O cemitério é considerado a morada final. Local onde as pessoas repousam após suas vidas terem fim. Por isso os cemitérios deveriam ser locais bem cuidados, limpos e preservados, de maneira que as novas gerações que se sucedem possam ir de encontro a seus antepassados sempre de forma digna e respeitosa.

No entanto, não é sempre que isso acontece. Estudos afirmam que a preservação de uma sepultura dura em média três gerações, salvo em casos de famílias mais religiosas, que estendem o respeito aos mortos e a preservação de lápides e memoriais por mais e mais gerações.

Alguns cemitérios, contudo, sofrem por serem especiais. São necrópoles que por alguma razão não são públicas ou são restritas, como por exemplo cemitérios abandonados em cidades que desapareceram ou mesmo os hoje extintos cemitérios de leprosos, que eram evitados até por familiares dos sepultados.

Em Cubatão, um espaço mortuário cujos sepultados são palco de uma história inusitada sofrem com o esquecimento. É o Cemitério das Polacas.

Fundado em 1929 pela Associação Beneficente e Religiosa Israelita de Santos e oficialmente conhecido como Cemitério Israelita de Cubatão, a necrópole ocupa um pequeno espaço dentro do cemitério municipal. Nele existem 75 lápides, sendo 50 delas de mulheres.

Conhecidas como polacas, essas mulheres desembarcaram no Brasil ainda bem jovens, com promessa de encontrar trabalho em uma nova terra, mas ao desembarcar por aqui eram forçadas a se prostituirem. Ao chegarem tinham como destino a região portuária de Santos e também a cidade de São Paulo.

Atualmente o cemitério em questão encontra-se dentro do Cemitério Municipal da cidade, mas na época em que as polacas se fixaram na zona portuária, Cubatão era distrito de Santos. A emancipação política da cidade ocorreu em 1949.

Em 1996 o cemitério estava em péssimas situações e naquele momento foi assumido pela Associação Cemitério Israelita de São Paulo (Chevra Kadisha), que restaurou as sepulturas ali presentes e passou a zelar por sua preservação.

Passado duas décadas de seu restauro, o cemitério encontra-se em uma situação triste. Após entrarmos na necrópole, a convite do pessoal do CONDEPAC (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão), encontramos um cenário desolador e indigno para as pessoas ali sepultadas.

Mato alto (em algumas áreas com mais de um metro de altura), lápides quebradas e insetos dominam o local. O cenário contrasta com as poucas fotografias de mulheres que ainda resistem nas lápides.

Retrato de uma das lápides do cemitério (clique para ampliar)

Descriminadas em vida, como já descrevemos em outro artigo, parecem seguir descriminadas na morte, esquecidas e escondidas como se fossem parte de uma história que alguns preferem esconder.

clique na foto para ampliar

Por ser o primeiro cemitério israelita do país a ser considerado patrimônio histórico, o local deveria estar melhor preservado. A reportagem do São Paulo Antiga visitou o cemitério em quatro oportunidades este ano, respectivamente em janeiro, fevereiro, maio e junho e em toda as vezes o cenário foi sempre o mesmo, de esquecimento.

Para se aprofundar na história do local, o São Paulo Antiga entrevistou a pesquisadora Evania Martins, especialista na história das polacas e do Cemitério Israelita de Cubatão. No vídeo abaixo ela fala com nossa reportagem sobre a história do local, assistam:

Veja uma galeria de imagens com fotos do Cemitério Israelita de Cubatão:

AGRADECIMENTOS:
Rubens Brito – Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão
Evania Martins

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Joao 06/07/2017 at 16:20

    Com todo respeito, mas quem deveria pagar por isso?
    Cemitérios são espaços que só ocupam espaço e não trazem nada para quem aqui está.
    É lamentável o estado, mas deveríamos cuidar dos restos de pessoas que não possuem quem cuidar?

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    • Luiz Henrique 07/07/2017 at 17:21

      Não entendi.

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  • Samuel 07/07/2017 at 10:23

    Muito legal! Vocês podem disponibilizar um link para a tese da Evania?

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    • Douglas Nascimento 07/07/2017 at 10:54

      Vamos pedir pra ela e assim que ela disponibilizar atualizaremos a matéria com o link

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  • Almir 07/07/2017 at 10:30

    Gostaria de deixar uma sugestão de reportagem sobre a prostituição na cidade no bairro do Bom Retiro nas décadas de 20/30/40 e a posterior migração para a atual boca do lixo. Como teriam as prostitutas tomado o prédio da Rua Barão de Limeira, Ed. Itatiaia, ou o famoso 69, que a décadas servem para esse ofício.
    Sobre as polacas, reportagem excelente…

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  • Daniel Pardo 08/07/2017 at 21:05

    Aqui no Brasil quando se fala de prostituição é aquele negócio: todo cara já frequentou a “ZBM”, mas na hora de falar sobre isso, o povo daqui é “boko haram”, ou seja, ninguém sabe, ninguém viu, se bem que diz na reportagem que elas só eram discriminadas pelos seus, mas mesmo assim, duvido que na época em que elas existiam, o discurso não era moralista também.

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  • Carlos Pimentel Mendes 09/07/2017 at 23:19

    http://www.novomilenio.inf.br/cubatao/ch054.htm

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  • Diego Ruivo 10/07/2017 at 17:00

    Cubatão foi emancipada política e administrativamente em 1949, e não 1969.

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  • Maria Fernanda Tanaka 30/07/2017 at 18:59

    ninguém assumiu as bisavó puta, é foda !

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  • John Heinrch 11/11/2018 at 23:09

    Verdadeiramente é um descaso. Aqui no município de Morrinhos temos 4. Dois na zona rural que a prefeitura cuida e dois na cidade. Aqui os protestantes tinham que enterrar junto com os indigentes e assassinos, não católicos, que era a parte “separada” dos romanos. So mudou depois da morte da filha do reverendo que eram muito querida pelas criancas amigas romanas. Um outro cemitério no município transformou se em lavoura de soja, sem dó e respeito. Hoje podemos enterrar nossos parentes junto aos romanos. Local de respeito.

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