O hábito diário e corriqueiro de ler charges e tiras de quadrinhos nos jornais é um hábito antigo. Hoje, não podemos imaginar os jornais sem as charges políticas ou os famosos quadrinhos. Tais tiras consagraram o talento artístico de muitos cartunistas brasileiros da atualidade como Fernando Gonzales (Niquel Náusea) Angeli (Rê Bordosa, Wood Stock etc) e Glauco (Geraldão). Porém, charges e cartuns são mais antigos nos periódicos de que podemos imaginar, e um dos maiores expoentes desta arte no Brasil foi Belmonte.

Crédito: Folha ImagemOriundo de uma era em que charges nem sempre eram bem vindas pelos poderosos, numa época onde havia a ebulição da ditadura Vargas, da Revolução de 1932 e o cinzento período entre guerras mundiais, Belmonte concebeu seu inesquecível e impagável Juca Pato.

Através da arte de Belmonte, Juca Pato era um defensor da classe média paulistana. Homem simples, trabalhador, honesto, fazia o possível para deixar suas contas em dia. Sempre bem vestido de terno e gravata era um típico paulistano frustrado. Usava óculos, era magro e careca “de tanto levar na cabeça”, e em suas tiras destacava o desamparo do trabalhador e protestos contra o governo. Não deu outra: Juca Pato tornou-se popular.

Seu lema era “podia ser pior”. Um bordão que boa parte da população brasileira leva a sério até os dias atuais. Falamos de um personagem que ilustrou o jornal Folha de São Paulo precisamente em 1925 até a década de 40. Coincidência ou a situação do trabalhador não mudou muito ?.

A seguir, um trecho publicado na Folha da Manhã em 20 de junho de 1929 onde Juca Pato é contra a privatização (Neste texto foi mantida a grafia original):

“A gente tem de ser brasileiro até a medula do vão do dedo, dê no que dér. Esse negocio de extrangeiro se metter na vida do proximo, mesmo com os seus capitaes, não póde ir assim de arrastão. Talvez os senhores se lembrem de que ha já alguns annos o governo cogitou de encampar a City de Santos, empresa respeitabilissima que explora agua e bonde na terra de Braz Cubas.”

No parágrafo acima percebemos que Juca Pato é um fervoroso defensor do solo brasileiro. Extremamente inteligente e antenado quando se fala sobre a história do Brasil, Juca Pato é o reflexo de seu caricaturista. Belmonte colaborou com Monteiro Lobato para ilustrar algumas de suas obras infantis. Também foi um colaborador fervoroso do autor Viriato Corrêa. Um exemplo é o livro “A Bandeira das Esmeraldas” um livro juvenil que explica a história de índios e bandeirantes, ricamente ilustrado com nanquim. Ele escreveu diversas crônicas e suas charges sobre a Segunda Guerra Mundial percorreram o mundo.

Profundo conhecedor da história do Brasil, precisamente sobre a história dos bandeirantes, escreveu na década de 40 “No Tempo dos Bandeirantes”. Livro de cabeceira para quem quer conhecer com mais afinco a história dos desbravadores brasileiros. Neste livro, tendo sua primeira edição na década de 40 e revista em 1998 Belmonte também o ilustrou.

No Tempo dos Bandeirantes

Benedito Bastos Barreto, o Belmonte, viria a falecer em 1947 no Hospital São Lucas vítima de tuberculose. São Paulo toda se despediu não apenas do criador de Juca Pato, mas sim, despediu-se de um idealizador que queria viver numa cidade melhor, com direito iguais. Está sepultado no Cemitério São Paulo e seu túmulo merece ser visitado. Belmonte está de pé e segura a sua criação, o seu livro No Tempo dos Bandeirantes. Ao lado, um relevo de Juca Pato ilustrando o seu túmulo com um detalhe, Juca Pato está de olhos fechados e com as mãos no bolso. Parece que ele também está morto e foi sepultado junto com o seu criador.

Em 1962, A união Brasileira de Escritores, idealizou o Troféu Juca Pato para o intelectual do ano. A idéia partiu do escritor Marcos Rey, premiando quem tenha produzido obra que estimule o debate de idéias.

Juca Pato

E Juca Pato continua na sociedade paulistana, ou melhor, todos temos um Juca Pato em nós, só precisamos estimulá-lo intelectualmente.

Ilustrações: Belmonte

About the author

Licenciada em História, é pesquisadora e professora da rede pública e particular em Guarulhos. É co-fundadora da Associação Guarulhos tem História e Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC). Co-autora dos livros "Guarulhos tem História" e "Guarulhos: espaço de muitos povos".

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Comments

  • SERGIO MUNIZ 31/07/2014 at 17:02

    Tem uma filha residente sem GUARIBA-SP, Dª LAIS BARRETO SADALLA.

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