço aberto e sem muro do andar terreo (mas imagino ser iguais os andares acima); o que engana è a cor da fachada, feita, por o que parece, de ceramica azul claro, uma cor que recorda a velha construçao.
    @fernando. Concordo plenamente, o mercado imobiliar està “se-resfriando” e isso por varios motivos: quem, nos ultimos 6-7 anos, queria “fugir” da crise europeia investindo no setor imobiliar no Brasil, desfrutando o euro “forte” e a falta de perspectivas na Europa, jà o fez (fazendo com isso subir em super aceleraçao os preços) e jà vendeu (e ganhou vergonhosamente uma fortuna ..) aproveitando do fato que o imovel, como vocè mesmo justamente diz, foi visto pela maioria de quem tinha um dinherinho de sobra (ou talvez, o unico dinheirinho aguardado) ou como uma possibilidade de lucro imediato ou como um investimento “refugio” (nao sei se fala). Mas tudo isso è criado artificialmente, de parte de quem tem interesse em criar a bola. Tudo mundo imaginando (bombado por artigos de jornais, serviços televisivos, etc.) que a demanda de imoveis è real (ou seja corresponde à necessidades reais do mercado), e que entao os preços sao certos, ou que serà sempre o proximo comprador a ficar “queimado”. Quem estuda este fenomeno (alias, nada novo), sabe muito bem que, absorvida toda a liquidade disponivel (e muita vezes, criando dividas importantes: veja o caso espanhol com a entrada da Espanha na “eurozona”), a bola vai estorar, ou seja, os rendimentos dos imoveis vao encarar o mercado real, feito de gente que trabalha, tem um certo redito e pode comprar ou alugar sò à certas condiçoes (alem dos emprestimos bancarios que ajudaram a montar a “bola”) … Eu sempre pensei que o poder publico teria o dever de impedir estas loucuras (verdadeira sindromes de uma enfermidade economica e social) que sempre acabam premiando os “safados” que mandam no jogo à detrimento dos tontos e, pior ainda, da gente que trabalha e precisa de condiçoes humanas e justas pra viver … Mas sei que sou um utopista …

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  • Alexandre Fontana 19/08/2014 at 14:19

    O pior é a coisa horrorosa que foi construída no lugar.

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  • vanialacerda2013 24/08/2014 at 17:58

    Acho especialmente bonitos os muros dessas casas antigas. Revestidos de pedras, baixos, com um gradil sempre bonito e elaborado. O sobrado ao lado, que ainda existe, tem o mesmo tipo de muro. Formava uma espécie de continuação com aquele que foi demolido, era realmente um belo conjunto.

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  • Emerson de Faria 23/10/2014 at 20:28

    O Tatuapé e parte da zona leste é uma das regiões mais aprazíveis da cidade, que ainda conservam um ar interiorano no meio da confusão barulhenta da metrópole.

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  • Patricia Mendonça 20/08/2015 at 23:41

    Sim, foi uma pena mesmo

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  • Bruna 01/10/2015 at 20:21

    Infelizmente, não vai demorar muito para que os bairros de São Paulo sejam lugares sem passado, sem história e sem vida.

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