Cine Piratininga, o fim definitivo
Artigos — Por Douglas Nascimento em 30/01/2008 09:13Tweet

Houve uma época em que ir ao cinema era um acontecimento muito diferente do que é hoje. Quando a TV ainda não existia ou ainda era um ítem de luxo e aparelhos de VHS e DVD eram coisas de ficção-científica, as salas de cinema eram a grande diversão. Pessoas frequentavam cinema para assistir desenhos, episódios do Tarzan e, claro, longa metragens. E foi na primeira metade do século XX que São Paulo teve o auge das salas de cinema, onde especialmente em bairros então populosos como o Brás existiam inúmeras salas de cinema, as quais hoje funcionando não restou nenhuma. E é sobre uma destas salas que falarei, o Cine Piratininga.
Ao se falar de Cine Piratininga é preciso antes explicar que no mesmo quarteirão houveram em períodos distintos duas salas com este nome. A primeira de 1910, ficava na rua com o mesmo nome e foi criada por Fernando Taddeo um heróico desbravador de salas de cinema em São Paulo e não durou tanto tempo por inúmeros problemas estruturais. A outra sala , que falaremos aqui hoje, ainda fica na avenida Rangel Pestana, quase cruzamento com rua Piratininga.
Construído na década de 1940 com projeto arquitetônico do fantástico Rino Levi, o cinema fica sob um edifício homônimo e ocupa um local que outrora foram dois outros cinemas menores, Mafalda e Brás-Bijou. Era uma sala gigantesca e luxuosa que orgulhava-se poder acomodar com conforto cerca de 5000 mil pessoas o que fazia dele o maior cinema do Brasil e com toda certeza um dos maiores da América Latina.
O Cine Piratininga foi um local onde meus familiares frequentavam quase todos os finais de semana, já que minha família é oriunda do Brás, e não era raro estar lotado. Em volta dele, contava meu falecido avô, um fabuloso comércio se sustentava com lojas, padarias, teatros, hotéis e hospedarias e é claro a estação de trem que é consideravelmente próxima. Marcou sua época, fez história, e como quase tudo que é do passado paulistano foi sendo esquecido. Já nos anos 1970 quando a sala ,em processo de decadência encerrou suas atividades, virou um estacionamento que persiste até hoje.
Que a decadência do Brás e seu entorno foi um processo fatal e irreversível todos sabemos, as razões são muitas e os responsáveis também, mas algo poderia ser feito para preservar o antigo patrimônio histórico da região que é riquíssimo e que está , no pouco que ainda existe, caindo aos pedaços.
Em 2005, organizei junto com o Foto Clube Bandeirante um passeio fotográfico pelo Brás e Belenzinho que partia da Vila Maria Zélia e terminava na feira da Cantuta (conhecida também como feira boliviana) no Canindé e, quase no final do passeio, chegamos ao que restava do cine Piratininga. Pedi ao funcionário da empresa de estacionamento que me deixasse fotografar o local por dentro e ele não deixou, mesmo assim fotografei a fachada do prédio e dias depois voltei e estacionei meu carro lá e ai sim foi possível tirar uma fotografia de dentro, sem ser notado, na foto abaixo que tirei da pra ter uma boa noção das dimensões da antiga sala:
É impressionante como aquilo se deteriorou, na foto do início do artigo já faltava uma letra, ficando “PIRATININ A”, e a infiltração na marquise da antiga entrada do cinema já merecia uma interdição da prefeitura porém , mesmo assim, a fachada que restava trazia uma certa nostalgia a região, especialmente aos mais antigos e saudosos e aos admiradores da região como eu.
Disse “lembrava” acima porque a fachada histórica não está mais lá, foi removida, e foi muito recentemente, pois passo de carro quase todos os dias pela local e notei no dia do aniversário da cidade de São Paulo que as palavras restantes do Piratininga foram removidas, sem qualquer respeito a história do local, a memória dos cidadãos paulistanos e também ao arquiteto Rino Levi que projetou o cinema. Vejam na imagem abaixo como está agora:

Fica, aqui a pergunta: Até quando a história de São Paulo será delapidada impunemente a troco de nada ? Pois aquela região carece de melhor atenção por parte de nossos governantes principalmente pelo fato de que muitos dos munícipes paulistanos que são de origem italiana, espanhola e portuguesa possuem um pouco do Brás em seus corações.
