Encontrar estabelecimentos centenários pelo Brasil não é uma tarefa muito fácil. Embora eles existam, não é todo dia que encontramos lojas, padarias e outros ramos de comércio com mais de 100 anos, mas o que dizer de um com 180 anos de idade ? É raro, mas existe. Ou melhor, existiu.

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Fechada desde 2011, a Pharmacia Popular, localizada na cidade de Bananal foi a farmácia mais antiga do Brasil. Inaugurada ainda na primeira metade do século 19 pelo francês Tourim Domingos Monsier.

Influenciado pela riqueza que o café brasileiro proporcionava, Monsier chegou à cidade de Bananal disposto a tornar-se um barão do café. Ele adquiriu uma fazenda tão logo chegou à cidade, mas por alguma razão desconhecida desistiu de ser fazendeiro e retornou as suas origens como boticário, abrindo esta farmácia em 1830, com o nome de Pharmacia Imperial.

A farmácia no início do século 20. Permaneceu assim até 2010.

A farmácia no início do século 20. Permaneceu assim até 2010.

O boticário francês permaneceria à frente do negócio por 30 anos, quando vendeu a farmácia para o coronel Valeriano José da Costa. Em 1889, com a proclamação da república, houve uma pressão na cidade para que o estabelecimento mudasse de nome, já que fazia referência ao finado império. E foi assim que naquele ano a Pharmacia Imperial dava lugar a Pharmacia Popular, nome que perdurou até o fim das atividades.

Com a morte de seu proprietário, em 1918, a farmácia mais uma vez mudaria de dono, adquirida pelo coronel Graça. Ele por sua vez passaria a propriedade a seu filho, Ernani Graça, que em breve seria eleito prefeito de Bananal por dois mandatos. Quando faleceu, a farmácia passaria para seu filho, Plínio Graça, que também seria por duas vezes prefeito da cidade. Graça seria o último dono da farmácia em funcionamento, vindo a falecer em 2011.

De local histórico a local fechado:

Hoje, a farmácia está fechada (clique para ampliar).

Símbolo não só da história de Bananal, mas de todo o Brasil, a farmácia popular não resistiu ao passamento de Plínio Graça. Mesmo estando absolutamente preservada e funcionando como um misto de museu e comércio, ela foi fechada no ano de 2011. Segundo moradores da cidade o acervo teria sido vendido para o exterior. Seja verdade ou não, a realidade é que uma parte importante da história brasileira morreu junto de seu último proprietário.

Mesmo ainda pertencendo a mesma família, mas sem seus itens históricos que compunham a velha farmácia, resta apenas o prédio como uma lembrança de um estabelecimento histórico e raro no Brasil. Se a culpa é do herdeiro que não manteve a tradição ou das autoridades que nada fizeram para ajudar esta jóia de Bananal, o tempo se encarregará de nos dizer.

Histórico:
1830 – Inauguração com Pharmacia Imperial
1860 – Coronel Valeriano José da Costa adquire a farmácia de seu antigo proprietário
1889 – O estabelecimento passa a chamar Pharmacia Popular
1918 – Coronel Graça compra a farmácia e a repassa a seu filho, Ernani Graça
1956 – Plínio Graça assume a farmácia
2011 – Em 30 de junho Plínio da Graça morre aos 87 anos.
2011 – Pouco depois do passamento de Plínio da Graça a farmácia é fechada e há rumores da venda de todo seu acervo.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • J.C.Cardoso 10/07/2013 at 11:17

    Bananal é campeã, quando se trata de preservar o patrimônio. Minha família já esteve lá várias vezes. Eu, infelizmente, não tive como ir. Mas ainda vou lá!

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    • Douglas Nascimento 10/07/2013 at 12:02

      Diego, a foto é sua ? Se for nos autoriza a publicar junto ao texto?

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  • Cybelle 10/07/2013 at 12:27

    Olá:
    Que pena… Meu filho esteve no Bananal anos atrás, e visitou a farmácia. Quanto ao nome do fundador : Tourim Domingos Monsier. Não seria Mr.(Monsieur)
    Domingos Tourim ? Abraços Cybelle

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  • Gil Castillo 10/07/2013 at 12:33

    Uma pena! Estive várias vezes em Bananal e conheci bem a Pharmacia Popular, ponto turístico obrigatório, coisa rara de ser ver em terras tupiniquins. Há alguns anos que não vou até a região e não sabia do seu fechamento. Era linda, toda preservada, com seus vidros coloridos, frascos de porcelana e até um busto de Hipócrates, ainda da época do fundador. Há muita coisa preservada em Bananal sim e, grande parte é merito da própria comunidade que, em alguns casos conseguiu preservar e ate restaurar casarões, através de doações, bingos e venda de artesanato, como é o caso do Solar do Comendador Aguiar Valim (http://www.turismovaledocafe.com/2009/08/solar-comendador-aguiar-valim-bananal.html). As cidades do Vale do Paraíba, imortalizadas nas obras “Cidades Mortas” e “Urupês” Lobato, são um legado imenso. Sobretudo o chamado Vale Histórico (Silveiras, Areias, Bananal, São José do Barreiro), que conservou os ares do ciclo do café. Vale muito à pena conhecer de perto.

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  • Gabriel 15/07/2013 at 18:29

    Vejam uma foto atual q achei no google imagens. Aparece um senhor na foto que deve ser o proprietário:

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  • Benedicto Rodrigues Francisco 16/07/2013 at 00:45

    LAMENTO. o CENTRO BRASILEIRO DE ARQUEOLOGIA PEDIU O TOMBAMENTO AO CONDEPHAAT QUANDO AINDA ESTAVA ABERTA E O SR. PLINIO EMBORA MUITO DOENTE AINDA NO COMANDO.NÃO SEI O MOTIVO DA OMISSÃO DO CONDEPHAAT .PERDEU BANANAL PERDEU O BRASIL, PERDEU A HUMANIDADE.

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  • Ibá dos Santos Silva 16/07/2013 at 10:48

    Lamentável. Essa não é só a História da Farmácia, mas sim a História de uma época em que não se dá valor a nossas peças históricas.
    Não é culpa só do atual governo do Estado de São Paulo, mas de uma política de governo que desvaloriza nossos valores históricos e não dá oportunidade para que possamos desenvolver nosso conhecimento sobre nossos recursos minerais, da nossa fauna, mas muito provavelmente permitindo que esse conhecimento vá para o estrangeiro onde será ricamente aproveitado, voltando para nós em forma de produtos elaborados. E, mais ainda, com informações na mídia dizendo que o brasileiro é incapaz e os estrangeiros são os que vem nos socorrer.
    Não é verdade. Sou testemunha do esforço constante do Geólogo Benedicto Rodrigues em preservar essa riqueza da cidade de Bananal.
    Ibá.

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  • Fernanda 06/05/2014 at 13:26

    Eu conheci essa cidade e visitei essa farmácia… Incrível o quanto temos histórias. Uma pena muitas delas darem lugar a grandes edifícios modernos.

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  • Benedicto Rodrigues 02/01/2016 at 22:13

    Lamento mas foi tudo perdido.Como previam muitos o acervo foi diluio.CULPA DOS GOVERNOS QUE NUNCA ZELAM POR NOSSAS RIQUEZAS.
    NA EUROPA E NA ASIA E DIFERENTE
    E ISSO GERA RIQUEZA COM TURISMO.

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