Os pedestres e motoristas que transitam diariamente pela Avenida Paulista, muitas vezes, não se dão conta que lá existem mistérios, além de poucos casarões sobreviventes.

Em 1971, na administração do prefeito Figueiredo Ferraz, existia um plano bastante audacioso para transformar a Av. Paulista em um local muito diferente do que temos hoje.

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O plano, que consistia em dar seguimento a um projeto intitulado “Rodovias urbanas” – criando vias expressas dentro da cidade – começou a ser executado em maio de 1972, mas foi logo descartado no início da administração do prefeito Miguel Colasuonno, prefeito de São Paulo entre 1973 e 1975.

Originalmente existiriam duas vias de superfície para o trânsito local, abaixo uma via expressa e mais abaixo desta passaria a linha do Metrô. Esta via expressa teria a função de facilitar a ligação entre a zona oeste da cidade com a Avenida Água Funda e, consequentemente, com as rodovias que levam ao litoral.

Nas ilustrações o plano de Figueiredo Ferraz (clique para ampliar) (Crédito PMSP)

Acessoriamente, o existente viaduto da Rua São Carlos do Pinhal (Viaduto Prof. Bernardino Tranchesi), fazia parte deste grande plano assim como, no sentido contrário, um viaduto – nunca construído – na Alameda Santos que,  passando sobre a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, também faria parte do que se chamava na época de “vias auxiliares”.

E hoje? O que podemos ver deste plano tão audacioso?

Foto 1 – Na imagem o trecho subterrâneo da Paulista que saiu do papel

O motorista que vem da Avenida Dr. Arnaldo em direção ao Paraíso e vice-versa, passa por um túnel que representa o que seria a Paulista em toda a sua extensão. As vias superiores laterais para o trânsito local com a via expressa abaixo. Infelizmente a via expressa acabou se transformando em um túnel que cumpre, parcialmente, o que era proposto.

Mais instigante é o posicionamento de alguns edifícios que, à primeira vista, não chamam a atenção, mas que tiveram seus projetos adequados à “nova Paulista”.

Foto 2 – Nesta foto de 2002 o prédio do Banco Real, no destaque como ele é hoje abrigando a CNN Brasil (2020) – clique para ampliar

Vamos nos fixar no lado ímpar da avenida, nos quarteirões entre a Rua Pamplona e o MASP, onde temos um primeiro edifício (Edifício Asahi, antigo Banco de Tóquio), já com sua torre mais afastada da avenida, assim como seu vizinho, Edifício Eluma, totalmente recuado, seguido pelo antigo Banco Real (atual CNN Brasil, foto anterior) onde a torre é bem afastada.

Foto 3 – Nesta fotografia dos anos 1980 o recuo dos prédios é bem evidente

Esta linha formada por construções mais baixas é complementada pelo recuo do prédio (Rua Itapeva) que fica atrás do antigo Banco Mercantil de São Paulo (Avenida Paulista, 1450 esquina com Rua Itapeva). E qual a razão disso?

Embaixo desta linha de construções mais baixas passaria um túnel (foto acima) que ligaria a via expressa da “nova Paulista” com a Avenida 9 de Julho, o que obrigou com que os projetos dos prédios se adequassem.

Foto 4 – A linha vermelha traça o caminho que seria percorrido pelo túnel.

Muito interessante notar que no quarto subsolo do prédio da Rua Itapeva do antigo Banco Mercantil existe uma parede em curva, demonstrando claramente que por trás passaria o tal túnel (foto 5). Convido os leitores a apreciarem estas características da nossa mais famosa avenida que, sem dúvida, tem muitos outros mistérios a serem descobertos. Bom passeio.

