Quem vem da região da Barra Funda em direção à Lapa repara esta belíssima construção localizada no lado esquerdo da hoje tão mal cuidada Rua Guaicurus, na zona oeste de São Paulo.

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A rua que no passado fervilhava de pessoas, comércio intenso e também muita atividade industrial, hoje é um aglomerado de casas vazias, prédios e galpões abandonados e muita pichação. Porém, no meio de tanta tristeza a alegria e a beleza ainda brilha e atende pelo nome de União Fraterna.

HISTÓRIA:

A Sociedade Beneficente União Fraterna tem laços antigos com a cidade e com o desenvolvimento de sua região.

Fundada em 21/10/1925 com a fusão de duas entidades anteriores, a Sociedade Ítalo Brasileira de Mútuo Socorro (de 1907) e a Mútuo Socorro Centro Operário (de 1922), inicialmente chamou-se Sociedade de Mútuo Socorro União Fraterna da Água Branca. Esta denominação manteve-se até 1976 quando teve seu nome simplificado para Sociedade Beneficente União Fraterna.

O prédio da União Fraterna, erguido em 1934

A jovem organização fundada em 1925 logo se destacaria na sociedade paulistana através das suas atividades institucionais que tanto ajudaram a coletividade, como a prestação de assistência médica gratuita ou de baixo custo – isso tudo muito antes da existência dos planos de saúde – além de atividades filantrópicas, beneficentes e de promoção humana. Na entidade também se oferecia ensino de datilografia e inúmeras atividades recreativas, como bailes, festas e eventos especialmente destinados à terceira idade.

Desde seu princípio a atenção à coletividade carente e necessitada foi uma de suas atividades fundamentais. A rápida ascensão da União Fraterna iria permitir que 9 anos depois de sua fundação o belíssimo prédio de sua sede, na Rua Guaicurus, fosse inaugurado com muita pompa e orgulho no ano de 1934.

Uma das antigas diretorias da União Fraterna

Desde então o prédio é uma das mais belas construções da Lapa antiga, tendo sido reconhecida como uma das “10 Maravilhas da Lapa” pelo Rotary. Tombado pelo CONPRESP como patrimônio histórico da Cidade de São Paulo desde 1994, o prédio possui dois pavimentos e aproximadamente 1258 metros quadrados, assim distribuídos:

  • Pavimento térreo: Escritório da Administração e 5 lojas alugadas a terceiros
  • Pavimento superior: Onde está localizado o magnífico salão social.

Galeria de fotos antigas da União Fraterna (clique na foto para ampliar):

MÉDICOS PARA TODOS
No passado a saúde pública era péssima e não existiam planos de assistência médica nos moldes que conhecemos hoje, consultas com médicos custavam muito caro e era um privilégio o qual nem todos podiam pagar. Visando amenizar esse doloroso impacto social nas camadas mais humildes dos paulistanos, a União Fraterna dispunha em sua sede de um invejável corpo médico sempre a postos do cidadão.

Na foto o atendimento médico e dentário na União Fraterna

Médicos e cirurgiões dentistas tinham expediente no prédio da rua Guaicurus para atender as pessoas que não tinham condições de ir em clínicas particulares. Os preços eram baixos e os atendimentos pontuais e eficientes.
Mesmo com a concorrência atual dos planos de saúde e a sensível melhora dos hospitais públicos, a União Fraterna ainda dispõe até hoje de atendimentos médicos, realizados fora de sua sede, através de convênios estabelecidos junto a médicos e clínicas. Ainda há convênios como exames de laboratório, exames especializados (endoscopia, mamografia etc) e serviços especiais como fisioterapia e radiologia.
O TOMBAMENTO E AS DIFICULDADES:
Ser proprietário de um patrimônio histórico é motivo de orgulho para a União Fraterna, mas também é motivo de constante apreensão. Tombado há 17 anos a construção é absolutamente preservada por dentro e por fora, mas no seu exterior é alvo constante de atos de vandalismo como pichações ou pedras que são atiradas contra os belíssimos vitrais do prédio.
Segundo Valdelice Silva, uma das administradoras da União Fraterna, os atos de vandalismo trazem não só um grande prejuízo como muitos outros transtornos para a entidade e seus funcionários e voluntários.

