Vivemos em uma cidade que infelizmente cuidar de seus monumentos não é uma prioridade. Entra prefeito, sai prefeito e nossos monumentos estão sempre numa situação muito aquém do que gostaríamos de ver. Já reportamos no passado alguns dos monumentos mais abandonados da cidade (clique aqui), e mesmo a reportagem tendo sido escrita há quase três anos, continua atual.

E aqui voltamos novamente a falar deste descaso, falando desta vez do abandono vergonhoso das torres da Ponte das Bandeiras. Mas antes, vamos trazer um breve histórico dela:

Crédito: Divulgação

Mais importante elo de ligação entre o centro e a região de Carandiru, Santana e Cantareira, a Ponte das Bandeiras foi inaugurada pelo prefeito Prestes Maia em 25 de janeiro de 1942.

A então chamada “Ponte Grande” era considerada de suma importância para o rápido desenvolvimento dos bairros localizados na porção norte da cidade. Tanto que rapidamente os anúncios imobiliários passaram a usar a ponte como uma boa razão para se mudar para bairros até então de difícil acesso a partir do centro, como Jardim São Paulo e Tucuruvi, como mostra a ilustração abaixo.

Crédito: Divulgação

A ponte possui 120 metros de comprimento e 33 metros de largura e atualmente possui sete faixas de rodagem, sendo duas exclusivas para ônibus, uma em cada sentido. Além disso a Ponte das Bandeiras possui aquilo que é sua característica mais marcante: duas torres de 25 metros de altura dotadas de mirantes.

E são estas torres símbolos vergonhosos do total descaso do poder público com esta ponte que é patrimônio histórico da cidade. Observem na foto abaixo a torre que fica no sentido bairro:

Torres estão em situação lamentável (clique na foto para ampliar).

Torres estão em situação lamentável (clique na foto para ampliar).

O que poderia ser um importante ponto turístico da cidade e um belo cartão postal é de um abandono de doer na alma. As duas torres são o retrato de como nossas autoridades tratam os importantes monumentos paulistanos. Ambas estão imundas, com a pintura em uma situação deplorável, com infiltrações pelas paredes, vários pedaços da fachada que já caíram e muitos vidros quebrados. Isso sem contar o costumeiro cheiro de urina que ao se misturar o com cheiro do Rio Tietê torna o ar do local quase irrespirável.

Recentemente, inclusive, a Prefeitura de São Paulo, resolveu fazer uma “maquiagem” com uma iluminação noturna que dá um destaque para os traços arquitetônicos de algumas pontes sobre o Rio Tietê. De longe, o efeito é até satisfatório, mas basta aproximar-se a pé das torres da Ponte das Bandeiras à noite para ver o quanto a iluminação destaca o estado lamentável delas.

Observe as fotos que mostram a torre sentido centro sob efeito da iluminação noturna, note na segunda foto que a fachada está até “estufada”:

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Faça-se justiça, a Ponte das Bandeiras não está abandonada de agora. Seu abandono mais crítico vem desde a gestão do prefeito Gilberto Kassab, que após as exaustivas obras de duplicação da Marginal Tietê feitas pelos governo estadual sequer teve a ideia de ao menos pintar as torres. Todavia, por outro lado, já se passaram dois anos da atual gestão de Fernando Haddad e isso é tempo mais que suficiente para o atual mandatário notar este descaso e mandar reparar.

A Ponte das Bandeiras é um importante patrimônio histórico paulistano  e não pode ficar nesta situação.

Sobre o autor

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, é presidente do Instituto São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comentarios

  • luis a. faccin de arruda miranda 22/10/2014 at 12:26

    Querido Douglas Nascimento, saudações!

    Rapaz, é maravilhoso e notabilíssimo este seu trabalho de pesquisa, registros e divulgação do estado de imóveis e monumentos repletos de valor artístico, sociológico e histórico. Além de um homem com nobres e elevados ideais, você redige muito bem os seus textos e consegue passar toda a idéia e toda a emoção do documentário. Parabéns, figura. A Cidade de S. Paulo reconhece a sua empreitada. Abração. Shalom Aleihem! Paz Profunda!

    L. Lafam.

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  • Roberto H Araujo 22/10/2014 at 12:50

    Oi, Douglas, e qual é a história das TORRES? 🙂

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  • (SR)Darcy Gersosimo 22/10/2014 at 15:02

    Ví, certa vez, numa exposição no Prédio dos Correios e Telégrafos vários projetos para postes, do ex-Prefeito Prestes Maia. Eram algo comparável com algumas pontes de París. Inclusive a das Bandeiras, que foi muito simplificada. Outras não saíram do papel.

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  • Pattoli 22/10/2014 at 15:52

    Douglas, e para “melhorar” ainda mais a situação, as torres viraram “casas”. http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/07/ponte-na-marginal-tiete-esconde-casa-com-tres-quartos-e-tres-banheiros.html

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  • Nilton D’Addio 22/10/2014 at 16:41

    Douglas
    Fico muito feliz que você tenha abordado esse tema. Moro na ZN e passo constantemente na Ponte das Bandeiras e à noite, a visão é deprimente.
    Será que a sua recente iluminação é para evidenciar o seu real estado de abandono?
    Nasci ali ao lado dela, na rua Porto Seguro, dois anos depois de sua inauguração, quando ainda era um ponto de visitação dos paulistanos, que sempre buscaram as margens do rio, especialmente nos finais de semana, para o esporte, lazer e convívio familiar.
    Hoje, olhando o estado dessas torres e iluminadas por uma incompreensível luz lilás (por quê essa cor?), sinto profunda tristeza e descrença em nossos dirigentes..

