Em outro artigo aqui do São Paulo Antiga, foi apresentado o golpe político que fez de Guarulhos, até então uma freguesia da capital,  uma nova cidade levando consigo a Penha e o Juqueri.

É sabido que esta mudança foi a contragosto dos guarulhenses, que não viam necessidade naquele momento de se emanciparem de São Paulo. Porém mais que eles, os penhenses detestaram a mudança e lutaram anos para reverter este processo.

Mapa da Penha do ano de 1905

PENHA – UM BAIRRO DE GUARULHOS

A manhã de 25 de março foi terrível para os paulistanos moradores da Penha. A lei sancionada no dia anterior transformava a aprazível freguesia paulistana parte do novo município de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos.

A medida, que foi uma manobra política, irritou a todos no bairro mas já tinha se tornado uma realidade. A mudança ignorava que as conexões da Penha com São Paulo (estrada de ferro e a estrada da Intendência – atual Celso Garcia) eram muito melhores do que a ligação com Guarulhos, uma velha ponte grande de madeira erguida em 1856.

Correio Paulistano – 15/01/1856

Voltar a fazer parte de São Paulo virou uma obsessão dos penhenses desde o primeiro dia em a região foi desmembrada da capital. Mas nada aconteceria nos dois primeiros anos, uma vez que a mudança – que custou muito dinheiro aos cofres imperiais – não poderia ser simplesmente anulada. E havia ainda a questão dos votos conservadores que voltariam a contar na capital (em 1880 a Penha tinha menos de 100 eleitores).

Correio Paulistano – 25/01/1880

Apenas em 1884 é que surgiria a ação que reverteria o processo a qual a Penha foi vítima. É neste ano que os moradores do bairro se unem e levam até a Comissão de Estatística e Negócios Eclesiásticos o pedido para serem reincorporados a São Paulo:

Correio Paulistano 19/03/1884

Argumentando o que todo mundo já sabia – maiores ligações comerciais da Penha com a capital e a facilidade de deslocamento ser superior do que com Guarulhos – a comissão acata a sugestão dos moradores e encaminha o projeto para Augusto Queiroz, membro da Assembleia Provincial, que por sua vez leva ao plenário um projeto de lei que devolve a Penha para a capital paulista.

Votado e aprovado pela maioria dos membros da Assembleia Provincial bastava a sanção para que tudo voltasse a ser como antes para a Penha (Juqueri esperaria alguns anos a mais).

Entretanto ainda levaria dois anos para que a presidência da província assinasse a mudança. Apenas em 26 de maio de 1886 o Barão de Parnaíba (então Vice-Presidente da Província de São Paulo), devolveria a Penha de França para São Paulo.

Vista da chamada ˝Colina da Penha˝ em 1900

MAS E O JUQUERI ?

Se era ruim para os penhenses chegar ao centro de Guarulhos – sua nova cidade – imagine então os moradores de Juqueri ainda mais distante.

O absurdo era tão grande que para alguém de Juqueri ir resolver um problema em uma repartição pública, no centro da nova cidade, precisava entrar em São Paulo pela atual zona norte e depois entrar novamente em Guarulhos.

Para isso precisavam de um caminho e ai que surge a Estrada da Conceição, que hoje é chamada Avenida Conceição (já contamos esta história, leia aqui).

A então Estrada da Conceição passava a ligar o norte da cidade de São Paulo até Guarulhos, servindo assim de caminho para quem saía de Juqueri.

Ao contrário da Penha que voltou a ser um bairro paulistano, Juqueri optaria pela emancipação, transformando-se em município em 27 de março de 1889. A cidade manteria o nome até 1948, quando passou a ser chamada de Mairiporã.

CURIOSIDADE: ASSIM SURGIU O BAIRRO GUARULHENSE DA PONTE GRANDE:

Quem é de Guarulhos ou conhece a cidade sabe que lá existe um bairro – limítrofe com a Penha – chamado de Ponte Grande.

O bairro leva esse nome por ter sido povoado junto à velha ponte de madeira que ligava a Penha a Guarulhos. Devido a falta de consenso entre os prefeitos das duas cidades essa ponte de madeira construída em 1856 permaneceu de pé até a década de 1950, constituindo assim um grande entrave para o desenvolvimento da região.

A ponte grande de madeira entre Penha e Guarulhos

Apenas na primeira gestão de Jânio Quadros como prefeito de São Paulo (1953-1955) é que houve um acordo com o prefeito de Guarulhos, Fioravante Iervolino, para a substituição da ponte, que de grande já não tinha mais nada (passava apenas um veículo por vez).

Outros artigos para você se aprofundar sobre Penha e Guarulhos:

Bibliografia consultada:

  • Mapa de São Paulo de 1905 – Prefeitura do Município de São Paulo
  • Foto da Ponte Grande – Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos
  • Foto da Colina da Penha – Acervo São Paulo Antiga
  • Correio Paulistano – Edição 0355 – 15/01/1856 – pp 1
  • Correio Paulistano – Edição 6975 – 25/02/1880 – pp 1
  • Correio Paulistano – Edição 8276 – 19/03/1884 – pp 1
  • Correio Paulistano – Edição 8277 – 20/03/1884 – pp 2
  • Correio Paulistano – Edição 8295 – 26/05/1886 – pp 1
  • Link – Prefeitura de Mairiporã – Consultado em 07/12/2017

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Daniel Pardo 23/12/2017 at 21:03

    Pelo visto maracutaias na politica fazem parte do Brasil desde sempre.

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