Quem visita a Praça da República nos dias atuais, possivelmente nem imagina que há pouco mais de 100 anos atrás a área servia de palco para um outro tipo de atividade: as touradas.

Divulgação de tourada na Praça da República em 1902

Divulgação de tourada na Praça da República em 1902

Esta prática que muitos defendem como esportiva, mas que aqui no São Paulo Antiga entendemos como detestável, já foi um acontecimento consideravelmente corriqueiro na capital paulista. Salvo raríssimas exceções, as touradas ocorriam na atual Praça da República.

A primeira tourada em São Paulo aconteceu quase dois séculos atrás, em 1832. Na época o  evento foi uma comemoração pela inauguração de um Hospital de Alienados – destinada a doentes mentais – na esquina da rua Aurora com rua de São João (hoje avenida São João). Era o período imperial brasileiro e a Praça da República tinha um nome bem diferente: Largo dos Curros.

Recorte do jornal Correio Paulistano 19/01/1902

Recorte do jornal Correio Paulistano 19/01/1902

A primeira tourada já começou com um saldo trágico. Um famoso toureiro daquele tempo, conhecido como “Tan-Tan” faria a principal e mais esperada apresentação, a última. Aos olhos do público paulistano Tan-Tan não pareceu tão hábil como foi alardeado e a plateia começou a gritar “à unha, à unha”, que literalmente significa agarrar e vencer o touro com as mãos.

Irritado com o público, Tan-Tan foi com tudo para cima do touro e logo formou-se uma grande nuvem de poeira na arena. Quando esta baixou foi possível avistar o toureiro bastante ferido, mas segurando a cabeça do animal. Tan-Tan foi, enfim, festejado pela multidão que o assistia mas não teve muito tempo para comemorar. Expelindo muito sangue pela boca, devido aos ferimentos, ele morreu momentos depois.

Divulgação

 

Depois desse acontecimento trágico, São Paulo ficou quase sem touradas até o ano de 1877 quando a prática voltou à cidade. Inicialmente fraco e com touros velhos e fracos, o evento foi se aprimorando com o decorrer dos anos.

Em 28 de novembro de 1865, um vereador paulistano sugeriu e conseguiu aprovar a mudança do nome do velho Largo dos Curros para Largo 7 de Abril. A mudança serviria para homenagear a abdicação de d. Pedro I, ocorrida em 7 de abril de 1931.

Este novo nome ao local seria mantido até 1889, quando uma vez ocorrida a Proclamação da República, vários nomes de logradouros públicos que faziam menção ao império foram removidas. Nascia a Praça da República.

Uma das raríssimas fotos de touradas em São Paulo, ocorrida em 1902 (foto: Instituto Moreira Salles)

Rara fotografia de tourada em São Paulo, esta ocorrida em 1902 (foto: Instituto Moreira Salles)

Com uma reformulação na Praça da República entre 1900 e 1902, a arena de touradas também recebeu melhorias, visando comportar mais público. Toda a estrutura de arquibancadas da arena era de madeira.

Na rara foto acima, feita por Edgard Egydio de Souza em 1902, podemos ver o quão popular era este evento. As arquibancadas estavam completamente tomadas pelos paulistanos.

Abaixo, é possível conhecer o programa desta tourada, publicada no jornal Correio Paulistano na véspera e também no dia do acontecimento:

programa19jan1902

Com a popularização dos teatros e também dos cinematógrafos alguns anos depois, as touradas foram aos poucos deixando de ser uma grande atração para o público. Foi também nesta época que países como Chile e Argentina decidiram banir as touradas de seus territórios, ante a crueldade do evento.

No Brasil as touradas foram proibidas mais ou menos na mesma época, mas não foi este o único motivo para o fim da arena em São Paulo. Desde a inauguração do Viaduto do Chá, em 1892, o chamado centro novo, onde se localiza a Praça da República, começou a desenvolver-se e ser urbanizado.

Esta urbanização trouxe também o incômodo por parte destes moradores pela prática das touradas. Na mesma praça também se encontrava a Escola Normal (Caetano de Campos), inaugurada em 1894. Tudo isso somado contribuiu pelo fim das touradas.

Uma estátua por ali homenageando os touros, que tanto sofreram no local, não seria em vão.

A Praça da República atualmente (clique na foto para ampliar)

A Praça da República atualmente (clique na foto para ampliar)

CURIOSIDADES:

:::: São Paulo não era a única cidade brasileira que mantinha a prática de touradas. Naquela época, quase todas as grandes cidades brasileiras dispunham de arenas, fossem elas planejadas ou improvisadas. As mais famosas, além da capital paulista, ocorriam nas cidades de Rio de Janeiro (então capital federal) e Belém do Pará.

:::: Além das touradas, outros eventos que maltratavam os touros também aconteciam. Em 1910, mesmo sob protestos de parte da população, ocorreu uma bárbara luta entre um leão e um touro dentro de uma jaula. Quem será que venceu este espetáculo grotesco ?

Correio Paulistano 12/10/1910

Correio Paulistano 12/10/1910

:::: Eventualmente ocorriam corridas de touros fora da arena da Praça da República. Algumas delas ocorreram em em fevereiro de 1903 no bairro do Brás. Para a corrida foi utilizada a rua Carneiro Leão.

Correio Paulistano 13/02/1903

Correio Paulistano 13/02/1903

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Carla Silva 04/07/2015 at 13:41

    Parabéns pelo artigo Douglas! Muito interessante! Lá na praça da República deveria mesmo ter alguma placa contando um pouquinho dessa história! Parabéns pela pesquisa!

