Por trás das grandes fazendas de café estava a mão firme de seus donos, os chamados Barões do Café, que cuidavam e administravam estas “pequenas cidades”. Não podemos deixar de citar aquele que é considerado um dos mais importantes de todos os grandes cafeicultores, e por isso recebeu a alcunha de “O Rei do Café”. Contaremos a seguir a história do Coronel Schmidt.

Coronel Schmidt em fotografia de 1911 (clique na foto para ampliar).

Coronel Schmidt em fotografia nos primeiros anos do século 20 (clique na foto para ampliar).

Franz Schmidt nasceu na Alemanha em 3 de outubro de 1850, e sua história no Brasil começa em 1858, quando desembarca com seus pais, Jakob e Gertrud Schmidt para trabalharem como colonos na fazenda Ibicaba, em Limeira (nota: atualmente está no município de Cordeirópolis). Tal propriedade tem uma história interessante, que será abordada em reportagem específica, pois foi a primeira fazenda, ainda em um país escravista, a explorar mão-de-obra imigrante assalariada à escrava.

Trabalha por um período com seus familiares nesta fazenda, quando parte para ser colono na fazenda Felicíssima, no município de São Carlos, na colônia São Lourenço. Schmidt trabalhou junto de seus pais até se casar com a jovem Alberthine Kohl em 1873, de família prussiana. O casal então muda-se para a região de Descalvado e trabalham nas terras de Rafael Tobias de Aguiar, local em que aprende novos ofícios voltados a administração do café e da fazenda.

Em 1879, com algum dinheiro guardado, adquire um armazém comercial na cidade de Descalvado, investindo em uma nova área, a corretagem de café, para uma firma de seus conterrâneos, “Theodore Wille & Co.”.

Foto: Colheita de Café em Fazenda Paulista, início do século 20.

Foto: Colheita de Café em Fazenda Paulista, início do século 20.

Por dez anos, Schmidt trabalha e faz dinheiro com o armazém e a corretagem, adquirindo boa experiência no ramo, sempre com exclusividade de seus parceiros da Theodore Wille, começando desta forma sua carreira de empresário. Schmidt adquire sua primeira gleba de terras em 1889 na região de São Simão, financiado por seus parceiros comerciais. Algumas controvérsias na história surgem, mas acredita-se que este empreendimento não tinha finalidade de Schmidt se estabelecer como cafeicultor, e sim como corretor, que já era, comprando, melhorando e revendendo terras produtivas. É prudente que levemos em consideração que um – ainda – pequeno empresário não tivesse dinheiro o bastante para a compra de uma importante fazenda.

Nesta mesma época, Schmidt associa-se a Arthur Aguiar Diedericshen, fazendeiro e principal representante da Theodore Wille na região de Ribeirão Preto. Arthur já possuía as terras da fazenda Santa Adelaide, propriedade esta outrora pertencente a João Franco de Morais Otávio, cafeicultor antigo, coronel da Guarda Nacional, que se estabelece em várias regiões paulistas, chegando a Ribeirão Preto em 1869. João Franco passava por dificuldades de saúde e, endividado, queima praticamente todas as suas propriedades, incluindo a que viria a ser a joia da coroa de Schmidt, a fazenda Monte Alegre.

Engenho Central, em Sertãozinho, propriedade de Schmidt (clique para ampliar).

Engenho Central, em Sertãozinho, propriedade de Schmidt (clique para ampliar).

Financiado pela Theodore, com Arthur sócio garantindo o bom negócio, Schmidt compra em 1890 a fazenda Monte Alegre. Tempos mais tarde, compra a parte de Arthur na sociedade, sempre com a Theodore Wille e suas fortes intenções comerciais por trás do negocio. Para os dois lados era um bom acordo, Schmidt lucraria com o café vendido exclusivamente para a Theodore, que lucraria com o café comprado do Schmidt.

Esta parceria tornara-se um efeito cascata, acarretando na compra de outras inúmeras propriedades ao redor da Monte Alegre e ao longo da Cia Mogiana, chegando a possuir mais de 60 fazendas, com mais de 10 milhões de pés de café. Desde sua associação com Arthur, entra na política participando do PRP (Partido Republicano Paulista), e no começo do século XX, recebe de Campos Sales (Presidente da República, e amigo pessoal) o título de Coronel, tornando-se “Coronel Schmidt, o Rei do Café”.

Coronel Schmidt acompanha autoridades federais em uma de suas fazendas (clique para ampliar).

Coronel Schmidt acompanha autoridades federais em uma de suas fazendas (clique para ampliar).

O Coronel não atuava somente no café, tendo um enorme rebanho de gado em várias de suaspropriedades e muita cana, o que lhe rendeu 3 engenhos de açúcar. Podemos citar também alguns imóveis, que vez ou outra utilizava como negócios, vendendo ou alugando. Foi dono de um casarão na Avenida Paulista, local que passou seus últimos anos.

Foto: Avenida Paulista no início do século 20.

Foto: Avenida Paulista no início do século 20.

Seu filho mais velho, Jacob Schmidt aos poucos assume junto ao pai a administração de seu império, porém, ao entrar na década de 1910, sua mãe falece, e o deixa ligeiramente afastado de seus negócios. Em 1917 morre sua esposa, e o coronel, abalado, se afasta completamente da administração de suas fazendas para cuidar dos assuntos do inventário de sua cônjuge.

