Muita gente escreve para o São Paulo Antiga querendo saber a história de algum imóvel que existe pela cidade. Sempre que recebemos uma mensagem dessa, fazemos o possível para levantar a história do lugar para esclarecer a curiosidade do leitor, que muitas vezes não é só dele, mas também de muitos outros.

E um imóvel que sempre nos perguntam a respeito é este lindo galpão que existe nos números 460 e 474 da Alameda Eduardo Prado.

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Patrimônio histórico paulistano, esta grandiosa construção em tijolos é do início do século 20. Há muitas histórias a respeito do que teria sido originalmente esta, mas boa parte delas são infundadas. Uma que se fala bastante é que o imóvel foi originalmente uma garagem de bondes, o que nunca ocorreu.

Um antigo morador da região nos disse que quando ele era garotinho o local era uma garagem de calhambeques e também fazia reparos em automóveis. Apesar de não podermos afirmar totalmente que ele está correto,  pesquisando em anúncios de jornais das década de 1920 e 1930, descobrimos uma publicidade que pode atestar a declaração:

Correio Paulistano 06 de Janeiro de 1924

A numeração do anúncio diz Alameda Eduardo Prado 37, enquanto o galpão ostenta os número 460 e 474, contudo a numeração paulistana era diferente naquela época. É possível que realmente o local tenha sido uma garagem e oficina.

No passado poucas casas e apartamentos tinham garagens e muitos proprietários de automóveis e motoristas de praça valiam-se de grandes garagens para guardar seus veículos.

Detalhe da fachada (clique para ampliar).

Detalhe da fachada (clique para ampliar).

Na final da primeira metado do século 20, o imóvel teve uma outra destinação a qual foi possível verificar e atestar. Em meados da década de 50, o armazém da alameda Eduardo Prado foi alugado para o conhecido magazine paulista “A Exposição Clipper”. No local funcionava não só o depósito, mas também almoxarifado, departamento de entregas, escritório de compras e, no piso superior, a diretoria da firma.

Crédito: Divulgação

A Exposição Clipper era a junção de duas redes importantes do passado: A Exposição e Clipper. São magazines de uma época que a cidade não possuía shopping centers, mas tinham essas grandes lojas que faziam a alegria do consumo. Casa Alemã, Lojas Clipper, A Exposição, Mesbla e Mappin eram as mais conhecidas delas.

A Clipper, inclusive, é conhecida pela criação de uma das datas que adoramos comemorar, no dia 12 de junho. O “Dia dos Namorados” foi uma criação do publicitário João Dória para alavancar as vendas da rede. É bem possível que nesta época do ano este armazém ficasse bem movimentado. Sua loja mais famosa ficava no Largo Santa Cecília, sendo que o prédio ainda existe e hoje é uma grande agência bancária.

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Com o fim da “A Exposição Clipper” o galpão ficou vazio, mas sua excelente localização e estrutura fazia com que ele logo fosse rapidamente ocupado. No início da década de 90 o local estava sem uso e foi palco de um evento que embora na época não tenha chamado tanto a atenção da imprensa, foi marcante. O armazém abrigou a primeira “rave” de música eletrônica de São Paulo, em 1993.

Chamada de L&M Rave (L&M é o nome do patrocinador, uma marca de cigarros) o evento reuniu nomes da música eletrônica, a época nem tão famosos, que posteriormente se tornaram um sucesso. Em maio de 1993, figuras hoje lendárias, como Moby, Mark Archer e Mau Mau tocaram no lugar, que ficou lotado. O evento, que ainda ocorreu em outras capitais brasileiras foi tão importante que posteriormente virou tema de um documentário (assista-o no final deste artigo).

Absolutamente preservado, o imóvel funciona atualmente como armazém.

Veja mais fotos do galpão (clique na foto para ampliar):

Foto: Douglas Nascimento
Foto: Douglas Nascimento
Foto: Douglas Nascimento
Foto: Douglas Nascimento
Foto: Douglas Nascimento

Documentário “Raving Brazil” que foi gravado, entre outros lugares, neste galpão:

CIA AUTO LUX

Por um breve período de tempo o local também serviu como sede de uma importadora de peças e assistência mecânica de veículos da marca Auto Union.

