Hoje dispomos de uma série de ferramentas para a documentação dos bens históricos de nossas cidades: fotografia convencional, fotografia área (por meio de drones e satélites), além de uma grande número de redes sociais prontas para viralizar e denunciar qualquer risco de demolição ao patrimônio.

No entanto até poucas décadas atrás a documentação era bem pouca. Havia a fotografia (analógica, de filme) e olhe lá. O recurso da fotografia era bastante usado já na década de 1980, permitindo que casarões graciosos – como aqueles da Avenida Paulista – fossem retratados pouco antes de seus suspiros finais.

Vista aérea de Campos Elíseos em 1958 (Fonte: Geoportal)

Mais atrás, até os anos 1970, registro fotográfico de bens históricos era algo bastante incomum. Não havia por aqui o trabalho de fotografar os imóveis históricos e quando era feito, era quase que unicamente realizado por amadores, geralmente estudantes ou formados da área de fotografia ou arquitetura.

Essa ausência de fotografia de imóveis de potencial cunho histórico do passado trouxe lacunas irrecuperáveis na memória iconográfica paulistana. Um exemplo bem conhecido que já citamos aqui é o casarão de Sílvio Sampaio Moreira, na rua Vitória, cuja única conhecida lembrança que temos – até o momento – é do seu magnífico portão em estilo art noveau.

Hoje traremos para você três imóveis pouco conhecidos dos paulistanos e que quase não há informações sobre eles, todos do bairro de Campos Elíseos: O palacete mourisco, o Grupo Escolar Alameda do Triunfo e o antigo imóvel que pertenceu a Baronesa de Arari.

O PALACETE MOURISCO:

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Ícone da arquitetura em estilo mourisco na cidade de São Paulo, o encantador palacete localizado nas esquinas das Alamedas Barão de Piracicaba e Ribeiro da Silva desapareceu na metade da década de 1980. Foi um dos primeiros imóveis do bairro a serem demolidos pouco depois do anúncio da prefeitura municipal, que previa remodelar o bairro por completo.

O proprietário já prevendo vender o terreno por uma pequena fortuna o colocou abaixo. Entretanto o projeto do então prefeito, Jânio Quadros, de transformar o bairro em uma região aos moldes do que hoje é a área da Faria Lima não foi adiante, frustrada após o Governo do Estado de São Paulo tombar praticamente toda a região como patrimônio histórico.

Com isso a área do velho palacete jamais deu lugar a uma nova construção, e até hoje permanece como um área vazia entre muros.

A foto que publicamos acima, de 1984, é a única conhecida a mostrar este palacete, porém em um período já decadente, sem os portões e com um pequeno comércio emendado em sua construção. Abaixo você observa o local atualmente:

O GRUPO ESCOLAR E O PALACETE DA BARONESA DE ARARI

Uma rápida pesquisa sobre Maria Dalmácia de Lacerda Guimarães, a Baronesa de Arari (ou Arary nos escritos mais antigos), dá como certa sua residência em um belo palacete da Avenida Paulista, projetado por Victor Dubugras.

Entretanto, foi de sua propriedade também um palacete mais antigo que o da Paulista localizada na então Alameda do Triunfo, posteriormente renomeada para Alameda Cleveland(*).

A Baronesa teria morado neste palacete entre o final do século 19 e início do século 20, mudando-se para o novo e mais moderno imóvel na Paulista após ele ter sido concluído.

Do velho imóvel da Alameda do Triunfo não existe foto alguma conhecida, mas ainda hoje é possível ter uma noção de sua imponência através do único item do palacete que resistiu ao passar dos anos: seu portão.

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A história do imóvel desaparecido tem boa parte de sua trajetória desconhecida, mas podemos traçar um breve resumo histórico a partir da origem do atual ocupante do terreno, a Escola Estadual João Kopke.

Esta escola foi fundada em 1900 em um imóvel nesta mesma via, porém bem diante da Estação Júlio Prestes. Na época a entidade chamava-se Grupo Escola Alameda do Triunfo. Esta escola ficava em um edifício de dois pavimentos – também já demolido – que abrigava meninos e meninas, aproximadamente 200 de cada.

