Se hoje ainda encontramos pequenas capelas espalhadas pelos diversos bairros paulistanos, imagine como era este cenário até algumas décadas atrás. Existiam muitas outras capelas que por diversas razões desapareceram do cenário urbano da capital.

O Instituto São Paulo Antiga vem documentando e catalogando estes templos e sempre nos surpreendemos com a descobertas de capelas que sequer tínhamos imaginado a existência, como esta que vamos abordar neste artigo.

Porém antes de falar da capela, vamos falar de quem a construiu:

Dona Albina de Sousa Barbosa

Nascida em Portugal no já distante ano de 1862, Albina de Sousa Barbosa veio para o Brasil aos 25 anos de idade já casada com Jerônimo Augusto Barbosa. Ao chegarem em São Paulo vieram a se estabelecer na região do Cambuci, onde adquiriram uma boa quantidade de terras e também estabeleceram atividades comerciais. Apesar do que indica o mapa abaixo, de 1937, esta área atualmente está no bairro da Aclimação.

fig.1 – mapa do ano de 1937

Empreendedora, Albina Barbosa foi quem desenvolveu este região que inicialmente era apenas mata virgem. Abriu lotes, construiu casas e foi quem construiu a capela Santa Cruz dos Inocentes, que por muito tempo foi a única igreja daquela região.

A principal rua de sua propriedade, onde ela mesmo morava e erguera a capela, foi batizada com seu nome em sua homenagem uma vez que Albina Barbosa era também muito conhecida por suas atividades religiosas e ações de caridade.

A CAPELA DE SANTA CRUZ DOS INOCENTES:

foto 1 – divulgação

Erguida em propriedade de Albina Barbosa e a seu pedido, a Capela de Santa Cruz dos Inocentes ficava bem na esquina da Rua Albina Barbosa com a Rua Senador Carlos Teixeira de Carvalho.

Apesar da arquitetura simples e de sua área diminuta, de apenas 74 m², a capela foi por anos e anos de suma importância para os féis católicos da região, ao menos até 1942, quando uma capela provisória foi construída no lugar onde em 1960 seria inaugurada a Paróquia Nossa Senhora do Carmo da Aclimação, cujas obras se iniciaram na década de 1940.

Foto 2 – Nesta vemos Dona Albina Barbosa diante da capela que mandou construir

Com o início do funcionamento da nova igreja da região as atividades da velha capela foram diminuindo, especialmente após o falecimento de Dona Albina Barbosa. Em certo momento os objetos religiosos presentes na capela foram todos transferidos para a Igreja Nossa Senhora da Glória, onde se encontram até os dias hoje.

Foto 3 – Onde outrora existiu a capela até hoje nada foi construído

Porém na década de 1970 por alguma razão decidem colocar a velha capela abaixo. Se o templo estava em mau estado de conservação e corria o risco de ruir ou se havia interesse em se construir algo não sabemos, pois nada foi encontrado a respeito.

O que se sabe é que até hoje, décadas após a demolição da capela que Dona Albina Barbosa construiu com tanta devoção, nada foi construído no lugar permanecendo o terreno vazio com algumas bananeiras lá plantadas.

A propriedade até hoje pertence ao espólio de Albina e Jerônimo e na rua ainda existem algumas casas que foram do casal, bem como a que eles residiram, ao lado da capela desaparecida.

Agradecimentos: Erikson Salomoni, pela sugestão de pauta e envio das fotos 1 e 3.

Bibliografia consultada:

* O Estado de S.Paulo – Edição de 22/08/1959 pp 6
* Diário da Noite – Edição 06635 de 17/07/1946 pp 12
* Dicionário de Ruas – Link visitado em 02/07/2020
* Paróquia N. Sra do Carmo da Aclimação – Link visitado em 02/07/2020
* Cadastro Imobiliário de São Paulo para os anos 1937 e 1938 pp 268

artigo atualizado em 03/07/2020 – inserido mapa do Cambuci (fig 1), corrigida a informação a respeito da igreja que recebeu os objetos da antiga capela e inserção de fotografia (foto 3).

