Viagens de trem pelo Brasil hoje é mais uma lenda do que realidade. Salvo em alguns poucos trechos, viajar de trem pelo país é uma tarefa quase impossível de se realizar. Seja pelo já conhecido sucateamento da malha ferroviária nacional ou pela massiva campanha em prol do transporte rodoviário, que foi marca das últimas décadas do século 20. Curiosamente só agora, quando o transporte aéreo está se tornando bastante popular no país, é que o transporte ferroviário de passageiros está sendo discutido novamente.

Entretanto, desde o final do século 19 até meados do século 20 o transporte de passageiros por trens era uma realidade bastante conhecida e utilizada. E no interior do Estado de São Paulo haviam estações ferroviárias que muitas vezes eram a única maneira de ligar cidades distantes aos grandes centro do país, como a capital paulista e a então capital federal, Rio de Janeiro.

A Estação de Guaratinguetá nos anos 40.

Com a decadência deste meio de transporte boa parte destas estações entraram em franca decadência, abandonadas pela RFFSA, FEPASA e outras entidades responsáveis por elas. Muitas desabaram, outras tantas foram demolidas e outras resistem feito teimosas ao descaso do poder público, como as magníficas estações de Cachoeira Paulista e São Manuel.

Porém, felizmente há algumas boas exceções neste amplo descaso público. E uma delas é a Estação de Guaratinguetá.

Passear pela agradável Guaratinguetá já é um passeio turístico altamente recomendável. A cidade do interior paulista é uma das mais interessantes do Vale do Paraíba e é também a terra natal de Frei Galvão, onde há até um museu dedicado a ele. A estação ferroviária local, é também uma de suas grandes atrações.

O prédio atual da Estação de Guaratinguetá é a terceira edificação ferroviária da cidade. A primeira foi construída no local ainda no século 19, em 1877. Anos depois, com a deterioração na primeira construção, foi erguida outra ao lado da original em 1890. Assim a primeira edificação ficou como uma espécie de armazém da segunda.

Nos anos 1910, a Central do Brasil e a Prefeitura de Guaratinguetá firmara um acordo para a construção de uma nova estação na cidade. A empresa ferroviária arcaria com o novo prédio e a administração municipal com as obras viárias no local. A ação conjunta levou ao prédio que conhecemos hoje, cuja inauguração se deu  em 01 de novembro de 1914.

Detalhe da entrada da estação de Guaratinguetá

A nova estação inaugurada naquele ano já era então considerada uma das mais belas de toda a Central do Brasil. Construída por Paulo de Frontin, seu projeto arquitetônico tem forte influência vitoriana, algo perfeitamente compreensível tendo em vista as grandes ligações da Inglaterra na implantação da ferrovia no Brasil.

Sua edificação é formada por uma torre centralizada, coberturas individualizadas e acentuado caimento de suas mansardas. Sua construção é feita em alvenaria de  tijolos aparentes, telhado em ardósia e com janelas e portas em arco pleno. Na torre destacam-se os quatro relógios.

Multidão aguarda a chegada de Ruy Barbosa, na Estação de Guaratinguetá

A estação seguiu funcionando até 1996, quando foi desativada pela RFFSA. A partir dai começou um processo rápido de decadência e abandono que a deixou em um estado muito parecido com as diversas estações abandonadas espalhadas pelo país. Tombada pelo CONDEPHAAT, começou a ser restaurada em 2006. Após dois anos de intensos trabalhos de restauro a estação ferroviária de Guaratinguetá foi entregue à população em 2008. Desde então vem funcionando como espaço de eventos e exposições.

Um trem turístico saindo da Estação da Luz com destino a Guaratinguetá seria uma ótima maneira de dar vida a esta magnífica estação, que convive sempre com pouco público. Estações precisam funcionar como estações e não serem transformadas apenas em mero espaço expositivo. Já imaginaram o quanto estas cidades do interior do Estado poderiam arrecadar com turismo se as estações fossem reativadas para funcionar pelo menos nos finais de semana ? A estrutura existe, falta colocar em prática.

Veja mais fotos da Estação de Ferroviária de Guaratinguetá (clique na miniatura para ampliar):

Saiba mais:

  • Em 1902 Rodrigues Alves, natural da cidade de Guaratinguetá, embarcou em um trem na primeira estação da cidade rumo ao Rio de Janeiro para assumir a Presidência da República.
  • A praça diante da estação é chamada de Praça Condessa de Frontin. O nome é uma homenagem à esposa do construtor do prédio da estação, Paulo de Frontin, também conhecido como Conde de Frontin (Nota: o título de conde é papal e não imperial).
  • Conheça mais detalhes sobre a Estação de Rodrigues Alves no site Estações Ferroviárias.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Rogerio 05/10/2012 at 14:00

    Excelente matéria, excelente ideia.

