Sempre que pensamos no transporte cotidiano de São Paulo, lembramos dos ônibus. Onipresente na cidade, estes veículos estão presentes em São Paulo desde o início do século 20, seja como as saudosas jardineiras (falamos sobre elas aqui) ou como os ônibus como conhecemos nos dias de hoje.

Os ônibus conviveram e sucederam os saudosos bondes e com a pequena quilometragem de metrô que existe em São Paulo, estarão presentes no cenário da capital por muitos e muitos anos.

Mas hoje falaremos de um tipo muito específico de ônibus, que neste 22 de abril atinge a marca de 70 anos de serviços prestados: o trólebus.

A capital paulista sempre conviveu com problemas nos serviços de transportes coletivos. A década de 1940 foi um período no qual estes problemas atingiram níveis alto demais para o que poderia ser considerado “aceitável“.

A capital paulista crescia em população em números grandiosos e a cidade se expandia cada vez mais para suas extremidades, especialmente as zonas leste e sul, em locais onde nem sempre os bondes chegavam.

E os bondes eram o principal alvo das reclamações dos passageiros, por serem na grande maioria velhos, de manutenção precária e com restrição de circulação, devido aos trilhos. O que não acontecia diretamente com os ônibus movidos a diesel.

Foi assim que, na segunda metade da década de 1940, a Prefeitura de São Paulo passou a pensar na hipótese de trazer à capital paulista os chamados “trolleybus“, que nada mais eram que ônibus muitos similares aos movidos por combustíveis fósseis só que com motorização elétrica, alimentado por via aérea (fios).

Os ônibus elétricos eram bastante populares no exterior especialmente no leste europeu, em cidades como Moscou, Kiev e Praga.

A prefeitura decidiu importar diversos ônibus dos Estados Unidos¹ em 1947 para iniciar o novo sistema, mas atrasos na implementação da malha elétrica aérea só permitiram que o serviço fosse inaugurado em 1949.

Multidão acompanha a inauguração dos serviço de ônibus elétricos em São Paulo

Foi no dia 22 de abril daquele ano que a cidade passou a contar com os trólebus circulando pelas ruas. A inauguração foi um evento que atraiu uma grande quantidade de pessoas interessadas em ver de perto a grande novidade.

Partindo da Praça João Mendes a primeira linha de trólebus saia com destino ao bairro da Aclimação, especificamente até a Praça General Polidoro. Posteriormente a linha seria ampliada, à medida que se concluíam os serviços de fiação, até a Rua Machado de Assis. Em um terceiro momento esta linha seria novamente ampliada, deixando o ponto final do centro e chegando até a Rua Cardoso de Almeida, nas Perdizes.

Esta linha, hoje com o prefixo 408-A, está em funcionamento até os dias de hoje.

Nota de jornal sobre a inauguração do serviço

Com o passar dos anos os ônibus elétricos foram ganhando mais linhas para atender a população e rivalizando (e ganhando) a concorrência com os velhos bondes paulistanos. Em 1968 com o fim do serviço de bondes na capital paulista, algumas linhas do antigo transporte foram substituídas por trólebus.

Os trólebus seguem em atividade até os dias atuais e, curiosamente, justo nos tempos modernos que há grande preocupação com o meio ambiente em menor quantidade do que no passado.

Eles quase deixaram de existir no início dos anos 2000 quando a então Prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, expressou desejo de acabar com os trólebus, alegando que eram ineficientes e causavam transtornos no trânsito. Ela quase conseguiu o fim deles, deixando a cidade com uma frota muito reduzida que é bem aquém do que seria o ideal.

Antiga linha de trólebus que atendia o Tucuruvi em 1985 (clique para ampliar)

Nota:

1 – Os primeiros ônibus elétricos eram da marca General Electric (vide a ilustração que abre o artigo) e foram importados usados da cidade estadunidense de Denver, no Colorado. Em um segundo momento a nova leva de veículos foram produzidas no Brasil encomendados junto à empresa Grassi/Villares. Posteriormente a própria CMTC passou a produzir suas carrocerias nas oficinas de suas garagens no Brás e Vila Carrão.

Bibliografia consultada:

  • Correio Paulistano – Edição 28.541 – 23/04/1949 pp 1
  • Jornal de Notícias – 23/04/1941 – pp 5
  • Estudo comparativo entre os serviços de trólebus de São Paulo e da República Tcheca – link visitado em 22/04/2019

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comments

  • Rodrigo Alves de Paula 22/04/2019 at 19:55

    Só um pequeno adendo: os trólebus pioneiros de São Paulo eram zero-quilômetro e foram fabricados pela BUT da Inglaterra e pela Pullman dos Estados Unidos (com material elétrico GE); os ônibus ex-Denver foram fabricados em 1947 e chegaram à Sampa após a desativação do sistema local na cidade do Colorado (em 10 de Junho de 1955). Nesse meio-período, em 1952, vieram ainda os trólebus alemães da Henschel, que rodaram por pouco tempo na cidade.

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    • Douglas Nascimento 23/04/2019 at 08:19

      Excelente Rodrigo, vamos inserir estas informações.

      Reply
      • Rodrigo Alves de Paula 25/04/2019 at 20:37

        OPa, valeu, guri!

        Reply
  • Leonardo 22/04/2019 at 23:37

    Muito boa a matéria. O tempo acaba por apagar de nossas memórias detalhes esses que podemos rever aqui.

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  • Marcelo Sanches 23/04/2019 at 07:47

    Marta Suplício era do PT quando prefeita de SP.
    Tá explicada a sua falta de visão urbanista .
    Em tempo: Se a intenção era o transporte coletivo movido a diesel, vale lembrar de que a empresa que detém o monopólio do diesel no Brasil é a Petrobrás.
    Marta —> PT —> Petrobrás.
    Precisa dizer mais alguma coisa?

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    • Douglas Nascimento 23/04/2019 at 08:19

      Acho que ai há uma certa teoria da conspiração exagerada.
      Visão urbanista é algo que inexiste em 90% dos políticos brasileiros, isso não tem a ver com partido.
      O caso da Marta é, na verdade, uma demonstração clara da mentalidade do político brasileiro: burrice. Brasília está atualmente repleta deles, talvez como nunca antes.

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      • Caio Bezarias 24/04/2019 at 23:37

        Obrigado, Douglas, por contrapor o comentário acima com sanidade e racionalidade. Eu iria além: o comentário do outro internauta não tem um certo exagero, é exagero irracional puro!

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  • Jose Carlos 23/04/2019 at 11:30

    Excelente! e pensar que andei num desses pelos idos de 1960; inclusive a garagem era na av. Celso Garcia

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  • Vinicius Bartholdi 23/04/2019 at 16:09

    Algumas linhas atuais poderiam ser trólebus, como a 4310 que percorre toda a Radial Leste até Itaquera, as linhas do Expresso Tiradentes como Terminal Sacomã, Terminal Vila Prudente e Terminal São Mateus, a linha Terminal Parque D. Pedro II – Terminal Penha, que já percorre um trecho todo eletrificado, entre outras.

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  • Dalton Guimaraes 26/04/2019 at 11:27

    Morei na Aclimação desde criança e lembro da inauguração dos troleibus, que utilizei por muitos anos. Muito boa esta sua matéria, que inclusive me trouxe ótimas recordações. Faltou um pouco mais de detalhes técnicos, tipo fabricantes, como funcionavam, as linhas elétricas etc. Me parece que houve um tempo em que foram fabricados aqui.

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