Sobre o autor

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, é presidente do Instituto São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comentarios

  • Marcelo 02/07/2020 at 18:35

    Como se vê, a indiferença em relação à preservação já vinha de longa data.

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    • Douglas Nascimento 02/07/2020 at 18:36

      absurdo demolirem pra nada!

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  • Alessandra Martire 02/07/2020 at 21:35

    É uma pena. Nasci, cresci e moro na Rua Miguel Teles Júnior, antiga Rua Apiaí, que não tinha saída para a Senador Carlos Teixeira de Carvalho.

    A uns 3 anos, o morador da casa ao lado, abriu uma entrada no muro, e fechou a da frente, devido às invasões.

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  • Rosangela Aparecida Telles de Castro 02/07/2020 at 21:48

    É realmente muito triste o tamanho descaso pelo o que deveria ser um patrimônio histórico.
    Vc conhece a Capela Santa Cruz que fica no alto do bairro de Santana? Ela foi construída em 1892 foi a primeira igreja católica da região e é muito bonita, o difícil é encontrar fotos antigas dela para se fazer um memorial digno pra ela.

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    • Douglas Nascimento 03/07/2020 at 09:56

      A capela de Santana foi um verdadeiro crime contra o patrimônio histórico. Fosse o Brasil um país sério alguém teria sido preso…
      Em breve publicaremos o histórico dela, estamos “catando” imagens aqui e ali pois são raras.

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  • Carla Silva 03/07/2020 at 11:38

    Pôxa, que triste isso, Douglas…
    Segue uma sugestão de pauta: uma matéria sobre a antiga Gruta de Santo Antônio de Catigeró, na rua Tauandê, 20 – Vila Formosa. Demoliram a gruta original para a construção de um condomínio de sobrados e mudaram a igreja para o outro lado da rua. Na gruta original tinha uma bica onde fiéis pegavam água considerada milagrosa. Segue link de uma matéria que achei agora:
    http://almanaque.folha.uol.com.br/cotidiano_01jan1968.htm
    Abraços!

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    • Douglas Nascimento 03/07/2020 at 12:49

      que história! temos várias capelas para inserir aqui, a gruta eu também vou pesquisar se encontro imagens… ótima dica

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  • Carla Silva 03/07/2020 at 11:43

    Só corrigindo um comentário meu sobre a Gruta de Sto Antônio de Catigeró, de um lado da rua já era a igreja maior e do outro lado a gruta com uma igrejinha menor. Eu me lembro bem, pois frequentava com minha mãe quando pequena. Demoliram a gruta (igreja menor) e transferiram os objetos todos para a igreja maior do outro lado da rua. Uma pena, pois a maioria dos fiéis só frequentava a gruta.

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  • Carla Battistella 04/07/2020 at 10:02

    Multi interests ante,Douglas.Que bom que a SP Antiga pesquisa e conta para nos essas historians Tao interests antes que Europe nem imaginava

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  • Luiz Henrique 06/07/2020 at 18:27

    É interessante notar que, na primeira foto da capela, ela parece se realmente pequena.
    Na foto em que D. Albina aparece em frente à mesma, ela parece ser tão grande! Ou D. Albina era de baixa estatura, parecendo pequena diante da construção. Tenho até a impressão de que não são as mesmas.

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    • Douglas Nascimento 07/07/2020 at 08:57

      Ela era uma capela pequena, mas relativamente alta.

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  • PAULO HENRIQUE NETTO DE ALCANTARA 11/08/2020 at 21:59

    Nossa… Eu moro na Aclimação e frequentemente vou até a avícola que funciona ainda nessa rua logo abaixo desse espaço – ou subo até a UBS… Sempre fiquei curioso desse muro ‘vazio’… Uma pena que a incúria deixe assim as coisas – mas também reflete a perda da devoção local…

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