O hoje caótico bairro do Brás com sua frenética movimentação de pessoas, suas ruas de calçadas estreitas e que cujo pouco espaço livre é disputado centímetro por centímetro por pedestres e camelôs, outrora foi um bairro misto de residências de operários e fábricas.

Trabalhadores em grade parte imigrantes, eram em sua maioria italianos, portugueses e espanhóis, que precisavam de alguma forma de diversão, para os momentos em que não estavam trabalhando.

Foi assim que o Brás logo transformou-se em um bairro repleto de cinemas, instalados em avenidas como Rangel Pestana e Celso Garcia além de várias ruas, entre elas Gasômetro e Piratininga.

Outra rua do bairro, a Xavantes, também receberia uma grande sala de cinema e teatro, que logo se destacaria pela sua exuberância arquitetônica e, posteriormente, por uma tragédia que o marcaria por toda a sua existência: Era o Oberdan.

São Paulo Antiga / Acervo Criminal Dr. Milton Bednarski

A fachada do Cine Oberdan em 1940

Inaugurado em 1929 como Theatro Oberdan foi projetado pelo imigrante italiano Augusto Marchesini (anexo 1 – final da página) o mesmo que poucos anos antes já havia se destacado pela construção de outra sala de espetáculos, o Theatro São Pedro.

De propriedade da Sociedade Italiana de Mútuo Socorro Guglielmo Oberdan, o novo espaço inicialmente foi utilizado como um teatro. Boa parte do custeio das obras foi bancada pelo Conde Matarazzo, presidente honorário desta sociedade.

Na ocasião de sua inauguração o ilustre conde foi o grande homenageado, com a inclusão de um busto seu no hall principal do novo espaço (anexo 2 – final da página). Entretanto mesmo tendo sido declarada a existência desta escultura na data da inauguração, não se sabe que destino a peça levou.

Abaixo uma excelente imagem mostrando como era o Oberdan em seus tempos de teatro. É possível observar o quão luxuoso era seu interior. Na imagem do ano de 1929 observa-se palco e frisas com o cenário montado de uma peça.

O primeiro espetáculo exibido no Oberdan foi a peça teatral Madame Butterfly (imagem abaixo), pela Associação Ópera Lírica Nacional. A casa seguiria a trabalhar com teatro até o ano de 1929, quando passaria a exibir filmes.

A estabilidade do Cine Oberdan como um dos cinemas mais badalados do bairro do Brás e arredores seria fortemente abalada em 1938, quando uma tragédia ocorrida durante a exibição do filme “Criminosos do Ar” acarretaria na morte de 31 pessoas, 30 delas crianças.

Para saber mais sobre a tragédia do Cine Oberdan clique aqui.

O FIM DO CINEMA E O IMÓVEL ATUALMENTE:

Apesar do triste incidente, que inclusive foi o estopim de alterações das regras para salas de cinema na capital paulista, o Cine Oberdan ainda continuaria em atividade por muitos e muitos anos, sendo que viria a encerrar suas atividades no final dos anos 1960.

Após o fechamento o prédio do antigo cinema ficou fechado por alguns anos até 1972 quando o espaço foi comprado e adaptado internamente para receber a loja Zelo, que permanece nos mesmos moldes até os dias atuais.

Zelo (antigo Oberdan) em fotografia de 1983

Bastante descaracterizado em seu interior desde que passou a funcionar como uma loja, é possível ainda identificar vários aspectos que nos remetem ao cinema, como a área de palco e tela de projeção (foto 16 da galeria abaixo), as portas laterais que levavam aos banheiros e até as muretas das antigas frisas.

No lado externo felizmente a preservação segue em ótimo estado com poucas alterações, a maioria dela quase imperceptíveis. É possível afirmar que a empresa Zelo mantém o antigo cinema em boas condições.

Galeria de fotos atuais do Cine Oberdan (clique na miniatura para ampliar):

Anexos (clique na imagem para ampliar):

Anexo 1 Fotografia de Augusto Marchesini, autor do projeto do Cine Theatro Oberdan e, anteriormente, da Sala São Pedro na Barra Funda.

Anexo 2 – Recorte do extinto jornal Correio Paulistano sobre a inauguração do então Theatro Oberdan e a menção a um busto do Conde Matarazzo, benfeitor da instituição proprietária do imóvel, que ficaria no entrada do lugar (15/05/1929).

Anexo 3 Recorte do extinto jornal Correio Paulistano anunciando para dentro de um mês a inauguração do Oberdan (14/04/1929)

Anexo 4 Croqui do Cine Theatro Oberdan

Notas:

*1 – Embora os dados mais antigos citem o endereço do Cine Theatro Oberdan como rua Xavantes 7, este trecho da rua teve seu nome alterado na década de 1940 para Rua Ministro Firmino Whitaker.

*2 – O nome Oberdan dado ao cinema do Brás é uma homenagem a Guglielmo Oberdan (*1858 +1882), expoente do irredentismo italiano e que é um dos mártires do movimento pela unificação da Itália.

Dados do Cine e Teatro Oberdan:

  • Inauguração como teatro: 14/05/1929 – peça: Madame Butterfly (Puccini)
  • Inauguração como cinema: 10/11/1929 – filme: Órfão do Circo (The Circus Kid)
  • Capacidade (após a tragédia): 1270 espectadores (distribuídos 210 em frisas e camarotes, 480 plateia, 180 balcões e 400 galerias)
  • Situação como patrimônio histórico: tombado em nível estadual pelo Condephaat

Bibliografia consultada:

  • Correio Paulistano – Edição 23.527 – 14/04/1929 – pp 5
  • Correio Paulistano – Edição 23.552 – 14/05/1929 – pp 8
  • Correio Paulistano – Edição 23.554 – 15/05/1929 – pp 15
  • O Estado de S.Paulo – 14/05/1929 – pp 23

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • A Tragédia do Cine Oberdan – São Paulo Antiga 10/01/2019 at 20:12

    […] Para a história completa do Cine e Teatro Oberdan clique aqui. […]

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  • Nilton Divino D’Addio 10/01/2019 at 20:38

    Parabéns pela riqueza de informações do texto. A respeito do Theatro São Pedro, já foi publicado algo, ou há previsão de fazê-lo?

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  • Paulo Clístenes Vieira da Silva 10/01/2019 at 21:43

    É de admirar a beleza desse prédio ainda que mais externamente conservado no seu original!

    Reply
  • Walter Barreto 14/01/2019 at 15:41

    Frequentei o Oberdan ! Tinha uns 5 anos quando fui com minha avó numa matinê de Carnaval. Era perto de casa. A estória do incêndio era recorrente na época e, para nós crianças, foi recheada de fantasmas, gritos noturnos etc e tal.
    Douglas, se vc tiver, publique algo sobre o incêndio do Teatro Colombo. Saí correndo de casa e fui lá pra ver.

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