Ao passarmos pela Rua Florêncio de Abreu, 407, na altura do viaduto que cruza a Rua Carlos de Sousa Nazaré, podemos ver ao lado direito um suntuoso prédio que tem muita história para contar.

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Conhecido como “Palacete Barros”, foi construído para ser a sede da empresa Casa Barros & Cia. (1892) que, até então, funcionava na Rua Barão de Duprat, 03, atuando no mercado de importação e exportação de tecidos, além de artigos de armarinho.

O português Manoel de Barros Loureiro (1874-1947) era o principal acionista da empresa, bem como o proprietário de uma das mais importantes fábricas de louça do país, a “Adelinas” em São Caetano do Sul1, o que o colocava em uma posição de destaque dentre as fortunas da época.

A seta indica a figura de Manoel de Barros Loureiro

O prédio, na época número 71-73 da Florêncio, foi encomendado ao escritório F. P. Ramos de Azevedo & Cia.

O destaque técnico fica por conta de suas fundações, extremamente reforçadas, por estar o prédio localizado muito próximo das áreas úmidas do vale do Anhangabaú, o que obrigou a construtora a fazer uso de mais de 500 estacas de guarantã2, algumas com até nove metros de comprimento.

A inauguração se deu no dia 1º. de março de 1919 apresentando, então, um prédio com uma interessante configuração por conta do desnível entre as ruas. No subsolo e térreo funcionavam os depósitos e expedição (Ruas Augusto Severo e Carlos de Sousa Nazaré) e pela Rua Florêncio de Abreu o armazém geral de fazendas, contabilidade, casa forte, mostruários e no primeiro andar, fazendas finas e armarinho.

O palacete em fotografia de 1919 (clique na foto para ampliar)

O prédio não serviria somente para abrigar a empresa, pois outras empresas lá funcionavam (p. ex. Casa Henrichs Brasil Ltda.) e sua configuração previa o funcionamento de um hotel, uma vez que no segundo e terceiro andares haviam sido construídos quartos, cozinha, copa e um grande salão de refeições, tudo arejado e ensolarado através de um pátio interno.

O armazém da Casa Barros & Cia. (clique na foto para ampliar)

De fato, em setembro de 1921 acabava de ser instalado o Hotel e Pensão Palácio, lembrando que, na época, era normal morar em pensões, algo parecido com os flats de hoje, mas com as refeições sendo servidas em um lugar comum.

O local era considerado “chic”, como assim qualificou um jornal da época; existem inclusive diversos relatos de festas de aniversário, jantares, bailes e saraus dançantes ocorridos no “vasto salão de jantar”, como citado na época.

Recorte extraído do jornal Diário Nacional em 1927

A fortuna de Manoel continuava firme e forte, inclusive com a sua importante participação na formação do Banco Paulista do Comércio3 (1942-1961), cuja sede na Rua Boa Vista, 314 foi projetada pelo arquiteto Rino Levi.

Porém, as coisas começam a se complicar quando a mulher de Manoel, Adelina (Gomes Poyares) Barros Loureiro (1887-1979) – que recebeu uma homenagem, ao ter seu nome colocado na fábrica de louças – pede o desquite de Manoel em 1947.

O caso foi muito comentado na época, pois a separação foi bastante traumática; as partes publicavam nos jornais as petições e fases do processo, tornando públicos todos os problemas familiares que estavam sendo tratados na justiça. Uma verdadeira “lavação de roupa suja” em público.

Diante desta situação, Manoel, neste mesmo ano, promove a liquidação da Barros & Cia.. Quanto à fábrica de louças “Adelinas”, seu patrimônio foi arrendado por uma nova empresa criada por ele denominada Manufatura Brasileira de Louças4.

Em setembro de 1947 Manoel vem a falecer, deixando imensa fortuna que continuou a ser disputada por muitos anos, como nos mostram os jornais da época.

O Palacete Barros sobreviveu.

