Os suicídios são um assunto tabu praticamente em todas as esferas da sociedade. Este drama atinge ricos e pobres, pessoas de todas as etnias e nacionalidades e de todas as religiões.

No período da Belle Époque paulistana – especialmente a partir de 1914 – as ocorrências de suicídios aumentaram bastante em São Paulo, em decorrência da inauguração de uma obra viária que se tornou o prato cheio para os suicidas e desesperados: o Viaduto Santa Ifigênia.

Divulgação: Correio Paulistano

Uma das mais importantes obras viárias paulistanas de seu tempo e até hoje de suma importância para o centro da cidade, ligando o Largo São Bento ao Largo de Santa Ifigênia, o viaduto  – cuja estrututa de ferro foi importada e trazida da Bélgica já montada – foi inaugurado em meados de 1913.

Em seu ponto central, por onde hoje temos algumas paradas de ônibus, estava localizada a rua Anhangabau (foto abaixo) que naquela época era bastante estreita e margeada de inúmeras residências e estabelecimentos comerciais.

Viaduto Santa Ifigênia em 1916 (clique para ampliar)

Viaduto Santa Ifigênia em 1916 (clique para ampliar)

O que ninguém poderia imaginar naquela época, é que no ano seguinte a sua inauguração, o célebre viaduto em estilo art nouveau iria transformar-se no primeiro grande “point” de suicídios da capital paulista.

A primeira tentativa de suicídio pulando do viaduto Santa Ifigênia registrada foi em 6 de dezembro de 1914, quando um imigrante sírio chamado Dahir Assani pulou do viaduto e caiu na rua Anhangabau:

Divulgação - Correio Paulistano

O fato era até então inédito neste viaduto, mas que já havia ocorrido algumas vezes no Viaduto do Chá, chamou a atenção das autoridades e também da imprensa, que sempre noticiava os trágicos acontecimentos.

Os suicídios neste viaduto foram bastante comuns entre a segunda metade da década de 1910 e a primeira metade da década de 20, quando começam a sumir das páginas dos jornais. Não é possível afirmar se os suicídios cessaram a partir deste momento, ou se deixaram apenas de ser noticiados, para não estimular outras pessoas a também pularem.

Abaixo está uma compilação que fizemos dos casos de suicídio noticiados neste período acima citado, pelo extinto jornal Correio Paulistano. Leiam as notícias e observem como estes tristes casos eram reportados na mídia paulistana. Todos os recortes foram extraídos do extinto jornal Correio Paulistano e suas datas de publicação encontram-se logo abaixo da notícia.

12dez1915

12/12/1915

15dez1915

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4/02/1917

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15/02/1919

10set1923

10/09/1923

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Almir 18/08/2015 at 16:06

    Acho que o número de suicídios nunca diminui nesses locais, apenas não é divulgado. Quando morava em Sampa o ponto final de meu ônibus era sob esse viaduto e cheguei a testemunhar alguns casos.

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  • heitor felippe 18/08/2015 at 16:48

    Eu tive um tio, irmão de meu pai, que se atirou do viaduto Santa Efigenia, em 1936, chamado Ettore Filippi porque estava com tuberculose. No ano seguinte, eu nasci e em homenagem a ele meu nome é Heitor.

    Reply
  • Ronaldo 18/08/2015 at 17:14

    Hoje o local que os suicidas comumente preferem são as linhas do metrô, porém não é divulgado, quando nos trens são divulgados que param por motivos técnicos, normalmente é para tirar o cadáver.

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    • SavianoMarcio 19/08/2015 at 12:01

      Na realidade um número muito pequeno deles e mesmo assim menos gente ainda morre, a maioria é sim atraso por segurar portas e falhas nos trens.

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  • Neuza ParanhosNeuza 18/08/2015 at 18:43

    Talvez o suicídio fosse muito presente na belle èpoque. No Rio, ao escrever sobre a infância, Nelson Rodrigues comentou como era comum nessa época os namorados adolescentes fazerem pacto de morte… e cumprirem sem motivo aparente, em tenra idade.

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    • Douglas Nascimento 18/08/2015 at 23:00

      Oi Neuza, ocorreram muitos suicidios por amor em SP… seja por cianureto ou estriquinina

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  • J miranda lourenco 18/08/2015 at 18:47

    Minha avó, nascida no final do século 19, quando jovem trabalhava na rua Mauá, nas proximidades. Na minha infância lembro dela contar da inauguração do viaduto Sta Ifigênia e logo em seguida falava dos suicídios que começaram acontecer lá.
    Agora tenho a confirmação da história de minha avó Dorotheia.