O imóvel que primeiro abrigou a escola também já foi demolido, mas há esta foto pra contar história

Com o tempo a escola foi ficando pequena para abrigar seus alunos e foi pensado um novo edifício para a entidade. Em 15 de janeiro de 1926 a escola foi transferida para seu novo endereço, no antigo imóvel que pertenceu a Baronesa de Arari. Foi neste momento que a escola passou a chamar-se João Kopke, homenageando o nobre educador que falecera naquele mesmo ano.

Desde então já se vão mais de 90 anos que a escola está no mesmo endereço.

Infelizmente não encontramos a data que o velho casarão foi demolido para dar lugar ao atual edifício escolar, mas em 1958 o imóvel ainda estava de pé, de acordo com a imagem aérea que abre este artigo.

Esses três imóveis desapareceram quase que sem deixar vestígios. Quantas histórias interessantes devem ter desaparecido com eles ?

Lembra-se de algum outro imóvel que desapareceu sem deixar rastros ? Fale para nós aqui nos comentários.

(*) A maioria dos nomes de ruas de Campos Elíseos jamais foi alterada. Entretanto, duas delas perderam seus nomes originais. Ambas na década de 1910. A primeira foi a rua dos Andradas, que passou a chamar-se Alameda Dino Bueno e a segunda a Alameda do Triunfo, que teve seu nome mudado para Alameda Cleveland como forma de homenagear o falecido presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Edison Roberto Morais 26/06/2017 at 18:34

    Estudei por dois meses (em 1955) no então Grupo Escolar João Kopke. As poucas lembranças que tenho era de um prédio imponente com dois andares.
    Pretendo visitá-lo, mais de meio século depois, junto com um amigo que estudou lá por 3 anos.
    Infelizmente a memória em nosso país é desprezada.
    Poderíamos ter uma preservação maior, caso tivéssemos uma legislação mais pragmática que permitisse uma utilização dos imóveis históricos, sem que os mesmos fossem muito descaracterizados.

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  • JOHNNY KOPPE 26/06/2017 at 18:53

    EU MESMO ESTUDEI NO ANTIGO GINASIO STAFFORD NA AL.CLEVELAND AO LADO AONDE HOJE É O SESC B. RETIRO ! VOU PROCURAR UMA FOTO SE ECONTRAR EU TE ENVIO , ABS

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  • Elizete 26/06/2017 at 21:04

    Mamãe conta que era a elite paulistana que morava ali por volta da década de 50. Quase todos descendentes de estrangeiros, gente fina, elegante, educada e trabalhadora….incluindo-se a sede do Governo Estadual (época do Dr. Ademar de Barros). Hoje só restou os casamentos pomposos da Igreja Sagrado Coração de Jesus. Que pena!

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  • SILVIA 27/06/2017 at 08:47

    uma correção: Embora a maioria dos nomes de ruas de Campos Elíseos TENHA SIDO alterada.

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  • Sergio 04/07/2017 at 19:08

    Douglas
    Na esquina GletteXGuaianazes houve um palacete onde residiu a família do industrial Jorge Street, o criador da famosa vila operária Maria Zélia, e fabricande de sacarias de Juta muito usadas para exportação de produtos agrícolas; com a falência do grupo industrial por volta de 1930 o palacete foi adquirido pelo governo estadual e abrigou cursos da antiga Fac Filosofia Ciencias e Letras da USP entre as décadas de 30 e 60 do século passado. Lá por volta de 1970 com a mudança desses cursos para a Cid Universitária o prédio voltou a particulares (acho que a velha Folha de São Paulo o adquiriu) e acabou logo sendo demolido; no terrenio além de uma grandiosa figueira (que uma antiga aluna uspiana luta para ser tombada como patrimônio) só resta um estacionamento vizinho da velha sede do governo estadual e de um mais novo grande terminal de ônibus. Mais informação pode ser obtida no site:
    http://200.144.182.66/memoria/por/local/123-Palacete_Jorge_Street
    Sergio

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    • Douglas Nascimento 04/07/2017 at 20:43

      Sergio, acho que a uspiana que você se refere é a famosa “Vovó Neuza”, não é ?
      Estamos preparando uma matéria bem legal sobre o palacete do Jorge Street, ainda em julho colocaremos no ar.