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About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Ubaldo Pioli 13/08/2014 at 12:52

    Esse armazém também foi depósito do Mappin após a Exposição Clipper. Também foi durante um curto espaço de tempo uma arena de paintball, com algumas carcaças de veículos militares espalhadas pelo espaço.
    Moro praticamente ao lado desse armazém desde 1954. Muita coisa já passou por ele.

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  • George 13/08/2014 at 13:10

    Aconteceu aí uma temporada da peça musical “Hair”.

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    • Douglas Nascimento 13/08/2014 at 15:08

      Não sabia, George! Tem noção de que ano foi mais ou menos para eu pesquisar ?

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      • Jasmim 01/11/2015 at 17:42

        Ola eu gostaria de saber se este galpão se encontra a venda? Não pretendo demulir até porque é tombado mas se caso alguém souber me responda obrigado!

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  • Fulvio 13/08/2014 at 13:54

    Na Al. Eduardo Prado existem outras construções históricas. Nas esquinas com a R. Adolfo Gordo é possível encontrar 2 casarões, um deles totalmente restaurado e outro em sem conservação e aparentemente invadido por moradores sem teto.

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    • Dr Francisco Silva 02/05/2018 at 11:34

      Invadido não,… ocupado por pessoas que vendo o abandono que se encontra o imóvel enquanto não se tem onde morar por falta de condições sociais. Tem gente que tem muito, até para abandonar, enquanto outros sequer tem onde abrigar sua própria família. É muito fácil acusar os mais humildes enquanto tem posses e de barriga cheia. Culpo os governos que só olha por quem tem posses a ponto de abandonar suas próprias propriedades e abandona seus cidadãos mais humildes que sequer tem onde se abrigar. A isto chamo de INJUSTIÇA SOCIAL.

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  • Ofelia 13/08/2014 at 14:04

    Prof Douglas, não perco nenhuma publicação sua, aproveito a oportunidade para parabenizá-lo e agradecer seu excelente trabalho.

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  • Chico Lobo 13/08/2014 at 17:43

    O grande Galpão da al Eduardo Prado (Morei a 150 metros dele de 1957 a 1993) também foi um set de filmagens para cinema e publicidade nos anos 80… Não sei precisar exatamente a data.
    Também foi palco de teatro para a apresentação da peça “Suz O Suz” do grupo basco La Fura del bauls no ano de 90 ou 91

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  • Antonio Santtini 14/08/2014 at 15:48

    Este, esta protegido pela Resolução SC- 20, de 23-04-2013.

    Referente ao imóveis localizados na ALAMEDA EDUARDO PRADO, 460/474, CAMPOS ELÍSIOS, SÃO PAULO – SP

    Resposta: Considerando o disposto na Resolução SC- 20, de 23-04-2013,

    os imóveis em questão são tombados pelo CONDEPHAAT,
    ou seja, estão dentro das áreas de legislação do Condephaat conforme Decreto 13.426, D.O. 16/03/79 Artigo 134

    “Os bens tombados não poderão ser destruídos, demolidos, mutilados ou alterados, nem sem prévia autorização do Conselho, reparados, pintados ou restaurados..”.
    Uma vez que incide legislação de preservação estadual sobre os imóveis, quaisquer obras a serem neles realizadas necessitam de aprovação prévia deste órgão. Esclareça-se que a presente informação não isenta o interessado da necessidade de consulta aos demais órgãos municipais, estaduais e federais.

    Processo 71929.