O nome da empresa de estacionamento é Piratininga Park, e não sei se foram eles que removeram ou se foi o próprio condomínio, sei que de qualquer maneira alguém deve uma explicação, não a mim, mas a cidade de São Paulo. Dizer que simplesmente “caíram” eu sinceramente não acredito. E, finalmente, para onde foram as letras de concreto ?
O Brás e São Paulo levaram mais uma estocada forte no coração.
Atualização 31/01/2008:
*1 Carlos Lopes me corrigiu, e com razão, o teto móvel era no Cine Universo e não no Piratininga e, portanto, já corrigi esta informação.
*2 Apenas a título de curiosidade o único cinema em pé ainda na região do Brás e Belenzinho que tem por fora (e talvez por dentro) as mesmas caracteríticas de outrora é o Cine Catumbi (na rua homônima) onde hoje funciona um forrózão. Era um cinema onde você mesmo levava sua cadeira, falarei sobre ele em breve.
*3 Agradeço a Rádio Bandeirantes AM 840 que hoje no Jornal Gente comentou o meu texto no ar.
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18 Comentaram
É uma vergonha o que fazem com os prédios antigos de são paulo. Douglas, conheci o cine piratininga na minha juventude, minha vó tinha um casarão na rua das carmelitas, 54 quase esquina com a 25 de março, não mais existe foi desapropriado por causa do metro e eu ia com minhas tias ao cine piratinhinga vi a imagem e o que foi feito é uma vergonha, espero que NOVA PREFEITURA, tome uma providência e não deixe destruir o passado dos paulistanos e preserve , os predios, cinemas, ruas, enfim tudo o que se diz respeito ao nosso querido e velho são paulo, parabens pela sua pesquisa, nos meus aureos tempos brinquei muito noparque D. Pedro, hoje desgastado pela destruição da iguinorância do ser humano, continue pesquizando, abraços Cristina
Eu nasci e vivi toda minha infância e juventude no Brás, todos os domingos iamos na matine, era uma festa, que alegria, infelizmente o Cine Piratininga e o Bairro do Brás, ficou na Saudades… Pilar.
Ola faça uma visita no meu fotoblog e la vc ira encontrar várias fotos do Piratininga antes do desabamento do teto.
Abs
alguem sabe como posso entrar em contato com o proprietario desse lugar???
grato
Oi gostaria, tambem, de saber se tem como entrar em cntato com o Proprietario. Ou se tem alguem interessado em tentar uma visita nos interiores do cinema.
Julia.
o Piratininga já foi retratado no Dvd da Zizi Possi Per Amore, a Vila Maria Zélia e a Rua Joli também…como diria uma frase do irmão dela José Possi Neto especialmente para o DVD “Por alguns momentos achei que eu nunca havia existido!Se eu soubesse que as coisas desapareceriam assim, tão facilmente, eu teria dedicado mais tempo a me lembrar delas!” o Bras foi destruído, tenho 23 anos nasci na rua Júlia Bresser, perto da Bresser com a Silva Telles, minha família inteira é do Brás desde quando meus bisavós vieram da Itália…é triste não ter história, morei também no Pari, e o Pari também está sendo destruído…sabe o que da mais raiva…o Paulistano não conhece a história dos seus antepassados, mas vai para o Nordeste conhecer o Pelourinho…
frequentei muito o cine Piratininga pois o meu tio avó foi gerente deste cinema por 40anos “o Sr. Ferreira e Da. Mercedes” tenho contato com uma das filhas . É muito triste.Abraços. Regina
tristeza e muita saudade. Quantos programas ~Jovem Guarda o Rberto Carlos gravou lá? 2, 3 . Eu assiti todos.
Incrível.
Minha família é do Brás. Ouço meus pais e meus tios falarem muito dos cinemas e de toda a vida noturna e cultural que existia no Brás nas décadas de 40, 50 e início da década de 60.
Infelizmente nem eu, nem minha irmã, nem primos, que nascemos e vivemos na região do Brás e Pari até o final da década de 90, não pudemos conhecer nada daquilo que nos contam. Na nossa infância, tudo já estava sendo destruído e deteriorado e morar ali foi uma insistência quase heróica da família.
