Não é de hoje que morrer na capital paulista é um transtorno para quem irá sepultar seus entes queridos. Hoje, não é raro vermos toda sorte de “caixinhas” sendo cobradas aos familiares dos falecidos no momento de maior dor, como na súbita necessidade de alargar a sepultura para passar o caixão fora de medida, ou no assédio de pedreiros que atuam livremente nas necrópoles da cidade. No passado a coisa era um pouco diferente, mas não menos complicada.

Nota em jornal 1897

Nota em jornal 1897

Em 1828, o Imperador dom Pedro I promulgou a Lei Régia de 1 de Outubro de 1828, que proibia sepultamentos nas igrejas – regra até então – e que deixava os templos religiosos com um cheio insuportável de cadáveres em decomposição.

Esta lei prejudicou um pouco a arrecadação das paróquias, que recebiam doações dos fiéis para terem seus corpos enterrados nas igrejas. Quanto maior o donativo, mais próximo do altar a pessoa era sepultada.

Com o surgimento dos cemitérios em São Paulo, como o de Santo Amaro e da Consolação, surgiu também a necessidade de novos velórios e serviços, transporte de mortos etc. Todos esses trabalhos passaram a ser prestados pela Santa Casa de Misericórdia (Santa Casa de Saúde de São Paulo) que teve o monopólio acertado inicialmente até dezembro de 1899 (vide recorte acima).

Cemitério da Consolação no final do século 19

Cemitério da Consolação no final do século 19

No final da década de 1890, com a eminente finalização do monopólio da Santa Casa nos funerais, algumas empresas privadas já começaram a surgir para explorar este futuro nicho de negócio que, tudo indicava, seria aberto a todos os interessados mediante regulamentação (no passado alguns piratas atuavam e eram punidos pela prefeitura).

Foi ai que surgiu uma das maiores empresas paulistanas do ramo de aluguel de carroças e carruagens para sepultamentos e ornamentos de sepulturas: A Casa Rodovalho.

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Primeira grande loja do ramo a se estabelecer legalmente em São Paulo, a Casa Rodovalho era localizada no antigo número 1 da rua São Bento, nas imediações do Largo São Francisco, em um suntuoso prédio de dois andares de esquina, que já não existe mais.

Acervo São Paulo Antiga

Rodovalho Jr

A empresa, que era oficialmente conhecida como Rodovalho Jr, Horta & Cia, era comandada pelo seu principal proprietário, Antonio Proost Rodovalho Júnior.

Conhecido mais como Rodovalho Jr, ele era filho do famoso Coronel Rodovalho, ilustre paulistano e um dos fundadores da atual Associação Comercial de São Paulo.

Apesar de dedicar-se bastante as atividades funerárias em conjunto com a Santa Casa, que a eles terceirizava os serviços, a Casa Rodovalho era bem conhecida em São Paulo por também prestar serviços de táxi, com sua frota própria e time de motoristas (à época chaffeurs) bem treinados, além de serviços de construção de carroças e carruagens, que eram feitas em outra unidades da empresa, na rua da Mooca.

SERVIÇOS POLÊMICOS:

A polêmica foi algo que marcou o serviço funerário paulistano desde o final do século 19 até, pelo menos, o ano de 1918, quando a gripe espanhola levou a prefeitura a intervir pra valer no serviço.

Por isso, a extensão do monopólio da Santa Casa nos sepultamentos, inicialmente prolongada até 1911, causava indignação a quem queria entrar no ramo funerário, já que ela só terceirizava seus serviços para a Casa Rodovalho. Vejam este anúncio anônimo publicado em 1900 no jornal Correio Paulistano:

Divulgação

Isso evidentemente não foi um problema para a Casa Rodovalho, que além de seus serviços de carruagem e táxi, lucrava com sua generosa parceria com a Santa Casa, onde cuidava especificamente dos paramentos, importação de coroas de flores e também do traslado dos corpos, de velórios para os cemitérios da cidade.

