Quem hoje ouve a Rádio Cultura faz uma associação direta à Fundação Padre Anchieta ou mesmo ao Governo do Estado de São Paulo, entretanto suas origens são bem mais antigas e são relacionados a um produto brasileiro histórico e bastante popular: o Biotônico Fontoura.

Figura 1 – Publicidade do Biotônico Fontoura (1949) / Agência Standard

A rádio surgiu no início dos anos 1930 como uma brincadeira dos irmãos Olavo e Dirceu Fontoura, filhos de Cândido Fontoura dono do conhecidíssimo Biotônico. As primeiras transmissões ocorreram na garagem de uma casa na Rua Padre João Manuel e inicialmente era apenas para aprendizado e entretenimento deles e de seus amigos. O primeiro nome da estação foi “A Voz do Juqueri” em alusão ao então Asilo de Alienados do Juqueri.

As irradiações de início clandestinas trouxeram algumas dores de cabeça aos Fontoura, que não desistiram e logo perceberam que sua brincadeira tinha enorme potencial e assim surgiria oficialmente a PRE-4 Rádio Cultura agora renomeada de “A Voz do Espaço”.

E a rádio que deu seus primeiros passos em uma garagem crescia com investimentos da família Fontoura, com suas novas instalações – agora oficiais – no bairro paulistano do Jabaquara onde estavam localizadas sua torre de transmissão, escritórios e estúdios de irradiação.

A inauguração da sede no Jabaquara, em 1936, foi uma grande festa e contou com diversas personalidades do meio artístico e cultural, destacando-se Procópio Ferreira, que apresentou no local a peça “Deus lhe pague”. Também estava presente Nhô Totico que desde 1934 já estava no elenco da Rádio Cultura com o programa “Vila da Arrelia”.

A aceitação da rádio pelos ouvintes de São Paulo foi imediata e a audiência animava a Família Fontoura que logo percebeu um grande inconveniente de sua sede no Jabaquara: era longe.

A distância da região central de São Paulo, onde tudo acontecia, não impedia dos auditórios encherem e nem mesmo eram obstáculo para as famosas peneiras – eventos que selecionavam novos talentos para o rádio – mas incomodavam os proprietários que sentiam que se estivessem estabelecidos em uma região de maior destaque teriam tudo para se consagram de vez.

Surgia assim em 1937 o audacioso projeto do futuro “Palácio do Rádio”:

A Rádio Sociedade Cultura – nome oficial da empresa de 1936 até 1969 – e os Fontoura não mediram esforços para construir um edifício que transformaria de vez o rádio paulistano. Um prédio suntuoso na Avenida São João a mais elegante da cidade e apelidada por muitos de “Broadway Paulistana” que abrigaria as novas instalações de irradiação, escritórios e um auditório.

Sendo assim, em 28 de março de 1939, apenas 3 anos depois da emissora abrir as portas oficialmente, nascia o magnífico Palácio do Rádio:

Foto 1 – Fachada do Palácio do Rádio (Crédito: James McLaughlin / Acervo do Instituto São Paulo Antiga)

Construído em estilo art déco e fortemente inspirado nos famosos teatros de rádios dos Estados Unidos, o Palácio do Rádio era naquele momento a mais ousada e moderna instalação de uma emissora no Brasil. O edifício foi pensado totalmente para oferecer a melhor estrutura para seus espectadores, funcionários e, é claro, para as estrelas do rádio.

O auditório era moderno e constava com uma sofisticada iluminação indireta, poltronas grandes e confortáveis, sistema de ar condicionado, palco projetado para espetáculos radiofônicos de qualquer porte, sistema de som do mais moderno à disposição naquela época tanto para a plateia quanto para os estúdios. A discoteca da emissora contava com mais de 5000 discos no momento de sua inauguração.

De acordo com e edição de 28 de março de 1939 do extinto jornal Correio Paulistano a Rádio Cultura passava a contar naquele momento com o maior e mais caro “cast” radiofônico até então conseguido no Brasil.

Foto 2 – Vista do auditório e do palco do Palácio do Rádio

Realmente a inauguração mostrou que a Rádio Cultura não inaugurava suas suntuosas instalações para brincadeira. Para a estreia foram convidados estrelas do rádio e da música de vários cantos do Brasil e do mundo, como o conjunto cubano “Habana” (foto abaixo), a atriz e cantora argentina Lita Landi, o pianista brasileiro Francisco Gorga e o tenor húngaro Nicolau Szedo da Ópera Real da Hungria entre outros, todos eles dirigidos por Nicolau Tuma então locutor chefe da emissora.

