Atenção: Algumas imagens publicadas neste artigo são fortes e não são recomendadas para pessoas sensíveis.

Os crimes que hoje são mostrados nos programas policiais popularescos de televisão parecem ser coisa recente em nosso cotidiano, mas basta olhar em nossa história para observar que crimes hediondos e cruéis são acontecimentos frequentes em nossa linha do tempo.

Como muitas destas tragédias causam imensa comoção, é até bastante comum que algumas das vítimas se transformem em figuras de culto e adoração. E foi o que aconteceu com a vítima daquele que é um dos crimes mais lembrados da história paulistana e brasileira no século 20: Maria Fea.

VIDA E MORTE:

Casada com Giuseppe Pistone em Buenos Aires em 1925, a bela e jovem Maria Fea jamais suspeitaria que seu marido no futuro seria seu algoz.

Na foto o casal Pistone e Maria Fea pouco após se casarem em 1928.

Na foto o casal Pistone e Maria Fea pouco após se casarem em 1925.

Tudo aconteceu outubro de 1928, quando após descobrir que seu marido pretendia extorquir um primo, que lhe oferecera sociedade em um negócio, Maria Mercedes Fea decidiu escrever uma carta a sogra, contando o que estava acontecendo.

Entretanto antes dela enviar a carta, seu marido, Giuseppe Pistone, conseguiu lê-la e foi tirar satisfações com a esposa. O casal discutiu feio e Pistone partiu para a agressão, sufocando-a com um travesseiro. A jovem mulher, de apenas 22 anos, não resistiu e morreu.

Pistone pouco ao ser fichado pela polícia em 1928

Pistone pouco ao ser fichado pela polícia em 1928

Desesperado e sem saber o que fazer com cadáver da esposa, Pistone toma uma decisão cruel. Decide colocar o corpo de Maria Féa em uma mala e despachá-la para França, precisamente para a cidade de Bordeaux. Para isso, vale-se de nome e endereços falsos, enviando o objeto para uma pessoa fictícia, chamada Ferrero Francesco.

Contudo, quando a mala era içada para dentro do navio a grua não aguentou o peso dela e de outras malas e acabou rompendo o cabo que a levantava, derrubando-a junto com as demais. Foi ai que uma pequena fresta revelou-se, escorrendo sangue e liberando um forte cheiro pútrido. A polícia é acionada, e ao chegar no local abre a mala encontrando o corpo de Maria Féa (naquele momento ainda não identificada).

Acervo São Paulo Antiga

A mala uma vez aberta revela um crime com requintes de crueldade. Para fazê-la caber dentro da mala, Pistone decidiu esquartejar o corpo, desfigurando-o nas juntas e membros. Além do cadáver e do feto de uma menina (ela estava grávida de 6 meses), a mala continha peças de roupas, objetos pessoais da vítima e a navalha utilizada no crime.

A autópsia (foto abaixo) concluiu que a vítima morreu em decorrência de sufocamento e esganadura. Depois de toda a análise pericial o cadáver de Maria Féa é sepultado no Cemitério da Filosofia, na própria cidade de Santos, onde o corpo foi encontrado.

Maria Fea sobre a mesa de necropsia (clique para ampliar).

Maria Féa sobre a mesa de necropsia (clique para ampliar).

PRISÃO DE PISTONE:

Um crime tão brutal logo tomou a atenção da mídia, fazendo com que a investigação se acelerasse para encontrar o culpado. Preso pela polícia, Pistone primeiramente alega que só discutiu com a mulher, que morreu de mal súbito. Depois, após ser confrontado com os dados da autópsia, alegou ter encontrando a esposa com um amante no apartamento do casal.

Mesmo sendo contestado pelos vizinhos, que disseram ter ouvido toda a discussão dos dois, ele manteve esta versão.

Banheiro do apartamento do casal, foi aqui que o crime ocorreu.

Banheiro do apartamento do casal, foi aqui que o crime ocorreu.

Giuseppe Pistone é levado a julgamento, e em 15 de julho de 1931, quase três anos após o crime, é condenado a 31 anos de prisão pelos crimes de homicídio, latrocínio e ocultação de cadáver.

