Corridas de turismo existem praticamente desde que o automóvel foi inventado. E essa modalidade de automobilismo também chegou bastante cedo no Brasil e em São Paulo.

Contamos aqui já, inclusive, a história do Primeiro Grande Prêmio de São Paulo, ocorrido em 1936. Entretanto 20 anos antes, em 1916, aconteceu outra estreia por aqui. O primeiro Raid São Paulo – Ribeirão Preto.

O Competidor J.WIlson e seu chofer a bordo de um Ford Modelo T

A prova entre as duas cidades foi uma criação de Antônio Prado Jr através do Automóvel Club de São Paulo. A ideia era que automóveis das mais diversas marcas colocassem seus veículos à prova em uma corrida que testasse a resistência dos veículos.

Afinal, convenhamos, se hoje ainda é longe ir de carro até Ribeirão Preto, imaginem isso há um século atrás, com estradas precárias e automóveis rudimentares.

O recorte de jornal abaixo, do jornal Correio Paulistano, apresenta o itinerário desde a capital paulista, cuja largada deu-se no Jardim da Luz, até a cidade de Campinas (observem que muitos destes caminhos mudaram de nome de lá para cá):

Correio Paulistano 02/06/1916

Infelizmente não foi possível encontrar o restante do itinerário entre Campinas e Ribeirão Preto. Mesmo o jornal anunciando que o restante sairia na edição seguinte do Correio Paulistano, acabaram não publicando.

Para apoiar e incentivar os competidores da Taça Ribeirão Preto, nome oficial do Raid, o próprio Antônio Prado Jr percorreu o trajeto da disputa dias antes do início da corrida oficial. O acontecimento foi um grande sucesso de público no Jardim da Luz e o carro, um automóvel Fiat ano 1915, levou além do próprio Antônio Prado Jr as figuras do Conde Silvio Penteado, Armando Penteado e nada mais nada menos que o pai da aviação Alberto Santos Dumont.

A foto abaixo, extraída da revista A Cigarra, mostra todos eles prontos para a partida:

Todos a bordo!

De acordo com os jornais da época o destino final da jornada deste veículo foi um pouco diferente da competição oficial. Enquanto os competidores terminariam a corrida no centro de Ribeirão Preto, Antônio Prado e seus amigos foram com destino à fazenda de família Dumont, na mesma cidade.

A grande largada rumo ao interior paulista deu-se oficialmente em 12 de junho de 1916. A pobreza de informações disponíveis pela imprensa da época, devido provavelmente ao ineditismo da ação, deixa-nos carente de alguns dados cruciais, como se todos partiram juntos ou se houveram partidas em horários diferentes.

Também não há reportagens sobre eventuais problemas ou percalços enfrentados pelos competidores durante o trajeto entre as duas cidades. A cobertura do evento some dos jornais e apenas reaparece quando o raid já estava concluído, com o nome dos vencedores e seus respectivos automóveis.

Um dos competidores ao chegar em Ribeirão Preto

O percurso entre São Paulo e Ribeirão Preto foi completado, em média, em 12 horas. Participaram veículos das mais variadas marcas da época, como Benz, Hupmobile, Ford, Fiat e Marmon.

O grande vencedor do Raid São Paulo – Ribeirão Preto percorreu a distância entre as duas cidades em incríveis – para os padrões da época – 10:52 min. O carro que realizou a proeza foi um Hupmobile de 30 hp. Além da Taça Ribeirão Preto o campeão levou para casa uma soma em dinheiro de 1 conto de réis.

Os dois segundo colocados (ocorreu um empate entre dois participantes) receberam uma medalha de ouro cada e o terceiro colocado ganhou uma medalha de prata.

Lista de vencedores:

1° Lugar – Fernando Pacheco e Chaves – Tempo 10 hs e 52 min – Hupmobile
2° Lugar – Hermann Matheiss – Tempo 12 hs e 10 min – Benz 35 hp
2° Lugar – Edgard Rodovalho – Tempo 12 hs e 10 min – Charron 30 hp
3° Lugar – Ataliba Paula Leite – Tempo 12 hs e 59 min – Martini 24 hp

A premiação foi entregue aos vencedores em um concorrido jantar oferecido em 8 de julho de 1916 na sede do Automóvel Club de São Paulo. O jantar contou com também com a participação dos prefeitos das cidades de São Paulo e Ribeirão Preto. Que confirmaram o interesse em realizar o raid nos anos seguintes.

Abaixo um anúncio publicado nos jornais paulistas por diversas vezes nas edições seguintes a vitória do Hupmobile de Pacheco e Chaves. A publicidade destacava o fato do carro ter sido o grande vencedor do raid:

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About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • carlosfatorelli 17/02/2017 at 13:45

    Vide:

    Circuito de Itapecerica / SP
    http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2012/10/circuito-de-itapecerica-sp.html

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  • Antonio Carlos R. Serrano 19/02/2017 at 20:25

    Excelente matéria. Parabéns!

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  • Filêmon 20/02/2017 at 16:49

    Em 1916, usava-se a palavra “pneumático”, que gozado! Não é tão antigo, portanto, usar a abreviação “pneu”. Bom saber!

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    • Daniel Pardo 21/03/2017 at 20:31

      O irmão do meu falecido avô, meu tio-avô (que também já se foi) falava “pneumático”, eu achava engraçado…
      Mas enfim… para os carros naquela época irem de São Paulo a Ribeirão em 12 horas (!!!!!) eles deviam andar a passos de tartaruga, acho que se foram a uns 30 Km/h foi muito… hoje em dia esse percurso feito a 120 Km/h deve ser feito em quantas horas?? umas 4??

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  • Nilton D’Addio 23/02/2017 at 07:29

    Muito interessante a matéria. Ainda hoje, com toda a tecnologia dos automóveis e especialmente das rodovias, dependendo do dia e da hora, pode-se levar mais de 10 horas para se ir do Jardim da Luz em São Paulo, até a cidade de Ribeirão Preto.
    Outro aspecto que me despertou curiosidade, foi o estado que Santos Dumont e seus companheiros de viagem chegaram a Ribeirão Preto, pois estavam com roupas bem claras e viajaram em carro aberto e por estradas de terra.
    Belíssima aventura e muito interessante o percurso.

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