Uma das construções mais bonitas da região central da cidade de São Paulo está há mais de uma década em situação de penúria e total abandono. Trata-se da antiga sede da Associação Auxiliadora Classes Laboriosas.

Detalhe da fachada do imóvel (clique na foto para ampliar).

Detalhe da fachada do imóvel (clique na foto para ampliar).

Erguido em 1907, o edifício que também é chamado de Salão Celso Garcia, foi durante décadas palco de importantes acontecimentos do cotidiano paulistano.

Durantes as duras greves e revoltas operárias que assolaram a capital nas décadas de 1940 e 1950, o prédio era constantemente usado para reuniões, discussões e negociações. No ano de 1953, que ocorreu uma grande greve, a sede das Classes Laboriosas foi considerada o grande e importante QG do movimento grevista, um marco para o movimento trabalhista brasileiro.

clique na foto para ampliar

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Nas décadas anteriores, especialmente de 1910 a 1920, o elegante Salão Celso Garcia foi palco de inúmeras peças de teatro, corais e solenidades que não raro repercutiam por toda a cidade de São Paulo. Em 1910, aliás, o poeta e político Sílvio Romero falaria diante deste prédio em um imporante e concorrido comício sobre a carestia de vida.

Infelizmente, todo este passado glorioso e marcante do prédio da A.A. Classes Laboriosas parecem ter ficado para trás. Quem passa hoje no número 22 da rua Roberto Simonsen, sequer consegue imaginar a efervescência deste local nos primeiros cinquenta anos do século XX. Atualmente, vê-se um prédio praticamente destruído, largado e abandonado, onde somente restaram as paredes e a belíssima fachada em art déco.

A parte do fundo é de uma arquitetura mais antiga (clique na foto para amplia).

A parte do fundo é de uma arquitetura mais antiga (clique na foto para ampliar).

Em fevereiro de 2008 um incêndio tomou conta do antigo Salão Celso Garcia e praticamente quase tudo veio abaixo, exceto a fachada e paredes que resistiram. As circunstâncias de incêndios em prédios centenários e tombados sempre despertam suspeitas (muitas vezes infundadas), mas a grande verdade é que o prédio resistiu ao fogo devastador.

Foto: Divulgação / clique para ampliar

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Um ano depois, em 11 de março de 2009, uma reunião do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico da Cidade de São Paulo (Conpresp) liberou a reforma do imóvel, porém preservando a fachada intacta. Passados três anos, nada foi feito e a situação de abandono e descaso com a história de São Paulo continua.

Confira outras fotos do prédio das Classes Laboriosas:

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Foto: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Atualização 19/06/2014:
Nesta semana visitamos mais uma vez o antigo prédio das Classes Laboriosas e notamos que o local foi coberto com uma tela de proteção e cercado por malotões. Além disso notamos a presença de andaimes e estão retirando o reboco antigo. Será que finalmente o imóvel será restaurado ? Estamos acompanhando!

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Atualização 01/12/2016:
Passado pouco mais de dois anos desde nossa última visita ao prédio das Classes Laboriosas, podemos constatar que nenhuma reforma – nem mesmo emergencial – foi realizada. O edifício continua oferecendo grave risco tanto as munícipes quanto ao acervo patrimonial da cidade de São Paulo.

O leitor e colaborador do São Paulo Antiga, Felipe Leite Neres, adentrou ao edifício e conseguiu tirar excelentes fotos do interior do imóvel. A galeria abaixo apresenta estas imagens:

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Vinicius Campoi 15/02/2011 at 14:41

    Sempre me chamou a atenção o fato de que o estilo da fachada (Art Deco) é diferente do restante da construção, ambos muito bonitos. Gostaria de ver fotos da fachada original, provavelmente de 1907 até os anos 30.

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  • Gabriel 15/02/2011 at 16:46

    Eu acredito que esta fachada tenha sido construída bem depois de 1907, talvez na década de 30, período do Art-deco. Nota-se que a estrutura atrás possui um estilo diferente.

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  • Renata 15/02/2011 at 18:50

    Liberaram a reforma e estão esperando o que? É descaso demais.

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    • Deborah 30/11/2011 at 18:44

      Minha amiga mora em um prédio bem próximo, chegou a ver o incêndio, que chegou quase a tomar o prédio em que ela mora também! da parte que o prédio tem um corredor aberto uma espécie de “quintal”, (serve de passagem e para secar a roupa) dá para ver o classes laboriosas, está nascendo uma árvore na parte que era do interior do prédio…só dá para ver os tijolos e o mato crescendo. Ouvi dizer que era um prédio muito bonito, agora é abandonado, como um outro prédio desta mesma rua(não conheço o nome, mas é do lado contrario ao cl)…

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  • Vinicius Campoi 16/02/2011 at 12:02

    Esta é a má notícia da Sé a que vc se referiu né? realmente triste mas eu passo por lá com certa frequencia e já sabia da situação do prédio, até achava que estava assim há mais tempo

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  • Angelo E Agarelli 21/02/2011 at 18:48

    No primeiro andar desse prédio tinha, ao menos até alguns poucos anos, um salão muito bem preservado que, nas primeiras décadas do século XX, foi um teatro.

