Uma das perguntas que mais chegam ao nosso site é sobre a origem do nome de bairro e cemitério Chora Menino. Todos que questionam querem saber de onde este nome curioso e peculiar teria surgido.  A nomenclatura não tem uma origem cem por cento confiável pois se baseia em lendas. Mas as lendas mais conhecidas são tão intrigantes que vamos colocá-las aqui.

Na foto, a Capela do Chora Menino de 1897

Na foto, a Capela do Cemitério de Santana, ou Chora Menino, erguida em 1897

A ORIGEM DO NOME E DA LENDA DE CHORA MENINO:

Não se sabe ao certo quando o bairro Chora Menino foi fundado com este nome oficialmente, porém desde meados da segunda metade do século 19 já haviam registros deste nome em jornais paulistanos e documentos públicos.

Na verdade Chora Menino é ponto de partida para duas teorias muito interessantes sobre a origem deste nome e ambas, apesar de jamais terem sido confirmadas oficialmente devido a inexistência de registros, tem forte respaldo entre os moradores mais antigos da região.

Uma delas é difícil de crer pela data. É a que afirma que uma epidemia de varíola que atingiu São Paulo em 1875 fez inúmeras vítimas crianças e jovens na zona norte da cidade, especificamente na região hoje conhecida como Chora Menino. Ao sepultarem seus filhos no cemitério local os pais choravam pelos meninos na capela cemiterial, dando origem ao nome. A história não é crível pelo fato de que a capela e o cemitério só surgiram duas década depois.

Outra história é um tanto horrível mas pode ser mais plausível. Segundo reza a lenda, nas proximidades do cemitério existia uma casa onde residia uma mulher sinistra, que jogava bebês recém-nascidos abandonados pelos pais em sua porta, em um vale próximo para serem devorados por animais, como urubus. O grito das crianças chorando teria dado força ao nome “Chora Menino”. Mas para outros os gritos mais céticos o “choro de menino”eram eram simplesmente miados de gatos no cio.

O curta metragem a seguir, explora esta lenda com bastante talento:

O BAIRRO CHORA MENINO:

Apesar de muitos ignorarem, o bairro Chora Menino não é uma lenda e existe até hoje. As primeiras menções ao bairro estão no século 19 conforme explicado acima, mas nos mapas da cidade sua presença é mais claro a partir dos primeiros anos do século 20.

O mapa abaixo, de 1913, mostra claramente a região que, apesar de pouco povoada já tinha ligação para a rua Alfredo Pujol e para o Tramway da Cantareira. Os principais caminhos para o Chora Menino eram a rua da Cantareira (depois renomeada para Marechal Hermes da Fonseca) e a Estrada para o bairro Chora Menino, hoje conhecida pelo nome Alameda Afonso Schmidt.

Mapa de São Paulo do ano de 1908

Mapa de São Paulo do ano de 1908

O mapa acima, aliás, foi publicado pouco depois da mudança do nome da rua da Cantareira para Marechal Hermes da Fonseca. A alteração foi devido ao fato de no Brás já existir uma rua com este mesmo nome, onde hoje temos o Mercado Municipal. Como a nomenclatura da rua do Brás era oficial e a da zona norte era popular, foi decidido pela mudança para não confundir a população.

Abaixo o projeto de lei oficializando a mudança:

Fonte: Correio Paulistano - Edição 16128 página 3, ano 1908

Fonte: Correio Paulistano – Edição 16128 página 3, ano 1908

E o decreto publicado:

Fonte: Correio Paulistano - Edição 16141, página 4 - ano de 1908

Fonte: Correio Paulistano – Edição 16141, página 4 – ano de 1908

É possível observar no mesmo mapa que o bairro ainda era um grande vazio. Com pouca coisa descrita nele, mas já com a presença do Quartel Federal do Exército e o Cemitério. O mapa também mostra que além das ruas citadas acima outras também mudaram de nome, mesmo sem precisarem. A antiga Estrada para o Bairro do Limão também passou a ser chamada de Alfredo Pujol e a Rua Duprê hoje faz parte da rua Dr. César.

Hoje o bairro de Chora Menino é parte do subdistrito de Santana e tem como seu limite mais ao norte a Avenida Eng. Caetano Álvares e como limite mais ao sul a Rua Nova dos Portugueses.

Será que a tal mulher que jogava crianças no vale realmente existiu ? Ou tudo não passou de uma lenda assustadora ? Para quem tem curiosidade de saber onde seria a suposta casa desta figura lendária do Chora Menino, a tal residência teria existido na esquina da rua Coronel Evaristo de Campos.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Anderson Cesarini 11/02/2016 at 14:11

    se puderem assistam a este aqui também : https://vimeo.com/154192742

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    • Alessandro R Monteiro 07/03/2016 at 23:52

      passei os anos 80 e me sinto privilegiado eterno Bozo

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  • Gilberto 11/02/2016 at 21:18

    Muito bacana, Douglas. Será que vc não consegue um mapa desses onde mostrasse toda a linha dp Tramway da Cantareira? No mapa acima dá pra ver a estação na esquina da Alfredo Pujol com a Voluntários da Pátria. Seria legal ver onde eram todas as paradas do trem.