Se você se deparasse com um cortejo fúnebre em São Paulo nos primeiros anos do século 20, a imagem seria assim:

Cortejo fúnebre no Bom Retiro em 1916 (clique na foto para ampliar)

Cortejo fúnebre no Bom Retiro em 1916 (clique na foto para ampliar)

A CASA RODOVALHO:

Especializada em transporte funerário e também no serviço de táxis em São Paulo, a Casa Rodovalho era uma empresa bastante próspera. Tinha suas próprias oficinas no bairro da Mooca, onde produzia suas carroças e carruagens funerárias para uso próprio e venda para outras cidades, além de serviço de manutenção e mecânica, com seu maquinário movido a vapor.

Oficina da Casa Rodovalho, na Mooca (clique para ampliar)

Oficina da Casa Rodovalho, na Mooca (clique para ampliar)

Frota de carros fúnebres da Casa Rodovalho (clique para ampliar)

Frota de carros fúnebres da Casa Rodovalho (clique para ampliar)

Na sede da empresa, na rua São Bento, ficavam os escritórios administrativos e também a loja, no térreo, onde eram vendidos desde ornamentos a coroa de flores nacionais e importadas.

A foto abaixo, dá uma dimensão de como era o interior da Casa Rodovalho:

clique na foto para ampliar

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Coube a Casa Rodovalho, em 1918, um recorde na cidade de São Paulo que creio até hoje não ter sido alcançado. Neste ano, auge da gripe espanhola na capital, a empresa chegou a organizar 600 funerais na capital em um único dia.

O caos causado pela gripe espanhola naquele ano foi tão grande, que levou a prefeitura a baixar um decreto tabelando os preços dos funerais, proibindo seguir o féretro à pé e restringindo os funerais apenas a familiares (veja o decreto no final do artigo).

FROTAS DE TÁXI E CARRUAGENS:

Embora a Casa Rodovalho não tenha sido a primeiríssima no serviço de táxis em São Paulo, a empresa foi uma das pioneiras por aqui a ter uma frota de veículos a disposição de clientes.

Garagem da Casa Rodovalho (clique para ampliar)

Garagem da Casa Rodovalho (clique para ampliar)

Era aproximadamente duas dezenas de automóveis e outras duas dezenas de carruagens, que atendiam a população paulistana, especialmente a elite e políticos. Era até possível chamar um táxi por telefone, discando “3”, que era o número que atendia tanto a Casa Rodovalho, como sua garagem, que ficava na rua Amaral Gurgel.

Os carros a disposição eram das mais variadas marcas, entre elas Reo, Renault, Fiat e Hupmobile.

Carruagens da Casa Rodovalho (clique para ampliar)

Carruagens da Casa Rodovalho (clique para ampliar)

A Casa Rodovalho permaneceria no serviço funerário ainda por algumas décadas, bem como também no serviço de táxis.

ANEXO:

Abaixo, o decreto de 1918 que tabelava os sepultamentos e implementava mudanças provisórias nos sepultamentos da cidade de São Paulo, por ordem do então prefeito Washington Luís:

Correio Paulistano

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Luis Peleja 03/06/2015 at 17:32

    Douglas, you never cease to amaze me. Excellent work as always. Congratulations.

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  • Silvia Calçada 03/06/2015 at 19:02

    rapaz, quanto dinheiro! maravilhosa matéria.

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  • João Guimarães filho 03/06/2015 at 20:30

    Muito bacana essa matéria,infelizmente esse tipo de documentário e esquecido nas escolas….por isso esta cheio de jumento nesse Brasil.

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  • Gilberto Prado Bodas 03/06/2015 at 22:10

    Matéria muito interessante!!

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  • luis a. f. de a. miranda 04/06/2015 at 13:47

    Mais uma excelente matéria que resgata e perpetua a memória desta Cidade incrível. Era tudo muito lindo, limpo e organizado. Parabéns por mais este golaço de placa, querido Douglas. Reitero a sugestão de você reunir todos os artigos e publicar um livro. Com certeza, patrocinadores não vão faltar. Parabéns. Abração. Shalom Aleihem! Paz Profunda!