O vandalismo é uma constante e prejudica a entidade

O imóvel, de estilo eclético, foi projetado e construído pelos arquitetos José Viandana, Ítalo Catalani e Ricieri Pinotti. Apesar de sua bela conservação, o imóvel precisa de alguns ajustes para seguir de acordo com a sua proposta de originalidade, mas esbarra na falta de recursos.
Segundo seu presidente, João Mantovani Filho, um amplo projeto de restauro foi desenvolvido em 2005 pela arquiteta Fernanda Toledo de Mesquita. Aprovado pelo CONPRESP o projeto segue congelado pela falta de interessados em patrocinar.

João Mantovani Filho, presidente da União Fraterna

Para Mantovani Filho, as empresas precisam conhecer melhor a União Fraterna: “É uma patrimônio histórico importante de nossa cidade e as empresas precisam nos conhecer melhor, assim ficarão interessadas em nos ajudar”, conta.
Construída por valorosos homens e mulheres que sempre pensaram no próximo, é hora da nossa cidade dar sua retribuição a esta entidade que tanto fez e ainda faz por São Paulo. Por isso fica o apelo no ar: Vamos ajudar a restaurar a sede da União Fraterna ? Empresários, pensem nisso!
Para falar com a União Fraterna ligue (11) 3672-0358
Veja mais fotos externas (clique na miniatura para ampliar):
Veja mais fotos internas (clique na miniatura para ampliar):

About the author

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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Comments

  • Rosana Bacarini 01/11/2011 at 20:06

    Até pra atender a população mais humilde existia elegância.
    Parabéns Douglas

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  • Daniel 02/11/2011 at 11:04

    Pichadores são mesmo um câncer.

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  • Ralph Giesbrecht 02/11/2011 at 14:04

    Muito bonita, mesmo.

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  • Ariane Corral 05/11/2011 at 22:11

    Estou na torcida para ver o prédio da União Fraterna totalmente restaurado!!!

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  • José 13/11/2011 at 02:47

    Que lugar maravilhoso, novamente parabéns pela reportagem.

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  • Ricardo 29/11/2011 at 12:54

    Parabéns pela pesquisa!!
    O guaraná Brahma e o canecão de porcelana da penúltima foto, deram saudades.

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  • Thiago 15/01/2012 at 18:10

    Quem está por perto sabe da luta diária da Dona Valdelice e do Sr. João para preservar este prédio, o mínimo que a prefeitura poderia fazer é isentar a administração do pagamento de IPTU, parece brincadeira mas um prédio tombado paga imposto e esse imposto não ajuda nada, pelo contrário só tira mais dinheiro de quem já se esforça pra manter o prédio conservado.

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  • guilherme salles de campos 02/03/2012 at 23:55

    que lindo resistindo as mudanças feroses da grande metropole com certeza uma joia rara,parabens união fraterna pela dedicação e alegria nesta esquina cristalizada da lapa.

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  • Inês 11/04/2012 at 13:20

    Nesta semana passei por lá, me chamou a atenção de que o nome foi retirado do alto do prédio.
    Será que eu é que não havia percebido antes, ou é a lei da “”cidade limpa”” (hunf) da prefeitura de São Paulo brincando mais uma vez com coisa séria!?!?!?!?!

    PARABÉNS PELO SITE FANTÁSTICAMENTE SOLIDÁRIO COM A HISTÓRIA E POR VEZES SOLITÁRIO NA LUTA!!!

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  • Fabiola Nosaki 08/05/2012 at 15:43

    Não Inês, eles mudaram o letreiro, você passou justamente na semana em que estava retirando o antigo letreiro para a instalação do novo. Pode passar novamente e verá. Eu sei disso pois em 14/04 já estava lá juntando material para minha matéria sobre o Baile da Saudade, um baile de gala que acontece todo o 2º sábado de cada mês (menos em dezembro e janeiro) e que é o único que preserva as características da época. Homens de smoking com cravo na lapela, e mulheres penteadas, maquiadas e vestidos longos. Com a modernidade eles tiveram que se adaptar, hoje os homens podem usar terno completo com gravata e as mulheres, é permitido o longuete, porém é somente essa adaptação, ou seja, tenis, calça jeans e camiseta, JAMAIS!
    Se você e seu marido dançam e quiserem conhecer tenho certeza de que irão gostar, mas não esqueçam do traje social completo.