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  • Simone 18/08/2015 at 20:09

    Existe um código de ética no jornalismo que não permite a divulgação de suicídios, pois estimularia ainda mais os incidentes. Acredito que eles aconteçam tanto como na época. Trabalho no Viaduto do Chá e já presenciei umas três tentativas último ano.

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    • Douglas Nascimento 18/08/2015 at 22:59

      Eu vi também e fiquei meio mal de assistir a cena, mas pior mesmo foi o que pulo do Altino Arantes uns dois anos atrás.
      Como posso ir conhecer o jardim suspenso lá no seu trabalho ? 🙂

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  • JORGE ROBERTO COELHO FERREIRA 18/08/2015 at 21:19

    Durante décadas trabalhei e frequentei o centro. Nunca testemunhei um suicídio no Santa Ifigência, porém, vários no Viaduto do Chá. Um deles, ocorrido no início dos anos setenta ou final dos sessenta, foi de um cidadão que pulou apertando no peito um distintivo do Corinthians (embora toda gente sabe que corintiano não morre, fica encantado); Curioso também é que parece que as primeiras tentativas de suicídio nesses viadutos foram infrutíferas, como o primeiro anúncio desta matéria dá a entender, e no relato de Jorge Americano no livro São Paulo Naquele Tempo (o qual recomendo a leitura) que conta que um cidadão saltou do Viaduto do Chá, caindo justamente num monte de areia onde hoje é a Rua Formosa. O Cidadão, coxeando de uma perna, foi conduzido pela Polícia, sob vaias dos circunstantes.

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  • Vinícius 18/08/2015 at 22:23

    A quantidade de relatos chega a impressionar… Isto que falaram apenas do Viaduto; se entrarem pelos edifícios, a começar pelo Martinelli, a lista dobra.

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  • Acilegna Sales 21/08/2015 at 06:48

    Parabéns, mais uma vez. O que mais me chamou a atenção não é o número de suicídios ou tentativa dele, mas sim , a maneira de escrever o português naquela época. Obrigada por tudo isso. Admiro muito seu trabalho. Por sua causa tive a oportunidade de visitar a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva no Park Bryant. Agradeço imensamente tantas informações e curiosidades apresentadas aqui. Parabéns!

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    • Douglas Nascimento 21/08/2015 at 11:06

      Que bacana que você também foi lá!

      Reply
      • Acilegna Sales 22/08/2015 at 07:50

        Sim, Douglas. Estive lá e agradeço imensamente sua dica. Em outro momento lembrei muito de você ao conhecer o Henry Ford Museun em Detroit. Muito obrigada. Que Deus continue abençoando seu trabalho com sabedoria e entusiasmo. Grande abraço.

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  • Miriam Torrês 23/08/2015 at 08:14

    Excelente pesquisa e informações. Meu pai era jornaleiro naquela época e falava sobre esses casos. Grata pelo seu trabalho e dedicação. Abs

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  • danielpardo2015 07/09/2015 at 19:00

    É… ninguém pode negar ao ser humano o direto dele se desesperar…

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  • roberto 07/10/2015 at 14:58

    uma vez eu cheio de carnet do antigo mappin no viaduto do cha, resolvi liquidar as contas, fiquei entre pular e jogar os carnet abaixo, piquei todos os carnets e joguei abaixo, 5 anos depois nao devia mais nada, nunca mais comprei a credito hoje so no cash e estou muito bem,

    Reply
  • ilana 23/10/2015 at 13:50

    legallllllllllllllllzao

    Reply
  • Suicídios na belle époque paulistana – IdeaFixa 29/10/2015 at 11:42

    […] Os suicídios são um assunto tabu praticamente em todas as esferas da sociedade. Este drama atinge ricos e pobres, pessoas de todas as etnias e nacionalidades e de todas as religiões. No período da Belle Époque paulistana – especialmente a partir de 1914 – as ocorrências de suicídios aumentaram bastante em São Paulo, em decorrência da inauguração de uma obra viária que se tornou o prato cheio para os suicidas e desesperados: o Viaduto Santa Ifigênia. (texto extraído do site SP antiga) […]

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