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  • Vinicius Campoi 22/10/2014 at 16:56

    Douglas, vc sabe se a ponte é tombada?

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  • Luiz Henrique 22/10/2014 at 18:17

    A cidade de São Paulo tem prefeito? Não sabia…Agora é sério,eu não sei se este meu comentário será digno de resposta,ou sequer lido,pois já fiz vários,inclusive dando alertas para futuras demolições que de fato acabaram por acontecer,e jamais fui sequer respondido com um “valeu,Luiz”…mas deixa pra lá.Voltando ao artigo em questão,é aquela coisa: se a prefeitura começa a dar maior atenção a monumentos,praças,edifícios,etc, num instantinho aparecem os “do contra qualquer coisa” de plantão,reclamando o porquê dessas autoridades fazerem isso ou aquilo com tais pontos turísticos,sendo que a cidade não tem saneamento básico pra todo mundo,falta água,luz em vários bairros,falta moradia decente(por que não se acabam com as favelas ?),por que não aparelham as polícias,por que não reformam escolas e postos de saúde,por que,por que,por que e mais por quês…
    As pessoas são tão ignorantes,que aprovaram a tal Lei Cidade Limpa que o Kassab aprovou um tempo atrás e bate no peito,com todo o orgulho.Ora, cidade limpa pra mim, são praças bem cuidadas,tanto do centro da cidade,quanto da periferia.Cidade limpa pra mim são ruas,calçadas e sarjetas varridas todos os dias,inclusive com disposição de lixeiras.Cidade limpa pra mim é conscientizar e depois multar,se for o caso, comerciantes que não providenciarem a limpeza da frente de seu próprio estabelecimento.Passei,um dia desses pelo bairro do Brás,em frente à estação de trem e foi uma cena grotesca,tal a quantidade de lixo espalhado pelas ruas adjacentes.Lixo nas ruas,em plena via pública!!!! Comentei com minha mulher: cadê a Lei Cidade Limpa? Uma lei que,para quem não sabe,proibiu a utilização de propagandas luminosas pela cidade(!!!!!!!!!!!!) É simplesmente patético,inacreditável !!!!!!!
    A Ponte das Bandeiras está abandonada? Sim, como grande parte da cidade.Mas estão aí as ciclovias,isso é o que importa…

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    • Nilton D’Addio 22/10/2014 at 20:53

      Valeu Luiz. Valeu mesmo!!!

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  • nazarethlmperes 22/10/2014 at 20:43

    Mais uma vez, que pena!Como tudo o mais nessa cidade maltratada, a Ponte das /bandeiras vai também se deteriorando!
    Salvem São Paulo!

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  • José André Dos Santos 13/12/2014 at 21:51

    Nascí alí na Praça Bento Camargo de Barros a 36 anos atras,ví e viví tudo,conheço o pessoal que mora na Torre.Se ela ainda continua de pé,e graças as pessoas que moram nela.Nos anoa 80/90 a pracinha fervia com seus cortiços,comercios,tendo ao lado o Clube de Regatas Tietê,o Atlética,CMTC,Espéria e outros.Hoje quando passo por lá,tenho ótimas lembranças do lugar e de amigos,mas ao mesmo tempo,me dá muita tristeza em ver a porcaria que se tornou aquela praça,maloqueiros,drogados e afins…

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    • José André Dos Santos 13/12/2014 at 22:07

      Em tempo,alí na Torre,mora o Rogério Baroni com sua mãe a mais de 30 anos,na outra margem do rio,morou uma figura folclórica,conhecida e respeitada na Ponte Pequena,NEGUINHO DA PONTE (in memórian).

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  • danielpardo2015 03/03/2015 at 23:19

    Hoje a Ponte das Bandeiras é símbolo de foco de enchente (embaixo dela) dizem que para encher basta alguém cuspir de cima dela.

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  • F 21/04/2015 at 16:51

    Brasileiro é foda. Não valoriza o seu patrimônio cultural. Sempre querem demolir e fazer “algo novo” porque é “melhor”. Depois baba nas cidades européias. Imagine se Roma decidisse no passado demolir o Coliseu porque quer construir algo “novo”. Ou se algumas antigas e belas pontes de Roma, Londres ou Paris fossem destruídas para dar lugar a uma ponte nova e moderna. A cidade pederia algo de seu encanto, que está em parte em construções antigas que simbolizam algo do passado. Se você vai apagando sua história, você fica sem identidade. Não que a ponte vá ser demolida hoje, mas é possível que daqui a uns 40 anos venham com esse papo, caso ela não seja tombada pelo patrimônio histórico. É essa desvalorização do patrimônio cultural que faz São Paulo ser tão feia. Isso mais a falta de planejamento urbano.
    Posso parecer chato, mas muita coisa da arquitetura atual é muito fria e industrial, falta calor humano na arquitetura dos dias atuais. Falta também preocupação com a estética. Me desculpem os brutalistas mas blocos de cimento não são inspiradores. Nem pontes estaiadas enormes e genéricas que afastam e não valorizam o pedestre, mesmo sendo novas.
    Falando nisso, São Paulo parece árida para o pedestre. Veja as cidades turísticas européias: todas têm uma grande proximidade com o pedestre. São Paulo continua se expandindo de maneira errada.

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  • MoabeRED 10/05/2015 at 19:42

    To querendo subir nas torres pra fotografar a marginal a noite. Com quem eu falo? Seria com essas famílias que moram lá? O acesso se dá pelas casas delas?

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