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      • Sergio 10/07/2017 at 09:58

        Douglas Uma amiga a quem indiquei o São Paulo Antiga me disse para te repassar o site sobre o “palacete do Street”; o site é de geólogos que lá estudaram; o endereço é :
        http://www.figueiradaglete.com.br/

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      • Alirio Sutanis 16/02/2018 at 21:48

        Douglas estudei no João Kopke em 1977 e 78 ainda era o casarão me lembro de subirmos em fila pelas escadas com corrimões de madeira pareciam sempre encerados, me parece que foi o Maluf que demoliu e construiU no lugar aquele caixote tipo FEBEM

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        • Nelio Siqueira Prestes 23/02/2018 at 03:26

          temos um grupo no facebook de ex-alunos do João Kopke (João Kopke – turma de 70.
          também estudei em 77 – quem sabe nos conhecemos…!!!

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  • Daniel Pardo 04/07/2017 at 20:46

    Pelo visto no lugar do Palacete Mourisco, desde 1984 que não se constrói nada ali, tipo, como se fosse uma maldição por terem derrubado o antigo palacete.

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  • Dener Dalla-Rosa 19/07/2017 at 04:01

    Eu tenho um livro sobre arquitetura em que há várias ilustrações deste primeiro palacete da baronesa de Arari… Ele era em estilo eclético e foi projetado por Ramos de Azevedo…

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    • Douglas Nascimento 19/07/2017 at 10:21

      Olá Dener, qual o nome do livro ?

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    • Nelio Siqueira Prestes 23/02/2018 at 03:33

      Dener entre em contato comigo… estudamos no João Kopke e não temos nem uma fotografia dele… vc poderia nos ajudar…??? E-mail: Nelio.prestes@hotmail.com

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  • Luiz Henrique 26/07/2017 at 08:02

    No chamado “anel-viário” de Guarulhos, havia um casarão do início do século vinte, que funcionava, segundo o relato de alguns, como uma estação ferroviária, já que por ali passava o famoso “trem da Cantareira”.
    Há muitos anos foi demolido, mas, em 1982, quando fui morar lá perto, com minha família, ele ainda estava de pé e bem mal-tratado. O local fica próximo ao Supermercado Jaraguá, apesar deste estar situado à avenida Timóteo Penteado. Sabe onde fica, Douglas?

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  • FRANCISCO ANTONIO ROXO DOS SANTOS 30/10/2017 at 19:24

    INFELIZMENTE SOMOS UM PAÍS SEM MEMÓRIA, TEM MUITOS TERRENOS VAZIOS PELA GANÂNCIA DE SEUS PROPRIETÁRIOS DERRUBAREM OS ANTIGOS IMÓVEIS COM INTENÇÃO DE LUCRAR MUITO E HOJE ESTÃO A PAGAR IMPOSTOS E SEM ESTAR COM OS LUCROS ALMEJADOS .
    HOJE ESSES IMÓVEIS SE EM PÉ ESTIVESSEM QUANTO NÃO VALERIAM HOJE?????

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  • LAIRCE 29/01/2018 at 21:30

    Estudei no João Kopke em 1977 a 1978 e ainda era uma casa velha com assoalhos de madeira.

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    • Nelio Siqueira Prestes 23/02/2018 at 03:30

      Lairce – temos um grupo no face book chamado João Kopke – tuema de 70… quem sabe temos algo em comum com vc… visite-nos.

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  • Eliete 15/02/2018 at 21:39

    Estudei no João kopke desde o jardim de infância até a oitava série (houve uma escola agregada lá professor Honório Monteiro)eu e meus amigos que estudamos lá choramos muito quando da demolição mais ou menos 1979.Nos já estudavamos no conselheiro Antonio Prado,mas foi triste…O kopke carrego no coração com as melhores lembranças de minha infância ,me lembro de nomes de professoras e amigos que estão eternamente dentro de minhas boas recordações…

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    • Nelio Siqueira Prestes 23/02/2018 at 03:29

      Eliete – temos um grupo no face book chamado João Kopke – tuema de 70… quem sabe temos algo em comum com vc… visite-nos.

      Reply
  • Leila 02/04/2018 at 17:15

    Eu morei com meus pais em um antigo na conselheiro nebias 1384, onde hoje e a Editora Atlas , não acho uma foto dele. Era da familia Prates Baeta Neves

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    • Nelio Prestes 03/04/2018 at 07:27

      Conheci este palacete azul e branco na esquina da conselheiro nebias com ribeiro da silva…!!!

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      • Leila 03/04/2018 at 13:28

        Nossa era enorme, o Ze do Caixao ate filmou dentro dele rsrsr , mas não acho uma foto!!

        Reply

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