Um dos mais importantes imóveis residenciais antigos que sobrevive no centro de São Paulo, é também um grande exemplar de descaso com o patrimônio histórico paulistano.

clique na foto para ampliar

clique na foto para ampliar

Tendo suas obras iniciadas em 1878 e sendo concluído em 1884, o sobrado do Coronel Carlos Teixeira de Carvalho é um dos principais exemplares de residências de alto padrão que ocupavam a capital paulista nos derradeiros anos do Brasil imperial.

Foto: ReproduçãoFilho de imigrantes portugueses, o Coronel Carvalho foi além de próspero comerciante e político** uma pessoa muito influente em São Paulo em seu tempo.

Ao falecer, em 1930, deixou seus bens para sua única filha e herdeira, Marieta Teixeira de Carvalho.

Dona Marieta, como era mais conhecida junto à sociedade paulistana, residiu no imóvel durante toda sua vida. Ao falecer, em 1975, aos 92 anos, deixou o sobrado para a Ordem Beneditina, pois faleceu ainda solteira e não tinha herdeiros. No passado ela já tinha vendido parte do quintal ao Mosteiro de São Bento.

Tombado como patrimônio histórico pelo CONDEPHAAT desde 1981, este sobrado, além de belo, é muito representativo para a história da cidade, já que trouxe uma evolução na técnica construtiva de imóveis, sendo um dos primeiros a ser erguido com tijolos em São Paulo.

No final do século 19, a construção chamava atenção pela beleza de suas linhas e pela robustez da edificação. Atualmente, trata-se da última casa em taipa francesa que ainda existe na capital paulista.

Em 1887, uma pacata rua Florêncio de Abreu. Note o casarão à direita.

O tombamento, entretanto, num primeiro momento não ajudou o sobrado a escapar de um lento e contínuo processo de degradação.

Sem muito recursos para a tão esperada restauração e com projetos que surgiam e não eram levados adiante, o imóvel seguiu fechado por mais de duas décadas até 2005. Foi neste ano, através de uma lei de incentivo, que  o casarão começou finalmente a ser restaurado com o patrocínio da Petrobras.

Em 1954, a rua Florêncio de Abreu já estava completamente diferente.

A obra de restauro foi assinada por Affonso Risi Júnior e previa ser concluída em 2007, transformado o antigo casarão em um centro cultural ligado ao Mosteiro de São Bento. O espaço seria concebido para abrigar concertos, recitais e exposições.

Para reformar o porão, de modo que o local pudesse receber exposições, foi necessário fazer escavações para que a circulação fosse agradável, uma vez que o referido ambiente tinha cerca de um metro e meio de altura. O restauro do interior do casarão foi possível através do uso de fotografias, que permitiu aos restauradores uma visão do imóvel enquanto era ocupado pelos seus primeiros donos.

Entretanto, a obra ainda não foi concluída. Segundo foi possível apurar, o imóvel está parcialmente restaurado e sua conclusão não foi possível decido aos custos de recuperação, que acabaram sendo maiores do que a verba disponível.

O segundo piso ainda precisa ser recuperado e o exterior precisa de pintura e acabamento. Abaixo, uma galeria com fotos internas do sobrado, datadas de 2011:

A dificuldade do Mosteiro de São Bento em angariar recursos para finalizar a obra é compreensível. Entretanto é preciso apurar os motivos da verba liberada não ter sido suficiente para a conclusão do projeto.

A devolução do sobrado de Carlos Teixeira de Carvalho à sociedade paulistana, é o mínimo que podemos aceitar. Não podemos permitir que todo o dinheiro gasto até o momento seja em vão, deixando o casarão se deteriorar por completo novamente.

Na foto, um dos dormitórios originais do imóvel, entre o final do século 19 e início do século 20.

Na foto, um dos dormitórios originais do imóvel, entre o final do século 19 e início do século 20.

** Carlos Teixeira de Carvalho foi Senador do Congresso Legislativo do Estado de São Paulo por duas legislaturas (1891 e 1892 a 1894), sempre pelo PRP (Partido Republicano Paulista), tendo sido eleito na primeira vez com 25.508 votos e na segunda eleição com 12.353 votos.