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  • edilson 11/02/2016 at 21:26

    Anderson, Parabéns ,muita força e continue com esse trabalho de informação que você nos fornece pois infelizmente vivemos num país no qual se dá pouca importância a preservação da memória e do patrimônio cultural de todas as formas de expressão ( teatro,cinema, arquitetura…….),
    Abraços !!!!!!

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  • Bárbara Pimentel 11/02/2016 at 22:45

    Minha família paterna é de Santana e me lembro que meu avô adorava passear pelo cemitério. E ele ia andando dizendo quem era quem nos jazigos: amigos, patrões, vizinhos, professoras… com muita economia e sacrifício ele não sossegou enquanto não comprou um jazigo para acomodar todos os Pimentel, contrariando minha avó – “homem teimoso, quando ele cisma com uma coisa…” – dizia ela. Mas quando esta companheira de 65 anos partiu e desejou se juntar aos dela em outro jazigo, ele aceitou e deixou bem claro pra gente: que qdo chegasse a sua hora, que o deixassem junto dela pq para ele já não fazia mais diferença entre Pimentel ou Chemin, a saudade não fazia tanta questão de local….

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  • Wellington castilho 12/02/2016 at 00:15

    Muito bom esse documentario sera q vcs tem algum relato sobre a menina daniela ap. Castilho 14 anos q morreu dentro do cemiterio chora menino no ano de 1994. Eu sou o irmao caçula dela e tenho poucos relatos sobre o q aconteceu realmente

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    • Douglas Nascimento 12/02/2016 at 08:51

      Wellington, como vai ? Me dê alguns detalhes para que eu possa investigar.

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      • margarida 16/02/2016 at 19:03

        o que eu sei sobre a menin a e que ela fazia parte de um grupo de jovens e resolveram todos passar a noite no cemiterio . e que um deles fazia gracinhas para assustar os colegas e ela foi correr e tropecou em um dos tumulos e bateu a cabeca. a mae dela morava numa casinha onde hoje passa o onibus a mae dela fazia limpeza em minha casa nessa epoca e contou para mim e chorava e parou de trabalhar. isso se for a mesma pois as datas batem.

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      • margarida 16/02/2016 at 19:10

        sou do bairro la em baixo na engenheiro onde antes valia muito pouco o lote hj, esta muito valorizado quando avenida comecou a ser feita eu fazia faculdade e nao con seguia estudar ia la para o horto porque tambem eu trabalhava na prodesp a noite enfim dormia somente duas horas. quando a av. ficou pronta tenho fotos plantaram arvores mudas e la ia eu com meu fusca verde e regador e baldes de agua para regar as arvores hoje me orgulho do meu pedacinho de chao.fiz ate um mirante no sotao da casa para ficar olhando povo andar a noite com suas familias e seus animaizinhos tenho orgulho e amo meu lugar.vim do interior cidade de Taqyaritinga SP. mas nao troco por lugar nenhum ali no Lauzane Paulista e tudo lindo. e ttradicional.amo o local.

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      • margarida 16/02/2016 at 19:13

        a historia da mulher e verdade e ela morava onde hoje e o cemiterio e o morro que ela jogava era a rua nova dos portugueses. me contou esta estoria uma antiga senhora quando eu era crianca e editora abril iniciou ali onde e a faculdade mozarteun era uma fabrica de botoes onde crianca pregava nas cartelas para ganhar dinheiro para comprar cadernos doces coisas de crianca . sei de algumas coisas.

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      • margarida 16/02/2016 at 19:15

        as criancas jogadas para m orrer eram de senhoras da sociedade de bairros abastados que tin has romances secretos e naquele tempo poderiam ter castigos e nao tinham como evitar a gravidez.

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      • margarida 16/02/2016 at 19:18

        douglas conheco pouco de informatica mas se vc recebeu meus comentarios me de retorno.obrigada hj estudo turismo na Etec do litoral. e sempre me interessei por estorias dos bairros anttes e o de pois coisas que as pessoas contas . precisamos analisar as narrativas aqui e ali e ver os pontos de ligacoes dos fatos,

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      • margarida 16/02/2016 at 19:25

        lembro que na Av engenheiro CAETANO alvares bem ali onde hj e um escadao me tio tinha um grande terreno edo lado haviam muitas minas elas ain da existem mas e um pecado o condominio mattou todas as nascentes onde eu bebia agua . olocal pertencia a familia pitta de portugueses. ali onde ha outro predio eu brincava de balanco nos eucaliptos e tinha muita cobra sapos etec e nuna ninguem ficou doente. sou do tempo que o rio hj canalizado era apenas um riachinho. depois conto mais coisaas abracos a todos.