Cria a Cia Agrícola Francisco Schmidt no neste período, sendo acionista de 50% do total, deixando os outros 50% para seus filhos. Por conta do inventário de sua mulher e da administração desta nova companhia, definitivamente Jacob assume a administração das fazendas. Viúvo, velho e desanimado, Schmidt morre em 18 de maio de 1924, em São Paulo.

Temos que ressaltar neste ponto que o coronel era rico, mas possuía uma divida muito grande com a empresa Theodore Wille. Jacob entra em acordo com a Theodore para saldar as dívidas, entregando metade das propriedades para este fim. Já não havia mais vínculo nenhum, e a Cia Agrícola é encerrada.

Foto: Coronel Schmidt em 1911 (Revista Brazil Magazine)

Foto: Coronel Schmidt em 1911 (Revista Brazil Magazine)

Como dito, Schmidt era um empresário, que usava também do café para seus lucros. Seu filho, entretanto, pegou gosto pela atividade. Na partilha dos bens junto de seus outros sete irmãos, Jacob se mantém proprietário da Monte Alegre e continua no ramo do café. Jacob morre no início dos anos 50, desgostoso após a crise de 1929, que afetará o café, com o golpe de misericórdia do governo estadual, que desapropria as terras da Monte Alegre para a criação do campus da USP em Ribeirão Preto.

Uma família grande, muitos herdeiros e algumas dívidas, esta foi a receita que terminou definitivamente com o grande império do legítimo “Rei do Café”.

About the author

Leandro Guidini é um jovem apaixonado pelas ferrovias do Estado de São Paulo. Desenhista industrial por formação, atua na área da Arqueologia Industrial, pesquisando temas vinculados à ferrovia e fazendas de café, importante binômio do desenvolvimento paulista, sendo autor de livros e artigos. Em suas horas vagas, conduz algumas das velhas Maria-fumaças preservadas na cidade de São Paulo e pratica ferreomodelismo.

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Comments

  • ernani Nocciolini 25/07/2014 at 22:32

    Avenida Paulista, muito linda até o final dos anos 50.
    Infelizmente está detonada. Virou um corredor de carros e de fumaça.

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  • Ricardo Santos 26/07/2014 at 00:05

    Que história sensacional!!Parece que viajo no tempo!!Parabéns pela reportagem Leandro Guidini!!

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    • Leandro Guidini 26/07/2014 at 23:04

      Muito obrigado!

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  • Catarina Jane Staniscia Galli 27/07/2014 at 03:27

    Sou apaixonada pelas histórias de São Paulo e o Império gerado pelo café !! As mansões da Paulista e os Paulista quatrocentões!! Adorei!!

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  • Leonardo Veras 29/07/2014 at 16:48

    Para quem gostou dessa história e quer saber mais, é só visitar o Museu do Café localizado dentro do Campus USP Ribeirão Preto ( Antiga fazenda monte alegre) , encontra-se prédios da fazenda, maquinários entre outros.

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  • marianacarolinadossantos 17/08/2014 at 16:08

    sou mineira mas apaixonada por coisas antigas .E uma bela historia.

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  • Paulo da Silva 23/09/2014 at 22:35

    Muito boa “viagem” através dos tempos, espetacular conhecer um pouco de história, que não é só de São Paulo e sim do Brasil!!.

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  • Rodolpho Neto 13/10/2014 at 22:25

    Sou um Paulistano de 33 anos se existisse uma maquina do tempo para que eu depois de entrar nela fosse parar no Inicio do Seculo 20 entre 1900 1910 pode ter certeza não iri querer voltar

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  • Rogério Baldini 11/11/2014 at 11:31

    Leandro antes de ser desapropriada para ser a USP, a fazenda passou a ser colégio agrícola criado pelo Getúlio vargas, essa é a historia contada no museu do café que fica em um anexo da sede da Fazenda Monte alegre que ainda guarda a história do Rei do cafe, como a moeda que foi cunhada para pagamento dos funcionários das fazendas, onde o funcionario usava suas moedas para comprar nas vendas do schmidt .

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  • Guilherme Schmidt Netto 22/12/2014 at 02:01

    Leandro, excelente reportagem. O Francisco Schmidt eh meu bisavo. Meu pai cresceu na fazenda Monte Alegre, e me passou algumas historias da vida na fazenda.
    O meu avo, Guilherme Schmidt, era um dos filhos do Francisco e irmão mais novo do tio Jacob.
    obrigado pela reportagem.

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    • Vitor Maciel 01/06/2018 at 00:16

      Guilherme, vou fazer uma exposição do Radio e do Café aqui em Ribeirão. Gostaria de entrar em contato com você. Meu instagran é vitor7807 e meu whats app é 16-99200-4935

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  • Nilton F. Bovo 10/04/2015 at 18:37

    Sr. Leandro,conheço um pouco da historia do Cel. Francisco Shimidt,nasci e vivo em São Paulo mas minha família é de Rib. Preto e meus antepassados respeitavam muito o Cel Shimidt,já estive na casa do Sr. Shimidt que hoje é o Museu do café em Ribeirao Preto. Foi um fascinante prazer ler seu trabalho.

    Parabens !!!

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    • Nilton F. Bovo 10/04/2015 at 18:39

      Corrigindo : SCHMIDT.

      Perdão !

      Reply
  • Vitor Maciel 01/06/2018 at 00:11

    Leandro,Muito interessante seu texto. Fico feliz que tenha recuperado a definição dessas fotos. Vou fazer uma exposição sobre o café e o rádio de Ribeirão Preto. Sou jornalista e artista plástico. Quero pintar uma tela do Schmidt. Sucessos!

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