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  • J.C.Cardoso 04/07/2015 at 14:29

    Recentemente soube que aqui no Rio também houve, com praças públicas para tal, inclusive. A proibição veio no início do século XX, pelo então prefeito (interventor, pois era capital) Sousa Aguiar.

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  • Antonio Serrano 04/07/2015 at 16:30

    Difícil de acreditar que tudo isso tenha acontecido em São Paulo …e poucos paulistanos têm conhecimento desse fato.

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  • Clarice Spoladore 04/07/2015 at 16:43

    Tradições implantadas. Morei alguns anos em Cuiabá-MT e os moradores antigos falam das touradas. Os colonizadores levaram para lá a “festa”, lá pela metade do séc. 18, de onde saiu apenas em 1936, sobretudo por interferência da sociedade protetora dos animais, alegando maus tratos aos animais. As famílias de posse transformaram as touradas em encontro de celebridades da época, exibindo todo o luxo/elegância que podiam…

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  • João Daniel 04/07/2015 at 17:31

    Parabéns,artigo bem explícito mesmo para quem detesta ou ama esta arte!!! PS : Porquê o nome praça dos curros?Será que tem que ver com o transporte de touros?Curros,são lugares ou boxes onde estão os touros para serem lidados em praça!!!!!

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    • Douglas Nascimento 05/07/2015 at 12:44

      Era isso mesmo João

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  • Jose Solimoes 04/07/2015 at 17:42

    Sim, belo artigo. Acho que por essa época houve uma febre de touradas, inclusive no Porto. Depois passou.

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  • José Carlos Martinez Serrote 04/07/2015 at 18:01

    Caramba ! Essa eu não sabia !

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  • Marcello Cortegoso 04/07/2015 at 18:39

    Muito Interessante ! Ótimo obter esse tipo de conhecimento sobre locais q a gente imagina conhecer tão bem e q na verdade, nao sabe nada. Muito obrigado !

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  • Christian 04/07/2015 at 18:53

    “Esta prática que São Paulo Antiga entendemos como detestável”.
    Isso me fez gostar ainda mais desse site!

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  • antonio carlos novelli 04/07/2015 at 19:52

    Muito interessante não sabia disso, para mim foi uma surpresa! Mas por outro lado, de um modo geral, sou totalmente contra as touradas! Ok Douglas, valeu, abraço!

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  • Agronopolos 05/07/2015 at 02:58

    Poderia voltar ter Touradas aqui em SP né?
    PS: ela são tão prejudiciais aos touros quanto Festas de peão e Boiadeiros

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    • Christian 05/07/2015 at 16:49

      Cara mas que desconhecimento sobre touradas…
      Dá uma lida sobre o que acontece com o touro em touradas:
      http://pt.slideshare.net/AntiTourada/a-verdade-sobre-as-touradas

      Além domais, tourada, festa do peão, farra do boi não passa de manifestações culturais de puro sadismo com animais, quem se diverte com sofrimento alheio, pra mim é que nem psicopata, não tem outro nome!

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      • danielpardo2015 20/07/2015 at 22:51

        Eu ia falar que nessas “comemorações” eu torço para o touro, mas nem isso adianta…

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  • Vinícius 05/07/2015 at 14:09

    Artigo interessantíssimo. Entretenimento mais original que as touradas intelectuais que somos obrigados a ver aos domingos à tarde na televisão.

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  • Eduardo Britto 05/07/2015 at 18:30

    Livros e artigos mencionam as touradas no largo do Curro, ou praça da República. Agora, essa foto do IMS é mesmo um achado! Parabéns à equipe!

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  • Sérgio Santana 05/07/2015 at 19:04

    Puxa… cada dia, uma surpresa!!

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  • Emerson de Faria 07/07/2015 at 12:48

    Sempre soube dessa história de touradas na região da República, mas desconhecia os detalhes. Parabéns pela matéria.

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  • Tarcísio Moura 07/07/2015 at 22:22

    Não conhecia o fato, sou apreciador de touradas. Olé!

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  • Jorge Roberto Coelho Ferreira 07/07/2015 at 22:57

    Beleza de matéria. Já havia lido algo a respeito, mas, nem de longe, com os detalhes que esta traz. Isso me trouxe à lembrança uma patacoada das mais ridículas que aconteceu numa cidade do norte do Paraná, que por ora não lembro qual, no final dos anos setenta ou começo dos oitenta, se não me engano. Pois bem, resolveram promover uma tourada; arranjaram um toureiro, que não era espanhol, era um mexicano, dito “El Tigre de Jalisco”. O Touro não era um Miura, era um nelore. Bom, acabou como soem acabar tais empreendimentos: o toureiro, meio mamado, levou umas boas chifradas, o touro escapou e chifrou vários patetas que foram lá assistir. Ao cabo uns foram parar no hospital e outros na Delegacia de Polícia.

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  • Odone Lenine Braga 11/07/2015 at 20:23

    Sempre gostei de parcerias com animais, não aprecio e nem aprovo enfrenta-los, primeiro porque são mais fortes e pela desigualdade de inteligencia, não é justo mal tratar qualquer animal, eles são inocentes e sem maldade.

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  • Marina Vilas Boas 31/05/2017 at 14:54

    A preferência por espetáculos cruéis onde animais indefesos são torturados e imolados é digno de seres primitivos e covardes… Felizmente mais e mais pessoas estão despertando para um modo de existir onde há o respeito ao outro. Quem sabe um dia esse mundo será um lugar melhor para animais e pessoas viverem.

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