Veja mais fotos do Casarão de Marieta Teixeira de Carvalho (clique para ampliar):

Conheça outros imóveis antigos na rua Florêncio de Abreu:

Agradecimentos: Barbara Teles Domingues

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

JOIN THE DISCUSSION

Comments

  • Renata 25/02/2011 at 20:48

    Lindo casarão. Espero que o mesmo seja totalmente restaurado em pouco tempo.

    Reply
  • Marcelo 26/02/2011 at 18:28

    Conheci o casarão, pois estudei eletronica na rua Florêncio de Abreu, 145, na saudosa Escola Aladim de Eletronica, que tbm tinha curso de enfermagem Humaita, no mesmo prédio. Isso foi em 1984, depois disto sei que até 1990 eles ainda estavam trabalhando lá, pois enviei uma carta e eles me responderam(na época ainda e-mail e celular era só um sonho). Fico feliz qdo se fala do Mosteiro de São Bento, Viaduto Santa Efigenia, Rua Florêncio de Abreu, tinha uma lanchonete bem na entrada da rua Florêncio, onde tinha uma vitrina de salgados que a gente parava pra tomar lanche, tinha esfiha fechada, esfiha aberta, kibe, coxinha… Era bom demais, eu era feliz e não sabia, apesar de ter so a grana do ônibus e do lanche.
    Pelo menos sei que um dia se eu voltar lá, vai ter algo daquele tempo preservado, pra poder matar a saudade.

    Reply
  • Cristiane Carbone 26/02/2011 at 20:56

    Parabéns, conhecia o casarão mas não sua história, fiquei encantada.
    Abs

    Cristiane

    Reply
  • Claudio 01/03/2011 at 17:28

    Fantástico !

    Um dos imóveis que não consigo passar na frente e não admirar por uns intantes. A rua Florêncio de Abreu tem vários deles.
    Muito boa esta reportagem. Parabéns !

    Reply
  • wilson 01/03/2011 at 19:51

    Não sei se neste caso é assim. Mas, no século XIX e início di século XX, a data de uma casa era a última coisa a ser fixada na fachada de uma casa como marco do témino de uma construção.
    Pode ser também que a data anterior faça referência ao projeto ou licença de construção. Ou então, refere-se á casa que existia no lugar, comprada pelo senador.
    Abração,

    Reply
  • Eri 31/03/2011 at 02:24

    O espólio de Dona Marieta Teixeira de Carvalho foi leiloado e continha valiosas peças de prataria, louças, cristais, jóias, mobiliário, etc. além de coleção de leques comemorativos com efígie de Dom Pedro. A casa de leilões se chamava “Páteo Leilões” e se situava na Avenida Angélica.

    Reply
  • Léo Victor Redondo 29/01/2012 at 12:17

    Tenho um Vintage/antiquario na Vila Leopoldina,Zona Oeste de SP.
    Gostaria de mudar par ao centro de SP.Pode ser num casarão alugado ou galpão ( salão comercial ) alugado.
    Como fazer para encontrar esse genero de imovel ?Achoo centro charmoso e dependente tb da iniciativa privada.
    Aguardo resposta
    gratao
    Léo Victor

    Reply
  • Christian 30/12/2014 at 04:43

    Pretendo visitar em breve o Mosteiro e descobri a existência desse casarão olhando num mapa. Não poderei deixar de passar em frente. Seria maravilhoso esse prédio restaurado e poder entrar nos espaços internos.

