Houve um tempo em que morar na rua João Teodoro, na região central de São Paulo, parecia um privilégio. Era nas proximidades desta via que estavam boa parte das principais atividades da cidade, como o Liceu de Artes e Ofícios e o Mercado Municipal (estão ambos por lá ainda), além de uma série de outros bons motivos, como a proximidade ao Hospital da Força Pública, a Faculdade de Engenharia e, finalmente, próximo de duas importantes ferrovias (São Paulo Railway e Tramway da Cantareira).

Rua João Teodoro em 1924 - O mapa mostra o local exato das casas deste artigo

Rua João Teodoro em 1924 – O mapa mostra o local exato das casas deste artigo

Quase todas as casas antigas desta região, construídas entre o final do século 19 e os primeiros anos do século 20, já foram demolidas em virtude das inúmeras mudanças viárias que já ocorreram por ali, como alargamento das ruas e as obras da então nova estação Tamanduateí (da Cantareira em 1918, hoje já demolida). Mesmo assim, existem duas raras sobreviventes que abordaremos aqui.

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Localizadas nos número 638 e 640 da rua João Teodoro, estas residências foram construídas na virada do século 20. Embora não estejam em sua melhor aparência, são raras e legítimas representantes de um período já muito longínquo da história do bairro da Luz e adjacências. Vamos conhecê-las uma a uma.

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

A mais bonita delas é esta, que fica no número 638. Apesar de estar sem data na fachada ela é dos primeiros anos do século 20, pois já aparece em algumas fotografias que mostram a Estação Tamanduateí que ficava bem diante dela.

Apesar dos anos sem um bom restauro da fachada, ela está em condições razoáveis e apenas suas janelas não são originais, trocadas por duas de alumínio. No mais, tudo está ali ainda: portão de ferro, balaustrada e até mesmo o porão. O que mais “enfeia” a vista são os horrorosos fios da própria rua, que não são aterrados.

Abaixo mais duas imagens do imóvel (clique para ampliar):

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Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Sua vizinha, no número 640, é talvez a mais antiga residência de toda esta região. Construída em 1904, está bem menos conservada que a outra mas mesmo assim mantém quase todos os traços originais.

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Sua arquitetura é bem mais simples, tendo menos adornos no frontão e na fachada. Suas janelas originais  também foram substituídas por duas menores e de alumínio. Um dos respiros do porão foi removido e transformado em porta, dando acesso ao lugar já pela calçada (parece ser um quarto). Por fim, foram colocadas telhas cobrindo a entrada lateral da casa.

Nas décadas de 1950 e 1960 este imóvel foi residência de Narcisa Almeida (pesquisa sobre esta pessoa ainda em andamento).

Detalhe da fachada (clique na foto para ampliar).

Detalhe da fachada (clique na foto para ampliar).

Particularmente, temo pelo futuro destas duas residências antigas. Estão em um trecho da rua João Teodoro que o poder público dá pouca ou nenhuma atenção e, por serem lares de pessoas humildes (as duas são pensões), dificilmente terão por parte de seus proprietários condições de serem restauradas (lembre que em ambas as janelas originais de madeira já sucumbiram).

Por isso, defendo a criação de um fundo municipal que seja utilizado para ao menos a manutenção de fachadas de casas antigas de pessoas que não tem condições de fazer por conta própria. Em 2012 percorri a Câmara Municipal para pedir ajuda de dois vereadores para criarem este fundo, mas só recebi chá de cadeira por conta de nossos nobres representantes municipais. Felizmente, para o bem da cidade, nenhum dos dois foi reeleito.

A descaracterização ou demolição destes imóveis representariam uma grande perda pra memória arquitetônica paulistana.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Marco Portela 26/08/2014 at 16:38

    Nos anos 60 eu tinha apenas 7 anos quando mudei para o número 628, ao lado das duas
    casas que aparecem na imagem,que também sofreu modificações em sua fachada, porém
    a saudade é grande quando me lembro que passei quase toda minha infância neste local.

