Estava fazendo mais uma pesquisa no rico acervo histórico do extinto jornal Correio Paulistano quando me deparei meio que sem querer com o seguinte anúncio de construtora, veiculado na edição de 23 de fevereiro de 1925:

O ˝reclame˝ convidava leitores do referido jornal a irem conhecer a recém construída Villa Primavera que, na verdade, ao invés de uma vila no nosso entendimento de hoje tratava-se de um belíssimo casarão na Rua Sergipe.

Além de anunciar o imóvel, a Barros e Mattos tratava de dar uma alfinetada na Light pela ausência de energia elétrica, de acordo com o escrito devido a uma ˝crise atual˝. Ali mesmo declaravam ter resolvido o problema através de um conjunto ˝Kohler˝, que nada mais é que um gerador movido a óleo.

A pergunta que fiz ao ver este anúncio foi: Será que esse casarão ainda existia ?

Bem, tratei de ir imediatamente atrás da resposta. O endereço mencionado no anúncio, Rua Sergipe 26, não corresponde ao número atual pois em meados da década de 30 a numeração de logradouros de São Paulo foi alterada, mudando para o padrão que mantemos até os dias e hoje. Esta numeração daria mais ou menos na altura do atual 300.

Dito e feito! Bastou ir até o local para constatar que a Vila Primavera ainda existe, no atual número 270:

clique na foto para ampliar

Não foi difícil identificá-la com o anúncio em mãos. Apesar de não estar em sua melhor forma o casarão mantém preservado praticamente toda a sua estrutura apresentada no desenho do anúncio.

Estão por lá o portão de entrada original em estilo art noveau, os detalhes ornamentais sobre o portão, janelas, portas, vitrais e até o acabamento externo que deixa os blocos aparentes. A edícula que aparece no fundo da ilustração de 1925 também permanece.

As duas maiores perdas visíveis são o gradil baixo, de estilo idêntico ao portão, e o frontispício sobre a sacada que pode ter caído ou apenas removido.

Foto: Frontão instalado sobre o portão de entrada

Pelo que apurei com vizinhos e confirmei ao encontrar uma placa na parede do imóvel, a residência pertence a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, especificamente da comunidade húngara.

O casarão apresenta-se em estado mediano de conservação, mas penso ser uma grande vitória a descoberta da existência dele. É uma das poucas casas que ainda existem neste trecho da Rua Sergipe, que se encontra tomada por edifícios a maioria deles residenciais.

No final do anúncio de 1925 também é possível ler que a Vila Outono foi vendida. Será que esta outra vila é seu vizinho da direita ? Observem a foto abaixo:

Seria o vizinho a tal Vila Outono ? Clique para ampliar

Observando a estrutura de ambas as casas, além da área do terreno e área construída, ouso afirmar que o imóvel vizinho é sim a tal Vila Outono que já havia sido vendida de acordo com o anúncio antigo.

A casa foi bastante modernizada com o passar de quase um século, mas a estrutura é essencialmente a mesma. Outro detalhe que pode confirmar a minha teoria é a edícula que está no fundo da Vila Primavera (foto 4 da galeria abaixo) cuja construção é geminada com a casa vizinha.

Um achado, sem dúvida. Além da alegria que tive ao encontrar este imóvel ainda preservado fiquei pensando com meus botões: Além das Vilas Primavera e Outono será que construíram também as vilas verão e inverno ?

Galeria de fotos (clique na imagem para ampliar):

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Daniel 08/06/2018 at 19:02

    Será que o gerador a óleo ainda está lá?

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    • Douglas Nascimento 08/06/2018 at 19:45

      Levando em conta que o brasileiro não costuma guardar nada, eu duvido.

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  • Rodolfo 10/06/2018 at 11:38

    Trabalho de pesquisa excepcional! Sou fã de vcs! Parabéns por resgatar e tentar manter a história paulistana viva

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  • Claudio 11/06/2018 at 09:02

    Muito legal esta “investigação” Douglas. Parabéns !

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  • Luiz Henrique 02/07/2018 at 11:12

    Olá!
    Sim, quanto à crise de energia, eu tenho um livro em casa (“Nosso Século”), que afirma que, em 1925, a cidade passou por um longo período de estiagem, prejudicando, inclusive, os serviços de bonde.

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