O relacionamento da Família Vignoli com o vidro nasce no momento em que José Vignoli (1886 –1979) deixa a cidade de Campinas e vai estudar optometria nos Estados Unidos, no início do século XX, iniciando sua vida acadêmica no Pennsylvania College of Optics and Optometry.

Tendo se formado em 1916, retorna ao Brasil fixando-se em São Paulo onde abriu a Optica Norte-Americana no primeiro andar de um prédio que ficava na esquina da Avenida São João com a Rua Líbero Badaró.  O sucesso não tardou a chegar uma vez que trazia para o Brasil um novo conceito no exame de vista, mais atualizado, com aparelhagem moderna além de uma bagagem acadêmica diferenciada numa São Paulo ainda muito provinciana.

Por volta dos anos 30, o Dr. José Vignoli inicia a fabricação de lentes através de uma empresa que ele denominou Manufatura Nacional de Lentes e é aí que se inicia de fato a relação dos Vignoli, com o vidro.

A partir da fabricação de lentes, começa a fabricação de peças maiores, de uso doméstico, tais como bombonieres.

Nesta imagem aérea de 1966 a fábrica fica na área destacada (clique para ampliar)

Em 1943, Vignoli (1922-1991), seu filho, deixa a Theodor Wille onde trabalhava para se juntar naquela que seria a oportunidade de expandir aquele pequeno negócio artesanal ligado ao vidro, registrando-se na Junta Comercial em 14 de novembro de 1944 a constituição da Cristaleria Jaraguá Ltda.. No início foi formada uma sociedade tendo como sócios o Dr. José Vignoli, seu filho José Antonio Vignoli, então com 22 anos de idade, os irmãos Armando e José Bucelli e Heitor Vicentini.

Em 1948 na Rua Manoel Ramos Paiva, 441 num imóvel próprio, foram construídas as novas instalações. Instalava-se então no Belenzinho, tradicional bairro industrial e operário muito ligado à história do vidro no Brasil, já que neste mesmo bairro funcionaram a pioneira Cristaleria Germânia (1892), a Crystalleria Progresso, além de tantas outras cristalerias (Itália, Paraíba, Cruzeiro, Franco-Paulista etc.).

Em 1954 foram comemorados os dez anos da Jaraguá e tal efeméride ficou registrada com a publicação de um anúncio na revista O Cruzeiro, no jornal O Estado de S. Paulo e Correio Paulistano.

Em dezembro de 1955 a razão social é mudada para S/A Cristaleria Jaraguá e Vignoli se torna o principal acionista.

Maquinário em funcionamento (clique para ampliar)

Desde o início das atividades, o forte da sua linha de produtos foi a fabricação de frascos para atender laboratórios, indústria farmacêutica e perfumaria, além de uma linha muito especial para casa com copos e outras peças feitas de forma totalmente artesanal.

O relacionamento da Jaraguá com o setor de perfumaria era muito estreito, inclusive, pelo desenvolvimento de frascos exclusivos muitas vezes desenhados por ele e permanente interesse no desenvolvimento do setor perfumista. A presença da Jaraguá neste setor era importante.

Abaixo alguns dos produtos (clique na foto para ampliar):

Com a diminuição da demanda pela indústria de perfumaria, a Jaraguá também passou a fabricar garrafas de bebidas como Drury’s, Catto’s, Old Eight entre outros além de mamadeiras e potes para conservas, café solúvel, pinhos etc.

Em 1971 a Jaraguá participou, pela primeira vez, de uma feira de negócios. Era a Feira da Embalagem realizada no pavilhão do Anhembi em São Paulo. Numa das poucas fotos encontradas, pode-se ver um orgulhoso Vignoli ao lado de seu amigo Caio Alcântara Machado, o pai das feiras de negócios no Brasil.

Na foto Vignoli (esquerda) e Caio de Alcântara Machado (direita) – clique para ampliar

A Jaraguá fazia parte de várias associações representativas da indústria do vidro no Brasil e no exterior (ALAPROVI – Associação Latino Americana dos Produtores de Vidro) onde Vignoli foi membro ativo viajando e participando de congressos em busca de novas tecnologias e mercados. Vignoli foi também diretor do Sindicato das Indústrias de Vidros, Cristais Planos e Ocos do Estado de São Paulo, da Associação da Indústria Sul Americana de Vidro, fundador e presidente da ABIVIDRO.

A crise do petróleo, a concorrência do plástico entre os vários outros problemas econômicos da época fizeram com que a Jaraguá desligasse seus fornos no dia 9 de janeiro de 1981. Termina neste momento uma história industrial de 37 anos; termina também a contribuição de uma indústria genuinamente brasileira no mercado vidreiro nacional.

Veja mais fotografias de produtos da Cristaleria Jaraguá (clique para ampliar):

 

QUEM FIM LEVOU O IMÓVEL DA FÁBRICA ?

Tendo passado quase 4 décadas desde que a Cristaleria Jaraguá encerrou suas atividades, esta pergunta é bastante pertinente. Afinal vivemos em uma cidade que construções antigas em, especial as de fábricas, costumam ter suas existências abreviadas em benefício da especulação imobiliária.

A fotografia abaixo, de 1968, mostra a fachada da empresa quando ainda ela estava em pleno funcionamento. Na sequência, uma fotografia de 1975 mais próximo do final das atividades fabris.

1968 (clique na foto para ampliar)

1975 (clique na foto para ampliar)

Ao menos a fachada da antiga Cristaleria Jaraguá resiste ao tempo. De acordo com o que foi possível apurar há indícios de que dentro tudo fora demolido, tendo o imóvel se transformado em um amplo galpão.

As duas fotografias a seguir mostram imagens atuais da área (clique para ampliar):

Sobre o autor

Educador financeiro - www.vigplan.com.br , palestrante, pesquisador independente e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP

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Comentarios

  • Carla Silva 09/12/2019 at 18:09

    Que pena ter acabado a fábrica…que história incrível!

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    • José Antonio Penteado Vignoli 11/12/2019 at 21:05

      Os eventuais patentes ou diretos sobre as embalagens pertenciam as empresas que encomendavam os frascos.

      Reply
  • Helen Sylvia 09/12/2019 at 18:13

    Boa tarde! Ms muitas destas embalagens ainda são utilizadas, tipo perfumes, whisky, etc. Sera que a industria vendeu a patente??

    Reply
  • Sandra 16/12/2019 at 14:24

    Esse primeiro vidro que aparece no começo da história é do perfume SHALIMAR muito usado por mimha mãe … viajei no tempo .

    Reply
  • Fábio Holl de Oliveira 07/07/2020 at 16:32

    Muito interessante como as genuínas empresas nacionais vão perdendo espaço para principalmente indústrias chinesas.
    Já conhecia toda a história desta empresa através de meu amigo José Antônio Vignoli.

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  • fiação indiana — aqui tem coisa 07/07/2020 at 20:38

    […] A história da empresa da família de Vignoli é também muito interessante, veja aqui. […]

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