Foto 5 – A área dentro do quadrado mostra o local do futuro prédio do Banco Mercantil, ainda nas fase das fundações

Bibliografia consultada:

O Estado de S.Paulo – edição de 01/10/1970 pp 1
O Estado de S.Paulo – edição de 27/05/1972 pp 14
O Estado de S.Paulo – edição de 16/01/1982 pp 1

Crédito das imagens utilizadas neste artigo:

Foto 1, 3 e 5 – Revista Manchete (várias edições anos 1970 e 1980)
Foto 2 – Douglas Nascimento / Instituto São Paulo Antiga
Foto 4 – Google Street View

Sobre o autor

Educador financeiro - www.vigplan.com.br , palestrante, pesquisador independente e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP

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Comentarios

  • Fábio Holl de Oliveira 20/08/2020 at 14:14

    Muito interessante. Nunca tinha ouvido falar deste tunel subterraneo. Se tivesse sido concluído, hoje seria de grande valia para a cidade. Parabéns pelo artigo, José Vignoli.

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    • Celia 21/08/2020 at 02:28

      Existe túnel que não seja subterrâneo?

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      • José Vignoli 24/08/2020 at 10:31

        Um túnel aerodinâmico, por exemplo.

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  • Antonio Carlos R. Serrano 20/08/2020 at 14:30

    O leito atual da Paulista ficaria dedicado somente para pedestres. Uma pena o projeto não ter sido concluído…

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    • Douglas Nascimento 20/08/2020 at 15:46

      Não, o leito continuaria para trânsito local e pedestres nas calçadas.

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  • Carla Silva 20/08/2020 at 16:05

    Muito interessante!

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  • Roberto Martins da Silva 20/08/2020 at 16:58

    Eu me lembro do prefeito Figueiredo Ferraz e deste projeto, seria uma maravilha se tivesse concluído todas estás obras e que nesta época os prefeitos não podia ter dois mandatos, de lá para cá tirando o Jânio Quadros que ainda fez alguma coisa……o resto todos nós sabemos.

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  • Vania 20/08/2020 at 18:47

    Muito interessante! gostei muito de ter conhecimento disso. Mas confesso que gostei ainda mais de que nada disso tenha saído do papel. Cada vez mais o carro, o meio de transporte individual, deixará de ser prioritário, especialmente nas regiões centrais da cidade.

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  • Maria Inês Mendonça 20/08/2020 at 20:33

    Muito interessante essa matéria. O que faltou para que fosse feito esse túnel também é uma curiosidade, mas pode-se deduzir. Falta de dinheiro, vontade ou interesse político, problemas com projeto…

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    • José Vignoli 24/08/2020 at 10:35

      Provavelmente um pouco de todas as suas observações além de uma visão diferente sobre os problemas e soluções para a cidade entre os prefeitos. Infelizmente este tipo de situação é comum e prejudica a continuidade de vários projetos e obras.

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  • Tony Costa 20/08/2020 at 21:12

    Nunca achei o Miguel Colasuonno muito inspirador como prefeito,  porém, fazendo justica a minha ignorancia no assunto, desconheço quais seriam as razões no cancelamento de um projeto deste. Talvez tivessem lá boas razões.

    A Paulista dá vazão a tráfego veicular local, e tráfego transiente, o qual se origina das Avenidas, 23 de Maio, Vergueiro, Domingos de Morais, e precisa cortar a Paulista, seja para chegar a Angélica, Rua da Consolação, Av. Arnaldo, ou Reboucas.  As Alamedas nao sao adequadas para dar vazao a este tráfego. Este projeto poderia ser interessante.  

    Assim mesmo, as administrações subsequentes nunca tiraram o projeto da gaveta, daí, pressupoe-se que, de fato, projeto de fato ficaria caro demais em relação ao benefício que viesse a trazer.

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  • JOSE ROBERTO CORTOPASSI DE OLIVEIRA 21/08/2020 at 08:13

    Me lembro desse projeto na época, porém não fazia idéia de como ele era. Imaginava que seria uma via acima e outra embaixo porém iguais. Penso que se toda a extensão da Paulista fosse como é o trecho hoje da Consolação até a Haddock Libo, ficaria muito interessante e bonito.