GALERIA DE IMAGENS (clique na foto para ampliar):

Palacete Barros – Acervo: Instituto São Paulo Antiga

NOTAS:

1 – Em 1941 a “Adelinas” tinha 1.500 empregados. Em 1945 sua produção alcançava 50 milhões de unidades, que eram comercializadas, inclusive, no exterior

2 – As estacas de madeira são troncos de árvore cravados com bate-estacas de pequenas dimensões e martelos leves. Para sua utilização, é necessário que elas fiquem totalmente abaixo d’água; o nível de água não pode variar ao longo de sua vida útil. Atualmente vem sendo utilizada para a execução de obras provisórias, principalmente em pontes e obras marítimas. Os tipos de madeira mais utilizados são eucalipto, aroeira, ipê e guarantã.

3 – O Banco Paulista do Comércio teve que ser absorvido pelo Banco do Estado de São Paulo em 1961, para se evitar a “contaminação” de seus problemas por todo o sistema bancário da época. Seu presidente era Manoel de Barros Loureiro Filho (1909-1999)

4 – A fábrica de louças encerrou suas atividades em 1952 por conta das brigas da família, deixando 1.300 trabalhadores sem emprego

Ilustração do palacete produzida em 1924

Bibliografia:

* A Vida Moderna – Edição 0355 – Março de 1919 – pp 20 e 21
* Pelo Mundo – Coleção J. Vignoli
* Porcelana Brasil – Guia de marcas – Carvalho, Fábio. All Print Editora, SP 2008
* Acervo do jornal O Estado de S.Paulo (diversas edições)
* A Gazeta (diversas edições)

Agradecimento: Fábio Carvalho (RJ)

Sobre o autor

Educador financeiro - www.vigplan.com.br , palestrante, pesquisador independente e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP

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Comentarios

  • Regina Igel 16/04/2020 at 15:13

    História que pouca gente conhece – esta da família Barros, dos seus sucessos e fracassos. Uma pena que uma vigorosa família que tanto colaborou para a economia do país, se tivesse esfacelado assim, por conta de um divórcio. Familiares que estavam insatisfeitos com a divisão de bens foram os maiores responsáveis pelo desemprego de quase duas mil pessoas quando a fábrica de louças sucumbiu à ganância de poucos…. História muito bem relatada. Obrigada, sr. José Vignoli!

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  • Jose Carlos Mota 16/04/2020 at 15:33

    Gostei, mais uma historia desta fantástica cidade.

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  • Marcelo 16/04/2020 at 15:58

    Parabéns pelo artigo! É uma preciosa contribuição ao site.

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  • Tony Costa 16/04/2020 at 16:33

    Atualmente em excelente estado de conservacao, e um edifício de condomínio, portanto não pertence mais a apenas um dono.  

    A Florêncio de Abreu, em toda sua integridade deveria ser tombada, antes que as construtoras cheguem lá com suas máquinas.  Tombamento envoltório de edifícios e das quadras envoltorias.

    Por mais que os proprietários insistam que perderiam com o tombamento, uma ação de tombamento poderá valorizar o bairro, e por extensão, seus imóveis.

    O logradouro e caminhável, conecta o Mosteiro de São Bento ao Mercado Municipal e a Estação da Luz e a Pinacoteca do Estado,   por acaso  pontos turísticos de relevância, o que pode transformar o bairro em um local desejável ,valorizando os pontos de Varejo, e as sobrelojas. 

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  • Drey K. Dias 16/04/2020 at 17:19

    Adoraria ver fotos internas, do pátio. Como era e como ficou hoje. Como imóvel é utilizado nos dias atuais?

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  • Bolívar Pinta Júnior 16/04/2020 at 20:06

    …/… excelente registro !

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  • Diego 17/04/2020 at 09:36

    Sensacional

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  • Otavio Dutra de Toledo 17/04/2020 at 12:42

    bonito e meritório trabalho de pesquisa.

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