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  • Gualberto Cappi 15/08/2014 at 12:45

    O que me deixava maravilhado, durante as minhas primeiras andanças no centro de Sao Paulo, uns vinte anos atraz, era a quantitade, bem escondida dentro de uma confusao de predios modernos, altos e “sem jeito”, e de uma atmosfera geral de abandono, de peças notaveis de arquitectura industrial da grande respiro e qualidade, atè monumental, como aquela do predio aquì retratado.
    Nestas caminhadas as minhas dua passoes, a arqueologia e a arquitetura, estavam perfeitamente misturadas.
    Mas, se de uma lado pra mim era uma joia e um indecivel prazer estetico descobrir tantas “ruinas” de um passado evidentemente tao importante e ao mesmo tempo tao esquecido, do outro lado me perguntava como isto podia acontecer, quando estes espaços, grandes, bonitos eram, graças a suas dimensoes e arquitetura, perfeitamente reaproveitaveis, como testemunhado no mundo inteiro, em quanto em Sampa tudo era abandonado e decadente. Alias, eram areas da cidade onde, entre casas oberarias em estilo “ingles” e velhos galpoes, ainda tinha uma urbanistica e uma arquitetura incrivelmente unitaria para a caotica Sao Paulo, embora tudo fosse “diligentemente” abandonado, quando nao “perfeitamente” em ruinas; mas eu adorava estes pequenos cantinhos da cidade, decadentes e parados no tempo, pensando tambem como eles podiam facilmente ser re-vitalizados de um jeito muito bonito pra os dias de hoje, entre casas recuperadas, arvorizaçao e galpoes prontos a receber atividades culturais, como comerciais, como, porque nao, artesanais.
    Como o Douglas sabe, porque escrevi um artigo sobre este tema e sobre o trabalho do nosso heroico Douglas alguns anos atraz por uma revista de arquitetura italiana, eu ainda espero que um dia a cidade de Sao Paulo (que eu, italiano, amo) vai mudar e aprenda que qualidade de vida nao faz sempre rima com destruiçao do passado, especulaçao imobiliaria e condominios com nomes exoticos e terraça gourmet.

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  • Gustavo Rodrigues 11/09/2014 at 10:07

    Pessoal, estou a procura de um galpão para gravação de cenas de um vídeo clipe.
    Como George comentou sobre a gravação da peça musical “Hair”, imaginei que pudesse dispor desse espaço para a gravação do vídeo clipe.

    Se alguém souber quem administra ou qualquer contato do galpão, será de grande ajuda.

    Obrigado!

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    • Ubaldo Pioli 16/02/2015 at 20:33

      Esse galpão não está vazio, ele é ocupado por um importadora de material de bicicletas.

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      • Felippe Ribeiro 19/01/2017 at 15:19

        Olá boa tarde Ubaldo, esse galpão esta sendo usado? Eu trabalho na redaçao de uma revsta de moda, e queremos fazer umas fotos nessa locação, voce teria o contato do galpão ou sabe como posso posso conseguir?

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  • Sonia Asturiano 06/12/2014 at 00:36

    Eu trabalhei na Clipper do Santa Cecília em 1961. Gostaria muito de encontrar uma amiga querida que trabalhou lá, por nome Veti Carbajo.. Quem sabe um dia eu a encontro. Moreninha, baixinha.

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  • danielpardo2015 01/03/2015 at 22:29

    Em 1993 a “dance music” ou “poperô” ou “puts puts” para os íntimos ainda bombava como nunca nas rádios.

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  • José Fernandes Franzolin 01/11/2015 at 18:55

    Trabalhei na Clipper de 66/73, neste perildo ali funcionava a Ind. de Roupas Patriarca e era do grupo MACSA ( Modas a Exposição Cliper S.A , a onde era fabricada as roupas exclusivamente da vendidas em suas lojas,

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  • Rodolfo 22/11/2017 at 23:06