Entretanto, beneficiado por um decreto do então presidente Getúlio Vargas em 1944, Pistone tem sua pena reduzida para 20 anos, sendo colocado em liberdade condicional neste mesmo ano. Em 1948 sua pena é considerada cumprida.

Pistone a partir de então levou uma vida normal em Taubaté, no interior paulista, inclusive casando-se novamente. Ele viria a falecer em 1956, aos 62 anos de idade.

A SANTA POPULAR:

Após seu sepultamento na cidade de Santos, e com seus parentes mais próximos vivendo em Buenos Aires, na Argentina, tudo indicava que, com o tempo, Maria Féa fosse esquecida. Mas o que aconteceu foi exatamente o oposto.

Placas de graças alcançadas no túmulo de Maria Fea (clique para ampliar)

Placas de graças alcançadas no túmulo de Maria Fea (clique para ampliar)

O jazigo de Maria Féa é o mais conhecido e visitado do Cemitério da Filosofia, em Santos. Ao chegar na necrópole, localizada no bairro do Saboó, basta perguntar a qualquer pessoa por ali onde fica sua sepultura e será raro alguém não saber.

Construído em 1951 por um casal que teve uma graça alcançada, o túmulo de Maria Mercedes Féa é guardado na parte superior por dois querubins, e fica mais ou menos no meio do cemitério, sendo bem fácil de se identificado. Ao chegar perto dele é possível notar as incontáveis placas de agradecimento por graças alcançadas e ofertas deixadas no local.

Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

Nestes anos todos que Maria Féa jaz em Santos, tornou-se uma santa popular. As pessoas vão até lá de vários cantos do Brasil para pedir desde sorte no trabalho a saúde. Mas são as mulheres em busca de um casamento que mais frequentam o jazigo.

Elas pedem para conseguir um marido ou até mesmo para conseguir um vestido de noiva para a cerimônia. Não é raro, inclusive, que noivas que atribuem o casamento a uma graça ocorrida por intermédio de Maria Féa, deixem seu vestido como agradecimento ali.

Interior da capela no túmulo de Maria Fea (clique para ampliar)

Interior da capela no túmulo de Maria Féa (clique para ampliar)

Há casos de noivas que pedem para se casar usando os vestidos que ficam ali. Vez por outra também aparece alguma mulher vestida de noiva, cumprindo promessa.

O vídeo abaixo, do extinto programa Aqui Agora mostra um pouco deste costume (dica: adiante o vídeo para 1:21)

Essa devoção e peregrinação popular correu sério risco de deixar de acontecer em 1978, quando os últimos familiares remanescentes de Maria Féa, na Argentina, solicitaram que o corpo fosse trasladado para a cidade de Buenos Aires.

Na época, muitos devotos, populares e até a administração do cemitério se uniram para impedir que o traslado ocorresse, já que entendiam que por ter vivido parte da vida no Brasil e já estar sepultada ali há 50 anos não faria sentido retirá-la de onde ela estava.

A chave de um Nissan presa a grade do túmulo: mais uma graça alcançada

A chave de um Nissan presa a grade do túmulo: mais uma graça alcançada

Após muitas conversas e negociações a família desistiu da ideia e desde então Maria Féa continua recebendo diariamente a visita de muitos devotos e curiosos, que vão até o local pelas mais diversas razões.

Veja mais fotos do túmulo de Maria Féa:

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Crédito: Douglas Nascimento / São Paulo Antiga

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Uma boa maneira de compreender a fé em torno de Maria Féa, é assistir a este documentário abaixo, que me foi cedido por uma das pessoas que aparecem no vídeo, o advogado e policial civil aposentado Doutor Milton Bednarski um dos maiores estudiosos do Crime da Mala.