    L. Lafam.

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  • antonio stricagnolo 04/06/2015 at 13:53

    A corrupção sempre presente.

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  • GILSON 04/06/2015 at 23:45

    Parabéns Douglas, Esta família Proost é bem extensa.. Há um bairro em Campinas chamado Proost de Souza, há um ramo também em Santos, de dona Afonsina Proost de Souza (com nome de rua em Santos) e o qual se cruza com o ramo Porchat de Assis..sim, de Fabio Porchat (humorista). Sepulturas no cemiterio do Paquetá em Santos.. O cemitério do Paquetá está “on line”, e é possível acessar os dados dos sepultados, bem como data de nascimento e falecimento. Veja Proost, que aparece ramos desta família.. abs.A família Porchat, de Santos também é muito antiga, com uma praça denominada Reinaldo Porchat, em frente ao parque Ibirabuera e de outro Porchat, nos Jardins..

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    • Nilton D’Addio 07/06/2015 at 07:40

      E a Ilha Porchat tem algo a ver com isso?

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  • GILSON 04/06/2015 at 23:59

    Corrigindo nome dos descendentes, Robertina Proost de Souza. Há mais 20 descendentes Proost sepultados no Paquetá, segundo o SigSantosweb (Cemitério Paquetá digital).. Abs

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  • Roberto Lopes Rodovalho 05/06/2015 at 08:09

    Excelente trabalho e agradeço em nome dos Rodovalhos.

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    • Luciano Rodovalho 18/06/2018 at 15:10

      Boa tarde Roberto, também sou Rodovalho. Minha família é de Salvador, mas meu avô João Leite Rodovalho veio de Recife. Gostaria de saber se temos relação parentesca, busco “Rodovalhos”.

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  • Simone Valerio 05/06/2015 at 14:55

    Excelente! Também acho sensacional a ideia de reunir tudo e publicar um livro. A memória paulistana merece!

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  • Nilton D’Addio 07/06/2015 at 07:42

    Excelente matéria. O registro em livro é uma necessidade.

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  • Hanny 10/06/2015 at 14:00

    Legal saber um pouco mais da história da família de meu marido.
    Gostei muito da matéria.

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  • A drea 10/06/2015 at 23:17

    Êeeee Brasil, a bandalheira por aqui é bem antiga

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  • Guilherme Schiezaro 13/06/2015 at 21:34

    Essas matérias estão cada vez melhores, eu sou um visitante assíduo do site e admiro e respeito a história de Sp, eu moro ao lado da capital …Em Caieiras, cidade que nasceu graças a um Rodovalho, o Antônio Proost Rodovalho !!

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  • danielpardo2015 15/06/2015 at 19:27

    Eu fico imaginando… já que a mesma empresa fazia o serviço de taxi e funerária, se alguma vez eles não se confundiram e mandaram um carro funerário para quem pediu um taxi??, se bem

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    • danielpardo2015 15/06/2015 at 19:34

      Eu fico imaginando… já que a mesma empresa fazia o serviço de taxi e funerária, se alguma vez eles não se confundiram e mandaram um carro funerário para quem pediu um taxi???, se bem que o carro funerário não deixa de ser um taxi (da última viagem, diga-se de passagem MUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!!). Ou senão… será que já aconteceu de um caboclo pedir um taxi e no meio do caminho o taxi sofrer um acidente e o caboclo morrer e a empresa lucrar duas vezes??? 😀 😀 😀 😀

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  • Geraldo Silva 05/07/2015 at 22:25

    Ótima matéria!

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  • Leandro 19/02/2016 at 21:30

    Faltou falar da fazenda etelvina que funcionava na zona leste de SP no bairro cidade Tiradentes onde o coronel mandou fazer uma linha de bonde até o bairro de lageado para transporte de materiais e pessoas nesse lugar hj é o terminal cidade Tiradentes de ônibus e ainda tem a casinha antiga preservada da roça muito legal.

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  • llrodovalho@yahoo.com.br 18/06/2018 at 15:00

    Parabéns, ótimo artigo.

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