Foto 3 – O conjunto cubano Habana, uma das atrações internacionais da estreia

Desde sua inauguração o Palácio do Rádio passou a contar com um rigoroso sistema de entrada, uma de suas principais características, que só permitia a entrada do público em suas instalações mediante a retirada de ingresso, o que trazia maior segurança e organização aos espetáculos que lá eram exibidos ao público presente e irradiado aos ouvintes.

DE DONO EM DONO ATÉ A FUNDAÇÃO PADRE ANCHIETA:

Com o passar dos anos mais rádios surgiram no dial e a concorrência entre as emissoras passou a ficar cada vez mais acirrada. A Família Fontoura também já não conseguia dedicar-se como gostaria à rádio, já que sua empresa principal, do biotônico, requeria muito atenção dos filhos de Cândido Fontoura.

Assim sendo em 1940 a Rádio Cultura acabou vendida para Paulo Machado de Carvalho, proprietário da Rádio Record, passando a formar as Emissoras Unidas. Posteriormente, em 1953, foi novamente vendida, desta vez para as Organizações Victor Costa.

Aos poucos a rádio passou a enfrentar algumas dificuldades e deixou de contar com elenco próprio o que reduziu consideravelmente o público que frequentava o Palácio do Rádio. Mesmo assim o aniversário de 22 anos da emissora foi bastante comemorado e contou com transmissão pela extinta TV Paulista, contudo já não tinha o mesmo brilho de antes.

Com o auditório recebendo um público bem abaixo do esperado e as atenções começando a se voltar aos programas televisivos, em destaque desde o surgimento da TV no Brasil em 1950, começou-se a pensar em novos usos para o ainda elegante Palácio do Rádio.

Em 1953 surge a possibilidade de Cacilda Becker assumir o auditório para transformá-lo em um teatro, as conversas realmente ocorrem mas por alguma razão que é desconhecida a célebre atriz brasileira desiste da idéia no final daquele ano. É o começo do fim do que outrora e tão brevemente foi o grande endereço do rádio em São Paulo.

Desta forma a rádio vai mantendo um certo nível de qualidade, mas sem o brilho de antes, até que finalmente é vendida ao Grupo Diário Associados em 1959. A rádio ficaria sob o controle deste conglomerado até ser transferida, junto com TV Cultura, para o governo paulista através da Fundação Padre Anchieta no final da década de 1960.

O FIM DO PALÁCIO DO RÁDIO:

Com tantas mudanças em curto tempo e o declínio da era do rádio em função da televisão, o suntuoso edifício da Avenida São João 1285 não encontrava um destino apropriado para continuar existindo.

Ele inicia os anos 1970 em franca decadência até que posteriormente – em 1975 – é demolido. Alguns anos mais tarde seus vizinhos do lado esquerdo (que podem ser vistos na foto 1) também são demolidos. Daquela foto restou apenas – ainda que descaracterizado – o prédio da ponta esquerda que funcional o Hotel San Michel.

Foto 4 – Terreno do antigo Palácio do Rádio ficou vazio por muitos anos

Seus outros vizinhos da foto deram lugar ainda nos anos 1970 a um edifício comercial que hoje é destinado à Polícia Civil (DPPC). Já o terreno que outrora abrigou o Palácio do Rádio ficou vazio até 2013, até que no lugar surgiu um novo edifício.

O nome do empreendimento bem que poderia ser “Palácio do Rádio” em homenagem ao que outrora existiu ali, mas como estamos no Brasil a escolha foi bem fora de sintonia com a cidade: Uptown Arouche.

Na foto atual o Uptown Arouche construído no espaço do antigo edifício

E assim desapareceu sem deixar rastros um pedaço importante não só da história de São Paulo, mas também da memória do rádio brasileiro.


*1 – Informação enviada por Ayrton Camargo

Agradecimento: Sue Delaney pela doação da imagem do Palácio do Rádio (foto 1) que é a única conhecida deste extinto edifício, que foi tirada nos anos 1940 pelo seu pai, James McLaughlin, que naquela época trabalhava no Brasil.

DADOS TÉCNICOS:
Nome: Palácio do Rádio
Proprietário: Rádio Sociedade Cultura (Família Fontoura)
Endereço: Avenida São João, 1285
Arquiteto: Elisiário Bahiana
Período de construção: 1937 a 1939
Inauguração: 28/03/1939
Ano da demolição: 1975
O que existe no terreno: Edifício Uptown Arouche

Bibliografia consultada:

* Correio Paulistano – Edição 24587 – sem data pp 13
* Correio Paulistano – Edição 25477 – 28/03/1939 pp 4
* Correio Paulistano – Edição 25479 – 30/03/1939 pp 9
* Correio Paulistano – Edição 28546 – 26/06/1949 pp 1, 7
* Correio Paulistano – Edição 30144 – 15/07/1954 pp 15
* O Estado de S.Paulo – Edição de 29/04/1939 pp 4
* Il Moscone – Edição 0874 pp 2
* Jornal do Brasil – Edição de 10/03/1968
* O Governador – Edição 01082 (1953) pp 10

Sobre o autor

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, é presidente do Instituto São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comentarios

  • dalva maria ferreira 30/07/2020 at 14:55

    Super interessante, Douglas.