    Reply
  • Rogerio 01/09/2015 at 18:50

    Eu passei ontem em frente a esse casarão.
    O que me chamou atenção não foi necessariamente ele. Mas o tanto de lixo que havia na frente.
    Após investir alguns segundos ali, tentando entender aquela bagunça e sujeira, pude então perceber essa majestosa construção.
    Pela lateral onde funciona o estacionamento é possível desfrutar da tamanha beleza do imóvel.
    Na entrada do estacionamento existe uma pedra no chão, que possui dois espaços cavados para ajuda no alimentamento das carruagens ou carroças que ali entravam ou saiam.
    Tem a parte triste do imóvel, que possuí na parte de baixo uma senzala de escravos. Que pela data de 1878 deve ter tido ao menos 10 anos ali escravos vivendo em um espaço diminuto (Lei Áurea 1888). Uma época a não ser esquecida, pois não queremos cair em erros estúpidos como esse novamente. O impossível hoje em dia virou moda, até para o que não presta.
    Na parte externa também, existem postes que deveriam sustentar uma estrutura que já não está mais ali. Um tipo de jardim inglês, aqueles que são feitos com estrutura com ferro e vidro. No fundo possuí também uma laje, que está em péssimas condições.
    Com um jeitinho (trocando uma ideia com os funcionários do estacionamento) é possível entrar na parte de baixo onde fica essa senzala (não recomendo para quem tem problemas respiratórios). Existe muito entulho ali em baixo.
    Mas eu recomendo atenção a construção da fundação, toda feita em tijolos e fixados com barro.
    E o ponto principal, o assoalho do piso superior. Obviamente nessa época não se tinham ferramentas elétricas, então é possível ver toda a imperfeição da preparação das travessas que sustentam o piso. Ou das partes que a compõem. Até mesmo o uso de pequena chapas de madeira para nivelar o piso superior, ainda estão lá. Percebe-se o trabalho artesão de quem o fez a mais de 137 anos.
    Tudo ali, a alguns centímetros da nossa vista (Iluminar com o celular os detalhes aparecem mais).
    Eu me pego indo longe ao imaginar quem poderiam ser tais pessoas, e se elas imaginavam que seu trabalho pudesse ser apreciado tanto tempo depois.
    Levando em consideração a cultura do Brasil para o que é velho, isso nem chega a ser um privilégio e sim sorte por ainda estar lá.
    Recomendo a visita para quem gosta, e que se atem aos detalhes. Leve no celular ou no tablet as fotos que esse site tão maravilho disponibilizou acima. Para comparar, pois é o mais perto que temos disponível de recursos para viajar no tempo.
    Inclusive a atenção ao trabalho feito em madeira no assoalho. Vou voltar lá, com mais tempo, pois 5 minutos foram muito pouco devido a pressa já que era durante a semana quando fui.
    Tudo parece ainda estar no lugar, indiferente ao tempo…

    Reply
    • Marcelo 16/03/2016 at 16:30

      Concordo com você, Rogério, as “grandes” empresas, como Petrobras, são muito duvidosas no que diz em termos de consideração própria sobre possíveis bens culturais. Sinto dizer que o Bradesco, quase sempre, pulveriza os monumentos históricos para fazer suas agências. Tenho a foto duma agência onde não puderam fazer intervenção por se tratar dum sobrado colonial numa das cidades históricas de Minas Gerais (esta foto tenho no livro “The history of the car”).

      Reply
    • Daniel Pardo 19/03/2017 at 19:48

      Foi a mesma sensação que tive ao ver essas fotos, que tudo está ali indiferente ao tempo e no meio da cidade de São Paulo em 2017, o que é praticamente incrível.

      Reply
      • Daniel Pardo 19/03/2017 at 19:51

        A propósito… vendo a foto do Coronel do século retrasado numa pose tão imponente, automaticamente me veio na cabeça as “selfies” de língua de fora ou com “duck face” tiradas pelos jovens de hoje, acho que se pessoas da época do Coronel as vissem, iriam achar se tratar de fotos tiradas no “pinel”. rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs

        Reply
  • Marcio Saviano 09/12/2016 at 10:51

    E a Petrobrás, o que disse ao site?

    Reply

Comunicado importante aos leitores e leitoras do São Paulo Antiga

Neste momento estou enfrentando um período de muitas dificuldades para manter o site no ar, com a possível saída de nosso patrocinador institucional.

 

Preciso da sua colaboração para que o site não encerre suas atividades em 1 de julho de 2018.

 

Faça uma doação ou assinatura mensal no site São Paulo Antiga, através da plataforma APOIA.SE

 

Desde já muito agradecido,

Douglas Nascimento, autor e editor