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  • ernani 28/08/2014 at 09:56

    Era muito bom por esses lados da rua João Teodoro e adjacências até os finais de 1960.
    Me lembro dos ônibus Estações 6 que passavam por todas Estações Ferroviárias. Haviam os trens de longo percurso, que saiam da Luz e Julio Prestes. Hoje não existem mais, foram extintos. Com a extinção dos mesmos, o local ficou deserto. Haviam muitos hotéis para aqueles que chegavam em São Paulo, e, o local era movimentado até altas horas da noite. Hoje dá pena! Virou uma região apagada, perigosa e ninguém consegue andar por ali a noite. Na Estação Julio Prestes, criaram a SALA SÃO PAULO. É um salão maravilhoso, mas muitos não gostam de ir até lá devido o local que é mal frequentado e perigoso tanto de dia como a noite.

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  • Doris Pinheiro 29/08/2014 at 10:43

    Me irrita profundamente a mania atual de substituir os magníficos janelões com venezianas de madeira, que deixam entrar muito mais ar e luz por essas ridículas janelas de alumínio. Isso deveria ser proibido por lei.

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    • danielpardo2015 03/03/2015 at 22:29

      Realmente dá dó, mas provavelmente as janelas originais pegaram cupim e os moradores não tiveram condições de fazer as janelas nos moldes das originais.

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  • Emerson de Faria 30/08/2014 at 11:23

    O que mais me admira nas construções antigas, mesmo as mais simples e humildes, são os detalhes arquitetônicos das fachadas, que faziam simples casebres ganharem ares de palacetes. Como gostaria de ter vivido na época em que foram construídas, andar por São Paulo deveria ser fascinante.

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  • Paulo Henrique Netto de Alcântara 05/09/2014 at 09:23

    Eu trabalho perto desse local e já olhei essas casas pensando no seu blog… fico feliz que as tenha ‘resgatado para a memória’… antes que a especulação imobiliária ou um simples acidente as removam definitivamente do legado desta cidade! Acompanho no Cambuci, Aclimação e outros cantos essa erosão sem remorsos que se perpetra contra as bases de uma cidadania autentica, radicada nas ruas, nas pessoas que vivem nelas e que vão sendo substituídas por moradores de condomínios – que desde a porta de seus apartamentos habituam-se a delegar à ‘empresas’ (sob o véu da ‘reunião anual’ estipulada pelo Código Civil ou em assembleias focadas apenas em problemas internos) as bases de sua articulação com a cidade… é bem diferente da percepção urbana de outros países mas igualmente muito comum e talvez mesmo majoritária… Daí o tecido urbano servir mais para a especulação e intervenções que visam os lucros do que uma cidade socialmente equilibrada…

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  • danielpardo2015 03/03/2015 at 22:25

    Essa Rua João Teodoro deve ser a mais deserta de todo o bairro do Brás, pois além de não ter movimento a noite, não deve ter movimento de dia também (a não ser de carros e ônibus que vão para a Estação da Luz), pois ao contrário das outras ruas do bairro, ela não tem grande quantidade de lojas e as poucas que têm, estão no começo da rua.

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  • Marcelo Canoli 30/09/2015 at 11:32

    No número 897 , no final dos anos 60, até o início do ano 2000 , meu pai manteve um comércio de molas e arames , a ARAMOL, e durante esse período vivênciamos o auge e a decadência dessa região, decadência essa que transformou uma região de bons comércios e boa vizinhança , em uma região sem perspectivas à melhora , simplesmente um caos , com tráfico de drogas e furtos , isso só foi aumentado durante o tempo , até que inviabilisou nossa permanência…. que pena que as políticas sociais não exergam que tudo esta no limite, e nada é feito para que tenhamos uma cidade para todos, e que a educação do povo seja revista pelas pessoas …. não podemos viver onde cada vez mais a população se transforma para pior , herança de governantes que não visaram o desenvolvimento social …

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  • Bernadete 03/03/2018 at 20:15

    Caro Douglas, é com lágrimas nos olhos que término de ler e ver as fotos deste post . Estamos em2018 e talvez seu blog nem exista mais, talvez esteja abandonado, como essas duas casas…
    Eu nasci nessa rua, vivi la até meus 10 anos. Frequentei a escola pública que ficava atrás da igreja Sto. Antonio do Pari. Brinquei naquela praça, frequentei o cine Rialto, meu pai sempre me levava, ou uma tia, tbm me levava.
    E fim, me deu muita saudade. Minha casa era a de número 1452. Lembro até do telefone: 921243.
    Minha família era Almeida, assim, espero que vc tenha descoberto quem era Narcisa Almeida.
    Um abraço.
    Bernadete

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