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About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • J.C.Cardoso 28/01/2015 at 18:25

    Será que era outro crime?
    Conheço como tendo sido um crime passional. Pistone teria um ciúme doentio dela, e desconfiado de traição, fez o que fez.
    A história que eu sabia era que a mala (com o corpo) seguia para a Itália, para a família da morta. Mas parece-me que houve uma greve em Santos (início do movimento sindical), a coisa começou a apodrecer e… feder… e daí…

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    • janedarcke 29/01/2015 at 00:02

      Poizé! Meus pais também falavam extamente isso! Que ele era ciumento, que o filho não seria dele, e que o corpo seguiria para a Itália, sem nenhuma menção a dinheiro/negócios… Ela tinha (teria?) uma prima em Buenos Aires e só…

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      • Douglas Nascimento 29/01/2015 at 07:52

        Essa história é falsa, comum em crimes trágicos surgirem versões não oficiais.
        Seus irmãos, José e Esther Féa, vieram de lá para acompanhar as investigações em 1928.
        Inclusive em 2010 eu visitei a casa onde a família viveu na periferia de Buenos Aires.

        Reply
  • Adriana Marangon Bonadio 28/01/2015 at 19:17

    Desde criança ouvia a frase dita pelos meus pais : “é o crime da mala !”, quando alguma coisa era considerada absurda ou chocante…meu pai me havia explicado o motivo de tal expressão e penso que muitos paulistanos também a conheciam e a usavam…pelo menos os mais antigos. Muito boa a reportagem !

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  • sueli soares 30/01/2015 at 20:22

    PARABENS DOUGLAS POR TRAZER ESTE CASO TRISTE AQUI NA SAO PAULO ANTIGA A VIOLENCIA CONTRA MULHER JA VEM DE LONGE SO ASSIM TODOS VAO CONHECER A HISTORIA DA MARIA FEA.

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  • Emerson de Faria 04/02/2015 at 10:45

    Pois é, quase 90 anos antes de Eliza Matsunaga fazer sushi de seu marido japa, um crime horrendo e semelhante acontecia.

    Reply
  • JEFFERSON 25/02/2015 at 18:27

    Como sempre suas matérias são espetaculares Douglas! Parabéns! Quanta riqueza de detalhes, e o que dizer dessas fotos? Que raridade, fotos do interior da mala e da autópsia, nunca imaginei que elas existissem! Realmente mais uma grande postagem! Agora com relação a essas peregrinações e essa idolatria toda, com todo respeito aos devotos, mas, como o povo brasileiro é vazio nessas questões…

    Reply
  • danielpardo2015 08/03/2015 at 20:33

    Será que é NESSE crime da mala que a música “Alvorada Voraz” do RPM fala???

    Reply
    • Fernanda 09/07/2015 at 03:26

      Segundo o Wikipédia, é sim.

      Reply
  • Vera Cristina Dainese 17/09/2015 at 16:59

    Ouço esta história desde criança. Minha avó filha de italianos, me contava com requintes de suspense e fatalmente, eu ficava sem dormir a noite inteira relembrando a história pavorosa sempre lembrada pela minha avó. Triste saber, que as Leis já eram brandas na época, ele (assassino), se livrou e casou-se de novo. Ele teve direito a vida, e a vítima??? Maria Féa? Ela o traiu??? Nunca saberemos, mas a impunidade rola solta até os dias atuais. Infelizmente.

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  • Theyla Evenlin 28/09/2015 at 10:26

    Este foi primeiro crime, com o corpo encontrado dentro de uma mala?

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    • Douglas Nascimento 28/09/2015 at 10:31

      Oi Theyla, como vai ?

      Esse é o mais famoso, contudo foi o segundo. O primeiro “Crime da Mala” ocorreu cerca de 10 anos antes e foi cometido pelo imigrante libanês Michel Trad.

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      • Edson Gonçalves Pinheiro 25/11/2018 at 21:01

        O crime ao qual fez referência na verdade foi cometido vinte anos anteriormente a esse, no ano de 1908, e não dez anos apenas, também em São Paulo, na rua Boa Vista, centro da cidade
        coincidetemente!

        Reply
  • Theyla Evenlin 28/09/2015 at 23:20

    Muito bem obrigada.Agradeço que me tenha respondido.
    A história deste crime e realmente curiosa.
    Parabéns pela matéria e continue assim.

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  • Giuseppe 20/04/2018 at 22:36

    Lembro bem de meus Avós comentando sobre esse crime famoso !

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  • Fernanda Paula 13/09/2018 at 14:43

    Eu duvido que uma mulher que foi morta pelo marido intercederia a favor de casamentos!É questão de lógica

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