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    • Inês 08/05/2012 at 16:05

      UFA! Obrigada Fabíola pelas informações. Bom que foi apenas uma coincidencia do dia. Não sabia que ainda existia este baie, devem ser lindos e elegantes estes freguentadores. Mas eu sou da turma do tênis e jeans rsrs jamais poderia entrar.rs Forte Abraço

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      • Fabiola Nosaki 09/05/2012 at 02:13

        De nada, são bem elegantes, eles fazem até coreografias. Eu filmei e postei no meu canal do youtube, não sei se posso postar o link mas me envie um e-mail (fabinosaki@hotmail.com) que te mando o link e você terá uma idéia melhor. Um bjo

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  • clovis 25/10/2012 at 14:01

    o site é excelente e ja doei foi pouco mas espero que ajude…

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  • ericson 14/11/2012 at 00:48

    Bacana mesmo. Mas também achei legal, numa foto da portaria, a placa de indicação das ruas com a propaganda do TWELVE.

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  • Sonia Evangelista 21/11/2012 at 22:13

    Esse merece o respeito de todo cidadão do bem.
    O predio é lindo e o trabalho deles devia ser copiado pelo poder público.

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  • George Luiz Kovacs 21/01/2013 at 13:07

    Na década de 60 meu Avô recebeu uma homenagem da União Fraterna, eu estive presente, mas não me lembro que homenagem, e toda vez que vou à São Paulo passo pelo bairro e me lembro deste acontecimento, o nome de meu Avô é João Kovacs.
    Foi bom recordar desta festa, embora vagamente.
    Obrigado.

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  • Roberto Cetra 16/03/2013 at 17:09

    Belíssima reportagem sobre este prédio histórico que é a União Fraterna. Eu vivi parte da história do prédio e gostaria de colaborar com um documento que foi do meu pai. Trata-se de um diploma de Sócio da União Fraterna de 1933 assinado pelos dirigentes da época. Já está digitalizado e posso enviar por e-mail. Orientem-me.

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  • cida 27/03/2013 at 00:07

    Lugar maravilhoso, que bom que ainda existe uma coisa rara em São Paulo.

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  • Marcel Mano 09/04/2013 at 16:24

    minha família, avós tios, frequentaram principalmente os bailes. Eles tinham uma casa geminada no próximo quarteirão que foi vendida a antiga Pompéia Veículos na década de 90. O nono usava o pretexto de levar minha mãe na doceria Polén, rua Clélia, para tomar sorvete, ele era diabético.

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  • Eliana Osés Tavares da SIlva 26/04/2013 at 10:14

    A festa de casamento dos meus pais foi neste salão em 30 de dezembro de 1950.
    Muito bom ver o prédio conservado e ainda sendo utilizado para festas.

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  • mario veltri 03/05/2013 at 10:17

    Parabéns pela lembrança ai foi o local romântico para a juventude dos anos 60 eu me encluo nessa

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    • Eliana Osés 06/05/2013 at 09:38

      A família dos meus pais eram do bairro da Água Branca talvez nossos parentes sejam até conhecidos, a família do meu pai eram os ” Osés” e da minha mãe os ” Venturini”.

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  • Domingos de Santis 16/12/2013 at 08:52

    E PARA O MOMENTO QUERO DEIXAR AQUI MINHA COLABORAÇÃO SOBRE O SALÃO DO UNIÃO FRATERNA QUE EM 2006 FOI PALCO DO FILME CHEGA DE SAUDADES MUITO PREMIADO NO BRASIL E NO EXTERIOR, FILME DA DIRETORA LAIZ BODANSKI

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  • rita de cassia bueno de carvalho 16/12/2013 at 22:14

    Acho que tenho fotos de bailes que meus pais participaram representando sociedade de amigos do bairro

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  • Benedito Diniz Pacheco (Didy) 03/03/2014 at 14:41

    Quanta Saudades, muitas vezes eu fui a essa maravilha.Gostaria de saber se ainda são feito bailes e quando eles acontecem ? gostaria de levar minha esposa pois ela nunca conheceu a União Fraterna. parabéns ,abraços e até depois …

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  • Célia Oliveira 16/05/2015 at 12:56

    Gostaria de saber se ainda fazem bailes la,pois iria gostar de ter um lugar perto de casa pra frequentar, obrigado e parabéns…

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    • Douglas Nascimento 16/05/2015 at 13:10

      Olá Célia!
      Fazem bailes lá sim. E são ótimos…

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  • Guia das Massagistas 18/11/2015 at 01:06

    incrivel como as grandes marcas nao pensem em usar o espaço para eventos. Lindo.

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  • Lucy Godinho 12/07/2018 at 12:04

    Parabéns ao criador do site, adoro SP antiga e tenho muitos arquivos que poderiam ajudar nas antiguidades.
    me contactem por favor

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