São Paulo poderia ser uma cidade bem interessante se seus construtores – e demolidores – tivessem um mínimo de censo sobre a preservação arquitetônica da cidade.

Mas quem vive por aqui sabe que isso é uma ilusão que provavelmente jamais irá acontecer. Basta ver o que aconteceu com esta pequena, mas bela, residência antiga:

clique na foto para ampliar (Crédito: Google Street View)

Localizada no número 20 da Alameda Rio Claro, no bairro da Bela Vista, essa casa era a última residência com a fachada direto para a rua (sem quintal ou jardim) desta via.

Construída em 1939¹ a casa ocupava uma estreita área bem no início da alameda, nas proximidades do antigo Hospital Matarazzo, que foi vendido para ser transformado em um novo complexo hoteleiro que combina o patrimônio histórico ao moderno.

Mas faltou a sensibilidade de preservar esta casa, nem que fosse pelo menos sua fachada. Pois com ela morreu uma visão da Alameda Rio Claro que não existe mais, hoje tomada por edifícios residenciais e comerciais.

O imóvel foi demolido junto com outro pequeno prédio vizinho de dois andares, todos adquiridos pela empresa BM Empreendimentos e Participações SPE S/A, o mesmo grupo que adquiriu e o complexo do antigo hospital vizinho que se encontra em obras conforme mencionado acima.

Foto: Google Street View

A residência que no passado pertenceu a A.Ferri, nos últimos anos era um pequeno restaurante. Até seu fim a casa permaneceu fiel a sua arquitetura original, com poucas alterações em seu interior para adequar-se a receber um comércio.

Demolido em 2015 o imóvel fica quase em frente à Praça Pamplona, complexo onde souberam aliar o casarão histórico a um moderno edifício.

Manter a casa ali não alteraria praticamente nada os planos do complexo Cidade Matarazzo, mas teria muito significado para a memória da região. Os órgãos de preservação de São Paulo – como sempre – estão sempre dormindo em berço esplêndido enquanto a cidade de outrora deixa de existir.

Nosso agradecimento a Valéria Alonso por indicar o local aqui para o site.

Nota:
1 – De acordo com os dados disponíveis na planilha de IPTU da Prefeitura do Município de São Paulo, ano base 2020.

Sobre o autor

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, é presidente do Instituto São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comentarios

  • Marcelo 16/04/2020 at 17:17

    Será que posso dizer “mais um caso de onde a delicadeza será substituída pela brutalidade”?

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  • Jose Carlos Mota 16/04/2020 at 17:19

    Lamentável , mais um imóvel que desaparece. Ninguém faz nada para parar isso!!!!!

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  • Luiz Henrique 16/04/2020 at 17:28

    Acho que a construção da residência é anterior a 1939, pelos adornos da fachada.
    Quanto aos “órgãos de preservação de São Paulo”…não sei o que fazem ou para que servem. Ou, no caso, sei bem o que DEIXAM DE FAZER!

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    • Douglas Nascimento 16/04/2020 at 17:38

      por isso a nota explica que o ano é de acordo com o que informa o cadastro de IPTU da prefeitura, infelizmente nem sempre certo.

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  • Paulo Clístenes Vieira da Silva 16/04/2020 at 18:15

    Mais uma vez, o patrimônio da cidade vai desaparecendo, e com ele sua história!

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  • FRANCISCO JOSE PENTEADO DOS SANTOS 16/04/2020 at 18:20

    Lastimável como isso me entristece

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  • Tony Costa 16/04/2020 at 21:57

    Bom, neste caso, ha uma contrapartida.  Aproveitou-se o Hospital Matarazzo o que já é um passo positivo em termos de preservação. E ha um casarão na Pamplona que foi preservado, porém dentro de um amplo terreno, o que não impediu a incorporação.

      A rua  e a parte alta da Bela Vista em si já sao dominadas por torres residenciais.  A casa em questão, virou o proverbial cordeiro de sacrifício.  

    No entanto, o Condephaat e o Conpresp precisam avançar em certas áreas imediatas dentro do Bairro da Bela Vista e do Morro dos Ingleses, para estabelecer limites, e criar áreas envoltórias. Os incorporadores que vão construir suas monstruosidades em Galpões nas Marginais.A maioria dos edifícios erguidos hoje sao insípidos, não trazem harmonia estética ou acrescentam ao que já existe.

    Portanto o Condephaat e Conpresp deveriam esticar a cobertura para áreas envoltórias sob a guisa de aproveitamento econômico de áreas tombadas.  Áreas com “curbside appeal” ou apelo de meio fio atraem moradores, visitantes, turistas, e acrescentam divisas no comércio e hospitalidade  por $ local.
    Alguns exemplos de áreas e imóveis tombados que lucram formidavelmente com o seu aspecto arquitetônico…https://pt.wikipedia.org/wiki/Newport_(Rhode_Island) )  Principalmente na orla Martitima, nas ruas paralelas e contiguas a Thames St.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/New_Haven  Na Regiao da Universidade de Yale.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Providence   Tanto a parte do Centro Financeiro ( Downcity, agora com o novo Campus da Johnson and Wales e da URI ) a qual foi revitalizada nas décadas de 90 e começo dos anos 2000, como o East Side onde ficam a Brown University, Providence College, Rhode Island School of Design .  No Centro baixo, é possível atualmente passear de Gôndola Italiana no Rio. O Bairro Italiano ( e o que nao e Italiano em Rhode Island ), no Federal Hill também atrativo para visitantes caminhando.   E até o buraco em Olney Ville Sq, com as fábricas de 100 anos, virou um centro de inovação.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Worcester_(Massachusetts). Eis uma cidade decadente que está renascendo, com um centro de perigoso para caminhável.

    O Baixo da Bela Vista está próximo ao melhor centro clinico da cidade, e o setor de saúde e o novo motor econômico do Século XXI.  Nao precisamos de outro pombal pós modernista na região.

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  • Diogo Vasconcelos Pessoa 17/04/2020 at 07:39

    É um crime, é quase o mesmo absurdo como foi com o museu da Independência no Rio.

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  • andre santana 17/04/2020 at 14:34

    Mais uma atrocidade contra o patrimônio histórico,não era de se esperar outra coisa!!!Como fizeram em 1976 com o Palácio Monroe no Rio de Janeiro na época do governo Ernesto Geisel.Ele foi sede do Senado Federal e do EMFA…Seu pai nasceu em Saint Louis em 1903-04 e foi trazido para o Brasil em 1905-06,projeto do engenheiro militar Souza Aguiar.No lugar dele hoje na Avenida Rio Branco existe um chafariz ridículo na praça Mahatma Gandhi,infelizmente mais um golpe na história!!!

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