Costumo dizer que as melhores iniciativas sempre parecem chegar através das mãos de particulares, seja ela iniciativa privada ou mesmo pessoas físicas. Livres do mar de burocracia de governos, da pressão pela “caixinha” ou mesmo do uso político, a ausência da mão pública sempre traz bons resultados. E foi o que encontrei, e fiquei muito feliz, no Sacomã.

A Praça Danúbio é uma das praças mais esquisitas que já conheci em São Paulo, pois ela, na verdade, não existe. O que há ali são dois pequenos triângulos de cimentado com uma pequena árvore em cada uma e algumas placas de sinalização de trânsito, o que é muito pouco para se chamar de “praça“. Contudo, o que me chamou a atenção foram estes dois imóveis, velhos armazéns, bastante antigos e deteriorados.

Praça Danúbio em 2013 (clique na foto para ampliar).

Praça Danúbio em 2013 (clique na foto para ampliar).

Tão logo os vi e notei as placas de venda em ambos, achei que realmente eles estariam com os dias contados. Se imóveis assim não tem muitas chances de sobrevida em locais mais centrais, o que dirá em bairros mais periféricos ? Ainda mais com o fato que havia um novo empreendimento do outro lado da rua. Fotografei-os e por alguma razão acabei esquecendo estas imagens no meu acervo, até semana passada. Abaixo uma imagem individual de cada um.

O armazém antes do restauro (clique na foto para ampliar).

O armazém antes do restauro (clique na foto para ampliar).

Foto: Ademir Richotti (clique para ampliar).

Foto: Ademir Richotti (clique para ampliar).

Foi ai que recebi dois emails enviados por nossos atentos leitores Ademir Richotti e Sílvia Miloco, ambos me falando de uma armazém restaurado na Praça Danúbio. Tão logo abri os emails reconheci as fotografias e fiquei bastante animado com o que vi nos imóveis dos números 10, 14 e 16: eles foram vendidos, mas ao invés de irem abaixo, foram recuperados. Vejam como eles ficaram:

Foto: Ademir Richotti (clique para ampliar).

Foto: Ademir Richotti (clique para ampliar).

A recuperação foi bem feita e de muito bom gosto. O armazém, principalmente, que estava com um cinza e parecia bastante apagado renasceu com esse cor laranja forte. O cinza escuro das portas de madeira deram lugar a um azul bastante vivo que ressaltou ainda mais aos olhos com o branco em volta. O que era um imóvel com aparência de triste e esquecido logo ficou um local muito cheio de vida. A recuperação das portas foi muito bem feita e até a placa com a indicação do logradouro ficou mais destacada.

Abaixo mais uma foto, da lateral dos imóveis, tirada a partir da rua Sava:

Foto: Sílvia Miloco (clique para ampliar).

Foto: Sílvia Miloco (clique para ampliar).

É incrível como uma boa mão de tinta, conhecimento de cores e um toque de bom gosto pode fazer com que um imóvel outrora decaído possa ressurgir totalmente revitalizado. Deixo aqui meus parabéns ao proprietário bastante caprichoso e zeloso com seu bem histórico, mesmo sem ele ser tombado. Faço votos que o armazém ao lado, que ainda está à venda, tenha a sorte de ser recuperado da mesma maneira e que juntos façam a Praça Danúbio um local ainda mais agradável.

Mais uma vez, meus agradecimentos aos leitores Ademir Richotti e Sílvia Miloco pelas imagens enviadas aqui para a redação.

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comments

  • Anderson Diniz 26/06/2014 at 20:33

    Você diz que “a ausência da mão pública SEMPRE traz bons resultados”, mas não é bem assim – e bem pelo contrário… As inúmeras demolições que você já mostrou aqui SEMPRE todas por iniciativa de construtoras, privadas, sem “mão pública”. Os paliteiros que não se comunicam com o entorno, idem.

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    • Douglas Nascimento 26/06/2014 at 20:37

      Mas não me refiro a isso. Refiro-me aos casos específicos de restauro, onde o proprietário é que toma a iniciativa de recuperar o bem sem leis de incentivo, sem ajuda do governo etc…

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  • nazarethlmperes 26/06/2014 at 21:13

    Depois de restaurados ficaram bonitos os armazéns, “vendinhas” ou “vendas” como dizíamos em SP nos anos 40/50. Tomara que perdurem com bom uso!

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  • Silvia 27/06/2014 at 10:10

    Fico feliz em ter contribuído com o blog. Já tinha vontade de tocar a campainha do casinha e cumprimentar o novo proprietário pela atitude, agora vou imprimir a matéria e fazer isto. 🙂

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    • Douglas Nascimento 27/06/2014 at 10:38

      Excelente Silvia! E sempre que achar algo interessante mande para nós!

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    • Ademir Richotti 30/06/2014 at 12:25

      Sílvia
      Dá vontade tambem de pintar a outra casa…

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  • Carlos Gama 27/06/2014 at 10:17

    Excelente, sempre, receber estas mensagens logo pela manhã.
    Muito embora as notícias sobre as construções mais antigas sejam usualmente tristes, elas nos mantém despertos e atentos.
    Entretanto, quando se recebe um e-mail como este, de hoje, e o conteúdo nos dá conta da ação positiva de alguns cidadãos, o sol brilha mais forte, o dia se ilumina e a esperança na civilização e no respeito ao patrimônio se restaura.
    Parabéns a você, Douglas.
    Parabéns, também a Ademir Richotti e Sílvia Miloco (continuem atentos; foi um belo presente).

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  • Edda Frost 27/06/2014 at 13:20

    Que bom ver este email…Fiquei muito feliz ao ver as fotos. O seu trabalho frutifica, Douglas…

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  • Joline 30/06/2014 at 15:58

    Que felicidade em ler essa reportagem. Os proprietários são meus sogros, e os mesmos tiveram muita dedicação e carinho em fazer toda essa restauração, onde toda a família pode participar um pouquinho. E como boa amante da Historia, minha sogra jamais deixaria derrubar esse local. Ficou lindo.

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    • Ademir Richotti 01/07/2014 at 10:24

      Seus sogros estão de parabens,Joline!

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  • Emerson de Faria 06/10/2014 at 08:20

    Moro na Vila Guilhermina, e poucas coisas são mais aconchegantes em São Paulo do que morar em bairros ainda tranquilos – já nem tanto como no passado, mas ainda assim tranquilos. O bairro é para o paulistano como o subúrbio para os americanos.

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  • danielpardo2015 28/02/2015 at 20:37

    O bairro do Sacomã é praticamente minha segunda casa, já que desde que me entendo por gente minhas tias, irmãs de minha avó, moram nesse bairro, mas esse imóvel ai é no Moinho Velho, que apesar de ficar colado ao Sacomã, separado apenas pela Via Anchieta cortando no meio, é outro bairro.

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