Atualmente nenhum de meus familiares mora mais lá e cada vez que passo pelo bairro bate uma saudade, misturada com a raiva de ver toda a região desfigurada.
A desordem e o descaso venceram por ali.
[]‘s
Sou do Brás, da Rua Piratininga. Pelo que ouvi comentar, tiraram as letras da fachada do cine Piratininga por causa da Lei Cidade Limpa, do Kassab, onde se limitou o tamanho dos logos de qualquer imóvel comercial da capital. Uma pena.
Olá Reginaldo,
Se removeram por isso, foi pura ignorância. O letreiro era de concreto e estava incorporado à construção e, portanto, não seria incluído na lei.
Ou fizeram por desconhecimento da lei, ou excesso de zelo. Ou então aproveitaram a oportunidade para arrancar aquilo que já não queriam.
Curiosamente comer uma bela salada de beterrabas resgata uma memória oufativa e me lembra o Cine Piratininga.
Estive lá assistindo a Jovem Guarda e depois bem no final de sua existência como sala/teatro, num congresso onde conhecí os bastidores do cinema, principalmente a parte onde ficava a orquestra, que era uma espécie de porão, cochia, não sei como chama. O cheiro daquele lugar em especial, era igual ao da beterraba.
FREQUENTAVA ESTE CINE DESTE 1977 QUANDO PASSAVA FILMES PRONOS DA EPOCA E KUNG FU, EM NOVEMBRO DE 1980 ELE FECHOU PARA REFORMA POR QUE CAIAM PLACAS DE REVESTIMENTO DO FORRO QUANDO CHOVIA, NESSA EPOCA A IGREJA UNIVERSAL ALUGAVA ESTE CINE PARA OS PRIMEIROS CULTOS, REINAUGUROU EM JANEIRO DE 1981 SEM AS CADEIRAS DAS LATERAIS, PARA EM CASO DE INCENDIO O PESSOAL PODER EVADIR SE MAIS RAPIDO SEGUNDO O GERENTE DA COMPANHIA SERRADOR, FECHOU DEFINITIVAMENTE EM ABRIL DO MESMO ANO, UM ANO APOS ESTAR FECHADO, DESABA O GRANDE TETO FICANDO ALGUNS ANOS ATÉ SE TRANSFORMAR NUM ESTACIONAMENTO, UM DOS ULTIMOS FILMES APÓS A REFORMA E NA TENTATIVA DE SE TORNAR UM FILME COMUM FOI “SUPER HOMEM”.
Oi Bia, entrei no Piratininga em 1996 para fazer umas fotos que estão no meu Fotoblog e o Teto ainda estava lá, depois de 2 meses ai sim tudo desabou numa noite de chuva deixando os moradores do predio ao lado apavorados pelo enorme barulho. Abs
Inicialmente cumprimento os responsáveis por este site de memória de SP. Em 1968, no dia 15 de março, a equipe de programação da Rádio América, da qual eu fazia parte, com Newton Miranda e Sergio de Freitas, realizou um grande show com ídolos da “Jovem Guarda”, Roberto Carlos à frente. Inesquecível, para cerca de tres mil pessoas. Lembro bem do gerente, o Sr. Ferreirinha, que não dava a mão a ninguém, por motivos de higiene, já se antecipando aos cuidados de décadas depois com a gripe suína. Era uma grande casa de espetáculos,que destino inglório, se tornar um estacionamento…
José Paulo de Andrade
Quando jovem eu passava de onibus e realmente havia um letreiro na fachada em que estava escrito: Cine Piratininga 5000 lugares – o maior cinema do Brasil
Depois é “chique” ir à Europa admirar as construções antigas. Como não valorizar o que é nosso? Eu tive a oportunidade de conhecer 2 cinemas antigos antes de seu desaparecimento. Fico muito triste com o descaso de certas família brigando pelos seus espólios e do Poder Público que faz cara de paisagem com o desaparecimento da história de São Paulo. Quando a mansão Matarazzo ruiu, eu chorei…
depois de comer uma pizza n/ pizzaria av.chiq, eu ia comprar jornal a gazeta esportiva ficava muinta gente esperndo o jornal domingo a noite as 22 horas vinha o jornal.
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