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  • Oswaldo L. Fuzaro 12/02/2016 at 08:38

    Minha vó e meus tios que moravam lá quando nasci em 1953, contavam que as pessoas que vinham de mairiporã e cantareira pra sp passavam por lá próximo ao cemitério e muitos ouviam os choros e bebes á noite e claro que eram gatos no cio, mas a noite num lugar ermo com muito mato e vegetação dava medo. Passavam pela rua hoje Nova dos Portugueses e minha família morava no Rua do Caminho do Chora Menino hoje Alameda Afonso Schmidt, nome dado na década de 1960. abraços.

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  • Marileide 12/02/2016 at 11:21

    Sempre ouvi dizer que o nome era devido ao miado dos gatos, parecem crianças chorando, principalmente à notei

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  • Vandira Bernardo Cunha 12/02/2016 at 16:55

    Parabéns, e continue descobrindo histórias assim tão importantes para nossas vidas.Nossa, me deu até arrepio essa história das crianças, fiquei curiosa..

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  • Maria Aarecida 17/02/2016 at 14:12

    Nossa nasci na rua do cemitério, em 1953 meu avo Benedito e meu tio Osvaldo era construtores de tumulo no cemitério a anos quando nasci fomos donos da casa na rua do cemiterio até ela ser desaproriada e nunca ouvi,nenhuma dessas estórias,estou impressionada!!!!

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  • Sérgio Paoli 04/03/2016 at 22:02

    Será que seria interessante que, colocássemos um link de compartilhamento em cada post?
    Gostaria de compártilhar com amigos aquilo que recebo!
    Obrigado.
    SPaoli
    spaoli@sapo.pt

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    • Douglas Nascimento 05/03/2016 at 10:42

      Olá Sérgio, no final de cada artigo existem as opções de compartilhamento. Abraços

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  • Daniel Pardo 10/04/2016 at 21:50

    Já imagino a “crássica” cena do cemitério a noite com os miados dos gatos ao fundo.

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  • oswaldo luiz fuzaro 11/04/2016 at 09:06

    A história dos gatos a noite serem confundidos com choros de bebês, foram contados por meus tios e avós que se mudaram para Santana no começo do século XX por volta do ano de 1912, ;meus avós paternos foram para a Cantareira próximo da antiga estação do Tremembé, do trenzinho por volta de 1910 e meus avós maternos moravam na rua Olavo Egídio em Santana e se mudaram na década d e 1940 para o Chora Menino, se a história é verdadeira oou ficção, não sei; é o que eles contavam.

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  • Gonçalves 24/08/2016 at 12:54

    Uma lição que a vida me ensinou é a seguinte : Toda história tem um fundo de verdade, pode ser 1%, mas tem ! Talvez não fosse a velha senhora, talvez o local fosse frequentado por pessoas para “descartar” filhos indesejados.

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  • Bianca Martins 25/10/2016 at 14:45

    Oi Douglas….estou procurando histórias sobre uma vila de tijolos aparentes que tem na rua marechal Hermes da Fonseca e acabei caindo nesse site…será que voce conhece alguma coisa sobre essa vila ou algum morador que leia meu comentário ?

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  • Celso P 08/11/2016 at 18:41

    Por alguma desconhecida razão, a população paulistana tem mania de subdividir os bairros criando novos nomes. Qualquer conjunto de meia dúzia de ruas já forma um novo bairro destacado do original. A quantidade de ‘vilas’, ‘jardins’ e ‘parques’ é tamanha que chegavam a sobrepor-se no antigo e célebre Guia de Ruas Mapograf.

    Chora Menino, Jaçanã, Caxingui, Veleiros, Eldorado, Mandaqui, Peruche, Morumbi e Carandiru, são alguns nomes que estão caminhando para a extinção. Deverão ser substituídos pelas genéricas ‘vilas’ ou ‘jardim’.

    O ‘Eldorado’ por exemplo era um bairro formado por grandes chácaras nas margens da represa Billings. Com a favelização, os novos moradores que foram chegando a partir dos anos 60 criaram novos nomes, subdividindo o bairro. O nome ‘Eldorado’ hoje designa muito mais seu irmão siamês na vizinha Diadema.

    Já o ‘Carandiru’ foi apagado da memória com a demolição do presídio e a construção do parque. Na hora de batizá-lo, o que seria naturalmente o ‘Parque do Carandiru’ virou um tal ‘Parque da Juventude’, nome que não traz qualquer referência histórica do lugar. Talvez a intenção tenha sido deliberadamente apagar o passado tenebroso do presídio.

    É assim que a memória urbana vai sendo esquecida.

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  • Renata 22/12/2016 at 13:06

    Achava que chora menino era por outro motivo. Achava que fosse um bairro muito violento e quem fosse parar por lá, o pessoal falava: chora menino…rs…Doidêra.

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  • Vitor erick 09/05/2018 at 07:29

    Eu queria que você me explicase uma música relacionada a isso.
    E uma música de capoeira que fala
    No Torino chora mulher e chora menino
    Eu sei q tem relação a essa história

    Reply

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