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  • Francisco Moura DA Silva Filho 30/07/2020 at 15:29

    É NOSSA SÃO PAULO, ONDE NADA É ETERNO.

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  • Carla Medeiros 30/07/2020 at 15:46

    Que incrível! Que história incrível! Parabéns, Douglas!

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  • Marcelo Albuquerque Magalhães 30/07/2020 at 15:53

    Primeiro parágrafo onde lê-se “houve” verbo haver é o certo “ouve’ de ouvir. Favor corrigir
    Ótimo texto!

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    • Douglas Nascimento 30/07/2020 at 16:04

      Esse é o problema de se escrever pelo tablet, o autocorretor às vezes atrapalha. Obrigado pelo alerta.

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  • Nayara Triguero 30/07/2020 at 15:55

    Uma pena ser demolida essa joia da nossa história e colocar no lugar outro com nome tão brega mesmo!

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  • Reinaldo policarpo 30/07/2020 at 17:42

    Tque linda Historia ! Orgulho de ser Paulista

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  • Charles Sousa 30/07/2020 at 18:02

    Parabéns Douglas,você sempre trazendo histórias da antiga São Paulo mas infelizmente nada dura aqui prá sempre e nem é lembrado.

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  • Nilton Divino D’Addio 30/07/2020 at 18:31

    Desconhecia a existência do Palácio do Rádio. Uma bela história dessa emissora que faz parte constante do meu dia. Infelizmente, agora que passou a ser porta-voz de um partido, mais desligo do que ligo, porque a programação está cada vez mais podre. Pobre e podre.

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    • Emerson de Faria 30/07/2020 at 21:41

      De fato, a Cultura nos últimos anos tem se esforçado para se tornar comercial demais, e com isso tem perdido a sua identidade, que é a qualidade ímpar da programação.

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  • Valentino 30/07/2020 at 21:11

    Parabéns Douglas por nos trazer/resgatar essa história. Infelizmente o prédio foi destruído como muitos outros. Definitivamente somos um país sem memória!

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  • André 31/07/2020 at 08:48

    Que pena! Entristece demolir nossa História, como fizeram com o Palacete Santa Helena para construir a estação Sé do Metrô. Lastimável!

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  • Andrea 31/07/2020 at 13:04

    Douglas, você sabe onde exatamente no Jabaquara ficava a sede da PRE-4? E que nome horrososo esse “Uptown Arouche”…

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  • Antonio Costa 01/08/2020 at 23:34

    Eu me lembro do Jingle do Biotônico Fontoura.  Ainda na década de 70, os comerciais de rádio ou TV tocavam o jingle.

    O Palacio do Radio, boa ideia em manter o desenho original arquivado.  Os prédios contemporâneos sao tão sem graça, ou inspiração, literalmente não passam de caixas de sapato empilhadas. E a massificação da moradia. A fachada de um prédio inspirando-se no desenho frontal do Palácio do Rádio, mesmo ainda hoje, ficaria deveras interessante.  

    Ninguém quer arriscar, basicamente todos seguem um mesmo padrão burocrático, quando se projeta edifícios verticais, sejam comerciais ou residenciais.  

    E os nomes dados aos edifícios , os nossos “empreendedores imobiliários e seus súditos no departamento de marketing mal sabem falar o português o quanto dizer do inglês. Quando se lê postagem de Americanos comentando os nomes de prédios atuais em São Paulo, chega a ser motivo de chacota. As justaposições de nomes sao tão esdrúxulas que realmente merecem ser alvo de chacota. 

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  • Antonio C. Gonçales 02/08/2020 at 08:41

    Parabéns pela matéria. Como todos os outros artigos do site, muito informativo e interessante. Um pedaço da história paulistana que eu desconhecia. Obrigado.

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  • Antonio Roberto Mões Mões 03/08/2020 at 15:28

    Na decada de 50 para 60, eu cheguei à frequentar, aos sábados à tarde, um programa de3 calouros nesse endereço. Janicio, que participava do seriado Vigilante Rodoviario, na tv Record, era meu companheiro de andanças na cidade.,

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