    Caros amigos. Sou o proprietário do imóvel e fiquei muito feliz com a matéria do amigo Douglas Nascimento. Realmente muito fiel aos fatos. Parabéns pela pesquisa!
    Este imóvel já está na família há 3 gerações e temos muito carinho por ele.
    Meu avô foi um dos contadores da família Matarazzo e foi por intermédio do conde, que comprou este imóvel.
    Está alugado há mais de 20 anos para o mesmo inquilino, que mantém a aparência externa “aparentemente” sem cuidados, mas por dentro está impecável.
    Cheguei a jogar paintball no local (Colliseum Paintball), que era a maior área coberta de paintball da América Latina e acompanhei toda a montagem da peça Hair, dirigida pelo diretor Jorge Fernando, da rede Globo. Na época, levou vários “globais” para o elenco e produção.
    Foi também uma produtora, que tinha o genial e querido Mauricio de Souza da turma da Mônica, como um dos sócios.
    Vi também a peça La Furia del Baus, que ocorreu no local e essas festas Rave, que na época eu era muito novo para frequentar.
    Realmente ele tem muitas histórias boas pra contar! Se alguém quiser mais informações, ficarei feliz em passar.
    Abraços

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    • Leia Camara Serra 23/01/2018 at 07:29

      A maioria das datas comemorativas repetidas anualmente como Dia das Mães, dos Namorados, dos Pais, das Crianças e Natal são excelentes para aquecer as vendas do comércio. Às campanhas publicitárias e promocionais resta a difícil missão de atribuir sentimentos ao calendário comercial e incentivar a troca de presentes. A ligação de profissionais de ­marketing com estas datas é histórica. O Papai Noel, por exemplo, como suas roupas vermelhas e detalhes brancos, foi lançado pela Coca-Cola no século 19. Já o Dia das Mães foi instituído no Brasil em 1948 pela Standard Propaganda, materializando ideia do publicitário Fritz Lessin e do então diretor de marketing da rede de varejo Modas A Exposição ­Clipper, Ribamar Castelo Branco. O sucesso foi tamanho que, no ano seguinte, a mesma dupla instituiu no País o Dia dos Namorados. João Doria trabalhava na mesma agência nesta época mas não fazia parte da equipe de criação, apenas negociou valores de produção e veiculação. João Doria nunca soube desenhar, e jamais criou sequer um título de anúncio ou slogan memorável. O negócio dele era fazer lobby político. Então, para se destacar nessa ocasião, saiu espalhando para a imprensa que a ideia tinha sido dele. Uma grande mentira que já foi comprovada por pesquisadores sérios.

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    • Ibe Vidal 25/04/2018 at 12:46

      Boa tarde Rodolfo. Sou Ibe Vidal e nos anos 80, juntamente com meus sócios, implantamos a Central Fathom de Produções neste seu local. Em 88 mudei-me para a Europa e soube que um de meus sócios ( Claudio Lazarotto ) continuou com o edifício, ainda como produtora cinematográfica e depois com a paint ball.
      Tenho enorme apreço por este local e gostaria de saber – parece que vi uma placa de venda da última vez que por lá passei – se existe mesmo o interesse de venda ou eventual arrendamento.
      Agradeço o retorno e atenção.
      Ibe Vidal ( ibevidal@gmail.com )

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  • Ibe Vidal 25/04/2018 at 12:29

    Boa tarde. Gostaria de saber quem é o proprietário deste galpão da Alameda Eduardo Prado e se existe interesse em venda ou arrendamento para uso cultural. Agradeço desde já a atenção.

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    • Rodolfo 27/04/2018 at 13:05

      Boa tarde. Eu sou o proprietário e temos interesse sim. Por favor entre em contato através do email rodolfoabbondanza@gmail.com

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  • Dr. Francisco Silva 02/05/2018 at 11:25

    É intrigante como a ocupação de imóveis tão valorosos e históricos de nossa cidade é feita ou abandonada pelo estado e pela sociedade. Conheci esse imovel desde criança pois eu morei a 200 metros do local. Vi acontecendo muitas coisa lá, desde deposito da Clipper, até espetáculos internacionais de teatro ( Grupo SUS O SUS da Espanha). Aquele espaço deveria estar ao menos a disposição de atividades de arte e cultura pelas condições que oferece. Mas, nem o estado e nem o governo se interessa em valorizar seus imoveis abandonados. Uma lástima impagável…

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