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  • Thiago 21/08/2020 at 11:58

    Qual software você usa para deixar uma imagem (Por exemplo, Como será a Palista do futuro) tão branca?

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  • Jeronimo Pantas 21/08/2020 at 13:53

    Eles ainda existem , embaixo do banco real citado na matéria tem um túnel que sai no prédio ao lado parecendo o metrô .Quando vi lembrei dos jogos de vídeo game é surreal .

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    • José Vignoli 24/08/2020 at 10:37

      Existem galerias e espaços vazios por baixo das calçadas da Paulista. Aí está mais um assunto para ser explorado…

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  • Maria Lopes 22/08/2020 at 17:54

    3muito

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  • Ana Lia 23/08/2020 at 12:09

    Muito interessante… não sei porque foi abandonado… não morava mais em SP ! vou ler com atenção , vale a pena .

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  • Helen Sylvia 25/08/2020 at 15:22

    Sempre vejo falar que o caminho para o litoral saia do centro velho…isso muito antigamente, gostaria de saber mais.

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  • Paulo Clístenes Vieira da Silva 27/08/2020 at 13:02

    Parece ser um projeto audacioso, porém não foi implementado, foi projetado para solucionar e melhorar os fluxos diversos, pelo menos teoricamente.

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  • Ivo 28/08/2020 at 17:51

    Em 25 de abril de 1988 o jornalista Boris Casoy escreveu na Folha de S.Paulo, página A12 (pode ser consultado no arquivo digital do jornal) sobre o projeto do metrô e da avenida subterrânea na Paulista.

    Segundo Casoy, em 1972 o prefeito Figueiredo Ferraz e o secretário Ión de Freitas projetaram a Nova Paulista e a linha do metrô. Esse projeto desagradou a vários proprietários de prédios na Paulista. Um deles (chamado de Dr. Falcão) tentou parar o projeto e, utilizando-se de contatos que envolveram até o presidente Médici, conseguiu uma reunião com Ferraz e Freitas.

    O Dr. Falcão, acompanhado por um alto engenheiro da Light (membros da Sociedade de Amigos da Cidade), apresentou um projeto alternativo onde o metrô não passaria sob a Paulista mas sim sob a alameda Santos e rua Cubatão. Ou então do outro lado, sob a São Carlos do Pinhal. Dr. Falcão alegou que a obra do metrô e a da Nova Paulista iriam desfigurar a avenida (as obras do Metrô naquela época eram do tipo Vala a Céu Aberto e rasgaram a cidade causando efeitos negativos durante sua execução), prejudicar os proprietários dos prédios e das várias garagens subterrâneas privadas sob a avenida, etc. O prefeito Figueiredo Ferraz, se irritou, não aceitou os argumentos e disse que a obra da Nova Paulista+metrô iria sair conforme o planejado. E ainda, segundo Ferraz, a prefeitura demoliria essas garagens (que eram clandestinas) e multaria os donos delas.

    Segundo Casoy, esse e outro atrito com o líder da Arena Salvador Julianelli (que tentou atrasar o início das obras da Linha Norte-Sul sob o Centro Velho para depois das eleições de 1972 para não perder votos dos descontentes com as obras para o MDB) causaram a queda de Figueiredo Ferraz (e não aquela frase sobre “São Paulo parar de crescer”) e o abandono do projeto da Nova Paulista pelo novo prefeito Miguel Colasuonno.

    Por via das dúvidas, o projeto do metrô sob a Avenida Paulista acabou congelado durante 8 anos, sendo retomado apenas em 1980 (com o Metrô já sob gestão estadual), com suas obras iniciadas só em 1987. Ainda assim, muitas garagens subterrâneas acabaram fechadas em um lento processo até o final da gestão Jânio Quadros.

    Segundo Casoy, graças a essa briga de proprietários de prédios e garagens na Paulista com o prefeito Ferraz que esse projeto da Nova Paulista foi abandonado e a construção o metrô sob a avenida foi atrasada em quinze anos.

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