    O único trem turístico que existe em São Paulo, sai da estação da Luz e tem destinos para Jundiaí, Mogi das Cruzes e Paranapiacaba. A procura é tanta que não dá conta. É preciso comprar as passagens com pelo menos 1 mês de antecedência.

    Parabéns pelo blog.

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  • Peterson Henrique Freitas 05/10/2012 at 16:14

    Esse seu último paragrafo é um excelente comentário, uma excelente sugestão. O Governo do Estado de São Paulo poderia implantar imagino que a custo relativamente baixo.
    Existe algo muito romântico na idéia de viajar de trem..

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  • Gildo 08/10/2012 at 13:23

    Douglas e demais interessados,

    Achei por acaso um páina com listagem de um organismo português sobre patrimônio brasileiro de origem ou influência portuguesa, algum de São Paulo chamado de SIPA e que vale consultar:
    http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPASearch.aspx?id=0c69a68c-2a18-4788-9300-11ff2619a4d2
    Continue seu excelente trabalho.
    Abraço
    Gildo

    Reply
    • Douglas Nascimento 08/10/2012 at 18:05

      Excelente dica!

      Reply
  • livia 03/11/2012 at 17:37

    a estação foi conservada. ela é muito linda, eu adorei ela.

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  • altair josé alves 26/12/2012 at 22:21

    duas coisas que nunca sai da memória e do coração do pessoal da antiga, é cinema e estação ferroviaria, agradeço a todos que ainda lutam em preservar e restaurar, abraços.

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  • Milyton Tavares Cardoso 20/01/2013 at 22:07

    Q diferença tremendamente grande, tanto a estação de Guaratinguetá como as outras espalhadas pelo Brasil, a atenção social no passado p,ra um desprezo tremendo hj, parece um castigo sem merecimento nenhum de um patrimônio público q teve suas histórias, como o período do café, por ex; vencido pelaconcorrencia rodoviária. A rodoviária não tem história, não, tem IPVA, pedágio, mortes e tal….e tal….

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  • Andréa 20/02/2013 at 16:52

    Pode até ser triste uma estação não ser usada efetivamente como estação, mas convenhamos que tratando-se de Brasil já é um grande avanço ver uma estação restaurada e atraindo ao menos eventos para o local. Claro que o sonho não pode acabar e temos que ter esperança de vermos senão todas, pelo menos grande parte das estações funcionando novamente. Um meio de transporte que poderia facilitar tanto a vida de pessoas que moram em locais mais afastados e que infelizmente se perdeu na memória de nossas autoridades.

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  • Maria Cristina Barbosa 01/05/2014 at 21:06

    Douglas; gostaria de entrar em contacto consigo a respeito de fotos antigas de Guaratinguetá, a fim de utilizar num vídeo comemorativo ao centenário do meu pai, o escritor Francisco de Assis Barbosa,
    natural dessa cidade.

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  • Marco Antonio Chagas 10/10/2014 at 19:55

    Um trem turístico saindo da estação da Luz (capital) em direção a cidade de Guaratinguetá (Interior do vale do Paraíba ou como é conhecido, vale histórico) passaria pela cidade de Aparecida (terra da padroeira do Brasil) Isto seria maravilhoso e poderia se chamar trem da Fé.

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  • Emerson de faria 10/11/2014 at 09:49

    O descaso com o transporte público de passageiros é sintomático da incúria governamental a que parece estarmos condenados. Quando o transporte de passageiros entrou em declínio nos EUA, os americanos, sempre pragmáticos e focados em resultados, criaram uma estatal, a Amtrak, responsável pelo gerenciamento e operação das linhas. Resultado: hoje eles contam com mais de 500 rotas (das quais três também servem ao Canadá), através de mais de 33.000 quilômetros de linhas, operando em 46 dos 50 estados, com 20.000 funcionários. E a Vovó Metralha agora que nos enfiar goela abaixo o trem-bala, sem que haja uma estrutura mínima de trens regionais. Francamente!!! E no exato momento em que se cogita reimplantar o transporte de passageiros, um ponto pouco comentado, seria a localização da estação terminal em São Paulo. O Pátio do Pari, estrategicamente localizado no centro da cidade e conectado à toda malha da CPTM, para mim é o local ideal.

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  • ana flavia alves mira 25/11/2014 at 22:39

    Parabéns exelente trabalho amigo me ajudou em um artigo de opnião e muito na minha escola fizemos sobre a estação de Guaratinguetá..

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