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    • Ana Silvia Bloise 15/07/2014 at 20:51

      lindo era o salão que tive a sorte de conhecer, algum deve ter as fotografias…

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  • walyson 22/02/2011 at 08:25

    Quando eu era office-boy, uma vez por mês eu ia até as classes laboriosas para efetuar o pagamento da mensalidade do meu antigo chefe e de sua esposa e sempre ficava observando tudo, sua arquitetura, as pessoas que lá trabalhavam.
    Fiquei surpreso pois não sabia que tinha pegado fogo.

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  • Inês 15/03/2011 at 13:41

    Quando eu trabalhava no hospital várias vezes fui até este prédio pegar trocar solicitar guias.
    Lindo majestoso e imponente prédio que chamava a atenção por sua estrutura.

    Esse abandono em menos de 30 anos é lamentável

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  • JOSE UMARAS 31/03/2011 at 12:07

    nesse predio foi o meu primeiro emprego em 1950
    no andar superior tinha a sala de advogacia do dr. Gorga e no 3o andar uma sala do Boletim Fiscal onde tabalhei como office-boy para ajudar na assinatura de um periodico contabil mensal.
    Durante um mes ali trabalhei e saí pq. trabalhava e nao recebia, isto é, so recebia se o cliente fizesse assinatura do Boletim Fiscal.
    Tempos vindos e findos

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  • Prédio Abandonado – Rua Roberto Simonsen — São Paulo Antiga 04/04/2011 at 11:02

    […] Relacionados Classes LaboriosasEdifício de 1892 – Rua Florêncio de Abreu, 217Edifício – Rua Xavier de Toledo, […]

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  • aquinaojacare 24/07/2011 at 23:56

    O que eles estao esperando para começar a reforma???? Tem como nos fazermos alguma denuncia??

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  • Gildo 13/01/2012 at 09:09

    alguém sabe que é o proprietário ? ele foi tombado ? obg

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  • Elmer Cesar 24/06/2013 at 09:46

    Meu pai, hoje com 88 anos diz que dançou muito nesse prédio e que tem muitas recordações.
    É um descaso, algo histórico tão importante para as futuras gerações, gostaria de falar desse prédio para meus netos mas acho que não poderei, devido seu abandono por nossos governantes.

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  • Thiago Carrapatoso 25/02/2015 at 11:37

    Oi!

    Alguém sabe de quem é a propriedade ou se está nas mãos do município?

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    • Douglas Nascimento 26/02/2015 at 12:29

      Thiago, como vai ? O imóvel ainda pertence as Classes Laboriosas

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  • Fábio 25/02/2015 at 13:57

    Pertinente como sempre, todavia sugiro revisar os textos. Não é “pano”. É uma tela de proteção. Não é “reboque” mas sim reboco. Acompanho os posts – sempre pertinentes e interessantes mas tenho lido sempre alguns equívocos… Por exemplo: a herma de concreto na Praça da República, citada num vídeo recente, não é de metal erroneamente pintada. É de argamassa armada pintado de verde, simulando a pátina típica do bronze. Caso deseje, poderei contribuir…

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    • Douglas Nascimento 26/02/2015 at 12:27

      Reboque é pra levar carro! Tem toda a razão…
      Obrigado pelo alerta, já providenciei as correções. Pode contribuir sim, é muito bem vindo.
      Abraços

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  • Joao Marcos Turnbull 25/02/2015 at 19:04

    Realmente, sempre tive impressão que a fachada atual veio depois da original já que a lateral tem outro estilo…

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  • Talita Yung 22/04/2016 at 01:45

    Passo sempre por lá, e andei muito naqueles corredores nas décadas de 80/90, quando minha avó, hoje recém completos 93 anos ainda é conveniada à Classes Laboriosas.
    Que edificio magnifico, que interior estupendo. HOJE, há árvores dentro do que restou, e sus provável queda por desmoronamento e descaso das autoridades colocam em risco as pessoas.
    ´pE uma tristeza ver aquele edificio que fui por muitas vezes nesse estado!

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  • Andressa 15/05/2017 at 19:48

    De acordo com a atualização, o local ele se disponibiliza para fotos? Como que seria possível entrar em contato?

    Reply
  • Thiago Bacaicoa 17/02/2018 at 01:31

    Uma pena ver um prédio desses tão destruído e abandonado. Apenas para confirmar a diferença entre a fachada e o resto do prédio: “Em 1933, o edifício passou por uma grande reforma estrutural, com destaque para o redesenho da fachada, seguindo o padrão do estilo art déco, muito estilo na arquitetura brasileira na época.”

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